COMO FLÁVIO BOLSONARO QUER CONQUISTAR AS MULHERES




A escolha do vice-presidente da candidatura bolsonarista foi um tremendo fiasco.

Em baixa com o eleitorado feminino, Flávio Bolsonaro, do PL, passou os últimos meses prometendo que escolheria uma vice-presidente mulher.

Mas, segundo o presidente do seu partido, Valdemar da Costa Neto, a procura por um nome feminino não passou de um grande teatro, já que o nome do deputado federal Alfredo Gaspar, também do PL, tinha sido escolhido há seis meses.

É mais uma mentira de Valdemar, claro. O presidente do PL tentou escamotear a bagunça e a fragilidade de uma campanha que até um dia antes da convenção partidária ainda não havia conseguido indicar um vice.

Mesmo tendo uma candidatura eleitoralmente forte, Flávio mostrou-se incapaz de costurar alianças com outros partidos do seu espectro político. É uma proeza e tanto.

O senador então se viu obrigado a formar uma chapa pura do PL, o que diminuiu consideravelmente as possibilidades de escolher uma mulher como vice.




Inabilidade política

O objetivo era buscar a simpatia do eleitorado feminino, mas acabou escolhendo um homem acusado de estuprar uma adolescente para ser seu vice.

O nível de inabilidade política é grande demais para quem está há mais de duas décadas na vida pública. Contrasta com a grande habilidade em multiplicar o patrimônio a cada mandato.

A crise familiar e política implodiu qualquer possibilidade de uma vice mulher. Depois de lavar roupa suja em público, Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado pelo PL, recusou a vaga de vice, faltou às convenções e se recusa a aparecer ao lado de Flávio.

Mesmo depois de gravar vídeo aceitando as desculpas do enteado, a ex-primeira dama faz questão de manter distância dele. O fato é que nenhuma mulher topou entrar nessa barca furada.

Se alguém dissesse no início do ano que Flávio iniciaria a disputa sem nenhum partido coligado, ninguém acreditaria. União Brasil, PP, Podemos e Republicanos eram nomes praticamente fechados com Flávio.

Diante da sequência de trapalhadas — “Dark Horse”, Tariflávio e Michelle — os partidos do campo bolsonarista sentiram o cheiro de roubada e decidiram cair fora. Era dado como favas contadas que o Flávio teria muito mais tempo de horário eleitoral na TV que Lula, mas ocorrerá o inverso.

Mais do mesmo

A escolha de Gaspar é surpreendente, porque se esperava um nome mais ao centro, com perfil moderado, para compensar a radicalidade adotada por Flávio. O vice escolhido é mais do mesmo.

Gaspar é um deputado da bancada da bala cuja atuação política praticamente limita-se a vociferar contra a bandidagem.

Talvez o único apelo eleitoral do novo vice seria o destaque que ele teve na relatoria da CPI do INSS, quando pediu, sem sucesso, a prisão preventiva do filho de Lula e entusiasmou os fiéis da seita bolsonarista.

É muito pouco para uma candidatura que, apesar de ter diminuído a vantagem de Lula nas últimas pesquisas, ainda encontra dificuldades para furar a bolha bolsonarista.

A escolha de alguém que está sendo acusado de estupro de uma adolescente é reveladora do desespero que tomou conta do núcleo político de Flávio. Por mais que a acusação não seja confirmada no futuro, ela pairará por algum tempo sobre a candidatura, o que pode ser fatal para quem precisa desesperadamente conquistar o voto feminino.

O campo político que defende a família, a moral e os bons costumes vai disputar o pleito com uma acusação de estupro nas costas. Não é pouca coisa.

A base mais fiel pode até engolir esse sapo, como tem feito com tantos outros ao longo dos anos, mas o eleitor que ainda não decidiu o voto, aquele que Flávio precisa buscar para virar o jogo, dificilmente ignorará o peso da acusação.

As fragilidades da candidatura de Flávio

A extrema direita chega para a disputa eleitoral com uma série de fragilidades estruturais: não tem um arco de alianças, não tem um vice estratégico e com apelo eleitoral, não conta com o entusiasmo da madrasta popular e ainda pode sofrer com os desdobramentos dos escândalos de corrupção em que Flávio está metido.

Se a política fosse uma ciência exata, poderíamos dizer que tudo aponta para uma derrota retumbante de Flávio. Mas sabemos que as coisas não são tão simples e fatos novos podem alterar rapidamente o quadro.

O bolsonarismo ainda é uma força eleitoral muito forte e a diferença na porcentagem de votos para Lula é pequena. Mesmo com tantos reveses nos últimos meses, Flávio conseguiu estancar a queda nas pesquisas e até recuperar um pouco o fôlego.

Além disso, os extremistas contam com o fiel escudeiro Kassio Nunes na presidência do Tribunal Superior Eleitoral e com um André Mendonça no Supremo Tribunal Federal com um claro apetite para arrastar o nome de Lula para a roubalheira do INSS.

O ministro “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro tem extrapolado suas funções ao tentar controlar todos os procedimentos da Polícia Federal sobre o caso do INSS, o que é, no mínimo, controverso. O controle externo da PF é prerrogativa do Ministério Público Federal, e não de um ministro do Supremo.

Mendonça parece querer estabelecer a narrativa de que a polícia está sendo omissa nas investigações contra Lulinha. Por enquanto, não há nada além de suspeitas contra o filho do presidente, mas o assunto entrou no noticiário com força nos últimos dias.

Já o caso “Dark Horse” esfriou, e o ministro Mendonça não demonstra a mesma volúpia para investigá-lo. Não fosse a Vaza Flávio, publicada pelo Intercept, provavelmente estaríamos até hoje sem saber das conversas do candidato com Daniel Vorcaro, o maior bandido do Brasil.

Apesar de todos os obstáculos que Flávio e sua turma têm criado para eles mesmos, não se pode subestimar o poder eleitoral e a capacidade que essa gente tem para arrastar a disputa para o tapetão.

A esperança da extrema direita é que o quadro eleitoral possa ser revertido na trincheira jurídica. O recente histórico da política brasileira sugere que essa não é uma possibilidade remota. Que os democratas fiquem atentos, porque os golpistas seguem vivos.











Ministro da Defesa sem defesa

Qualquer idiota sabe que o Brasil não tem bala para segurar uma guerra com os EUA. Mas, em meio à escalada das tensões entre os dois países, o ministro da Defesa, José Múcio, achou por bem reforçar essa obviedade.

Perguntado sobre quais ações tomaria caso os EUA invadissem o Brasil, o ministro surpreendeu ao sugerir uma capitulação ampla, geral, irrestrita e desavergonhada:

“Temos que abrir o portão. O Brasil não tem equipamento para enfrentá-lo, nem tem dinheiro para consertar o portão. Eu prefiro abrir o portão".

A declaração foi dada enquanto o ministro defendia maiores investimentos em equipamentos e tecnologia para a Defesa. A reivindicação do ministro pode ser justa, mas dizer que irá se render facilmente caso o país seja invadido é o entreguismo na sua mais pura essência.

Justo no momento em que Trump revoga o visto da embaixadora brasileira nos EUA, coopta jornalistas brasileiros e articula para interferir nas eleições brasileiras, o nosso ministro da Defesa decidiu se ajoelhar aos pés do Tio Sam.

Lula ficou incomodado com a declaração, mas essa postura do ministro não deveria causar surpresa. Esse é o mesmo Múcio que atuou nos bastidores para tentar livrar a cara da cúpula das Forças Armadas na tentativa de golpe de 8 de Janeiro.

O fato é que já não é mais possível defender a soberania nacional e manter Múcio na Defesa ao mesmo tempo.

Criando cuidadoras

Ninguém duvida da capacidade de um homem criado por Jair Bolsonaro em proferir barbaridades contra as mulheres, mas, mesmo assim, às vezes a gente se espanta.

Depois de passar meses prometendo mundos e fundos para o eleitorado feminino, inclusive uma vice, Flávio Bolsonaro escolheu um homem que está sendo acusado de estuprar uma menor de idade para compor a chapa.

No evento em que anunciou o deputado Alfredo Gaspar como seu vice, o 01 tentou compensar o mal estar com o eleitorado feminino com a seguinte declaração:

"Muitas vezes, na grande parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso. Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim”.

O senador fala com a maior naturalidade do mundo que teve filhas mulheres para que elas possam cuidar dele na velhice. A visão utilitária que Flávio tem da sua prole feminina é reveladora do nível do machismo entranhado nos Bolsonaros. O senador ainda explica por que suas filhas cuidarão dele na velhice:

“porque as mulheres são assim: são família, são coração, são sentimento, são sensibilidade”.

É tudo tão caricato que até parece uma sátira. O senador quase completou o bingo do machismo com apenas uma frase.

Fica claro qual é o papel que Flávio e seus irmãos acreditam que Michelle Bolsonaro deve cumprir: longe da política e cuidando do pai presidiário.


GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

Postar um comentário

0 Comentários