PF APURA SE DINHEIRO DE VORCARO FOI PARA CUSTEAR PERMANÊNCIA DE EDUARDO BOLSONARO NOS EUA



Investigações indicam que houve transferências de uma empresa ligada ao Master para um fundo no Texas

Por Sarah Teófilo e Eduardo Gonçalves

Eduardo Bolsonaro (PL-SP) — Foto: Reprodução de vídeo

A Polícia Federal (PF) apura se o dinheiro solicitado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para um filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi usado para custear a estadia do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Esta linha de investigação da PF visa esclarecer se o dinheiro foi de fato usado para financiar a produção cinematográfica ou se foi apenas uma justificativa para a remessa dos valores.

Na última quarta-feira, o site Intercept Brasil divulgou conversas entre Flávio e Vorcaro nas quais o senador pede ao empresário pagamento de “parcelas” para financiar um filme biográfico sobre o pai, a ser lançado às vésperas da eleição de outubro.

A obra cinematográfica, que conta a história da campanha de 2018 de Bolsonaro, teria chegado a receber R$ 61 milhões repassados pelo banqueiro. O senador confirmou as tratativas, mas argumentou que não houve “favores em troca”.

— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público — disse o senador.

Ocorre que tanto o deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, como a produtora Goup Entertainment divulgaram notas nesta quarta-feira para dizer que a produção não recebeu nenhum centavo de Vorcaro.

Segundo a reportagem do Intercept, há um comprovante de pagamento de R$ 2 milhões de dólares entre uma empresa apontada como intermediária de pagamentos ao Master e o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. A transferência teria ocorrido em fevereiro de 2025.

De acordo com documentos dos EUA, o fundo tem como "agente legal" o escritório de um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente. Procurado, Eduardo não comentou

O deputado Eduardo Bolsonaro se mudou para os Estados Unidos no início do ano passado. Ele é réu em um processo no Supremo Tribunal Federal (STF) acusado de buscar sanções econômicas contra o Brasil e ministros da Corte como forma de criar obstáculos para o julgamento de seu pai no caso da trama golpista.


Nesta quinta-feira, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), um dos vice-líderes do governo na Câmara, enviou uma representação à PF pedindo a "verificação de eventual uso dos valores para custear lobby, advocacia, comunicação política, campanhas digitais, sanções, tarifas, pressões contra autoridades brasileiras ou apoio a investigados, aliados e fugitivos no exterior".

Conversas entre Vorcaro e Flávio

O material revelado ontem, também sob investigação da PF, mostra que o senador insiste no repasse para o filme em mais de uma ocasião e demonstra estar ciente da crise do Master à época. Um dos diálogos foi travado na véspera da primeira prisão de Vorcaro.

A primeira cobrança documentada deu-se em 8 de setembro de 2025, em um momento no qual, segundo Flávio, os envolvidos na produção do filme “Dark horse” tinham dificuldades para honrar compromissos da montagem. “Tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso, e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”, disse.

Em outro contato feito dois meses depois, Flávio insiste: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz”, cobrou.

Na manhã de quarta-feira, ao ser questionado por um repórter do Intercept sobre o assunto, o senador sustentou que os diálogos eram “uma mentira”. Só à tarde, com a reportagem já publicada, Flávio admitiu os contatos com Vorcaro, qualificados por ele como uma negociação entre entes “privados”.

Vorcaro está preso e negocia uma delação premiada com potencial de afetar representantes dos três Poderes. São esperadas revelações de sua atuação para receber blindagem política e, assim, encobrir as fraudes operadas no banco.


Após resvalar em nomes de diferentes correntes ideológicas, o escândalo despertou uma disputa de narrativa entre esquerda e direita. As novas revelações, somadas à operação da PF que mirou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), atingem diretamente o bolsonarismo.

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