Família Feffer lucra com “ativos verdes” enquanto devolução de terras quilombolas segue travada no Espírito Santo
Montagem José Cícero/Agência Pública
Por Mariah Friedrich | Edição: Thiago Domenici | Fotógrafo: Leonardo Sá
No Sapê do Norte, no extremo norte do Espírito Santo, a disputa pela terra não aparece primeiro nos autos do processo nem nas planilhas de investimento. Ela aparece na paisagem. De um lado, as comunidades quilombolas que lutam para permanecer onde seus avós e bisavós viveram e, do outro, a sucessão quase hipnótica de fileiras de eucaliptos, plantadas com disciplina industrial. Entre uma coisa e outra, surge uma história sobre os super-ricos brasileiros.
A liderança quilombola Luzia Serafim Belmiro, guardiã da memória da Mata Atlântica suprimida pela instalação da Aracruz Celulose — hoje incorporada à Suzano, controlada pela bilionária família Feffer —, costuma medir essa história pela mata que desapareceu no território. Quando a Aracruz chegou, no fim dos anos 1960, ela e os irmãos ainda eram crianças. O avô e o bisavô já eram dali, nascidos nas margens do rio Angelim. “Eles não vieram de lugar nenhum: somos filhos nativos do Sapê do Norte”, lembra. Antes do eucalipto, a Mata Atlântica era tão fechada que, em certos trechos, “parecia noite”, descreve Luzia.
Mas depois vieram os correntões, os tratores, a dispersão das famílias e o desmanche lento da vida comunitária.Ela resume o método: “As máquinas de esteira empurravam os entulhos para dentro das nascentes para limpar o terreno destinado ao plantio. Foi assim que mataram nossas nascentes, o entulho soterrou tudo”.
Leonardo Sá
Plantação com disciplina industrial: monocultura de eucalipto no Sapê do Norte (ES) soterrou nascentes e dispersou famílias quilombolas
Atualmente, o Sapê do Norte abriga 36 comunidades quilombolas nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus (ES). Lideranças locais contaram à Agência Pública que a expansão do monocultivo do eucalipto reduziu brutalmente a presença quilombola no território, seja pela expulsão direta, seja pela erosão das condições materiais de permanência. A lembrança que ficou não é abstrata, dizem os entrevistados. Ela é feita de máquinas abrindo caminho pela mata e de gente sendo empurrada para a cidade, muitas vezes sob medo e pressão. Luzia dá dimensão demográfica a essa ruptura ao relatar que, antes da ocupação, havia 12 mil famílias quilombolas e que agora restam menos de 2 mil.
“Junto com as empresas veio o desastre. A comunidade foi desestruturada e a violência aumentou. Trouxeram também a ilusão do emprego. O povo parou de produzir o próprio alimento para trabalhar por quinzena, e assim fomos perdendo nossas tradições, a biodiversidade e as nossas águas”, relata. Em torno dessas memórias consolidou-se uma reivindicação difícil de cumprir: a titulação definitiva dessas terras tradicionalmente ocupadas. É nesse ponto que a história se conecta à trajetória de expansão do negócio dos Feffer no Brasil.
Os Feffer transformaram papel em império
O sobrenome Feffer, antes de se tornar conselho de administração e ranking de bilionários da revista Forbes, pertencia a uma família judaica que chegou ao Brasil vinda da atual Ucrânia. A cronologia institucional da Suzano registra que Leon Feffer fundou, em 1924, sua firma de comércio de papéis e, depois, ampliou os negócios até inaugurar, em 1941, a primeira fábrica própria, no Ipiranga, em São Paulo. O impulso decisivo veio quando a Segunda Guerra Mundial dificultou a importação de papel e abriu a oportunidade de produzir internamente o que antes vinha do exterior.
A partir daí, a história empresarial da família se confunde com a história de um país que industrializou parte de sua economia sem jamais democratizar a terra. Max Feffer, filho de Leon, assumiu um papel central na pesquisa e na produção de celulose de eucalipto. A compra da fábrica em Suzano, no interior paulista, em meados dos anos 1950, ajudou a firmar o nome que depois alcançaria escala global. Quando o presidente João Goulart anunciou as reformas de base no Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1964, a Suzano já produzia celulose em escala industrial. A reforma agrária defendida pelo movimento camponês, porém, nunca foi implementada; ao contrário, foi interrompida pelo golpe de Estado apoiado pelas elites agrárias e industriais e por governadores como Ademar de Barros, em São Paulo.
O grupo empresarial dos Feffer cresceu beneficiando-se do ambiente político e econômico de um Brasil que protegia a indústria, oferecia crédito subsidiado, construía infraestrutura e, mais tarde, premiava fiscalmente o monocultivo de árvores exóticas. Com a reforma agrária fora do horizonte nacional, a legislação e a política de incentivos abriram caminho para a expansão do setor de papel e celulose. O Congresso, já desfalcado pelo Ato Institucional nº 1, aprovou, em 1965, um novo Código Florestal que equiparou plantações industriais a matas nativas e declarou “florestas naturais ou plantadas” imunes à tributação.
Além disso, os investimentos na atividade puderam ser deduzidos integralmente do imposto de renda, e as áreas de preservação permanente ou plantadas para exploração madeireira ficaram isentas do imposto territorial rural. As eleições indiretas instituídas pelos atos institucionais seguintes ajudaram a consolidar esse arranjo, com apoio dos interventores estaduais. O governador biônico de São Paulo, Paulo Egydio Martins, nomeou Max Feffer como Secretário de Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Era 1976 e o empresário exerceu o cargo até 1979, período que coincidiu com a ampliação das políticas de desoneração fiscal para o monocultivo de árvores exóticas.
Reprodução / site de David Feffer
Leon, Max e David Feffer (da esq. para a dir.), parte da família controladora da Empresa Suzano, a maior fabricante de celulose do mundo, uma das maiores produtoras de papéis da América Latina e líder do mercado brasileiro no segmento de papel higiênico
O que, para o mercado, era eficiência, para quem vivia nos territórios atingidos, costumava significar perda de autonomia, redução da diversidade produtiva e rebaixamento da vida local a uma função auxiliar da exportação. No Espírito Santo, esse processo ganhou um nome próprio. A atividade industrial tornou-se prioridade do Fundo de Investimentos Setoriais (FISET), que previa a instalação de treze grandes plantas industriais, das quais cinco foram realizadas com investimento majoritário do Estado. Entre elas estava a Aracruz Celulose S.A., inaugurada em 1968 como Aracruz Florestal, com apoio do alto escalão da ditadura militar brasileira e da coroa norueguesa, representada por Erling Lorentzen, casado com a princesa Ragnhild. À época, o BNDES financiou 45% do projeto, incluindo maquinário e equipamentos, com um aporte de US$ 337 milhões — aproximadamente R$ 16 bilhões em valores atuais e corrigidos.
Décadas depois, a Aracruz se tornaria Fibria e, em 2019, seria incorporada pela Suzano S.A., reunindo terras, infraestrutura, influência política e acesso a financiamento estatal acumulado ao longo de meio século. Hoje, o conglomerado declara 2,8 milhões de hectares de terras no Brasil, o que equivale à extensão de Alagoas. Desse total, 1,7 milhão de hectares seriam destinados ao plantio de eucalipto e 1,1 milhão à conservação ambiental.
Adelso Rocha Lima, do Movimento Sem Terra (MST) no Espírito Santo, resume uma das consequências: “A empresa acaba sendo o maior ator do território”. A formulação parece sociológica, mas, no cotidiano, ela se traduz em coisas muito práticas, como comunidades que desaparecem e outras que sobrevivem cercadas. A localidade Nova Canaã, citada pelas lideranças à reportagem, deixou de existir de fato e passou a subsistir apenas como ruína e lembrança. “Hoje só existem ruínas no local”, resume uma das lideranças.
Solução climática? O eucalipto como “ativo biológico”
O que as comunidades chamam de território, memória, água, roça e retomada aparece nos balanços da Suzano sob rubricas como “base florestal”, “ativos biológicos” e “eficiência operacional”. Em 2025, a multinacional da celulose registrou cerca de R$ 50 bilhões em receita. No balanço patrimonial, as plantações de eucalipto, contabilizadas como ativos biológicos, foram avaliadas em R$ 26 bilhões — o crescimento das árvores pôde ainda ser contabilizado como aumento de patrimônio antes mesmo da colheita.
O produto eucalipto, nesse arranjo, atua como linguagem financeira e, mais recentemente, passou a atuar como suposta solução climática. Em sua página sobre mercado de carbono, a Suzano afirma investir em reflorestamento com eucalipto, conservação de matas nativas e restauração de áreas degradadas, e sustenta que essas iniciativas permitem estruturar projetos de geração de créditos de carbono. O chamado Projeto Horizonte de Carbono, segundo a própria companhia, está localizado na região de Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, e combina operações florestais, áreas nativas e regeneração.
O mesmo modelo de ocupação territorial que, no relato de quilombolas e camponeses, produziu expulsão, simplificação ecológica e destruição de nascentes agora é reapresentado no circuito global como ativo verde, mecanismo de compensação e promessa de baixo carbono. O contraste se evidencia ao ler o Relatório de Sustentabilidade de 2025 da própria Suzano. Ali, David Feffer, presidente do conselho de administração, afirma que “a busca por competitividade e inovação segue caminhando junto do nosso respeito pela natureza e pela sociedade” e que a sustentabilidade é “um elemento estrutural das decisões” da companhia. Em outro trecho, o relatório diz que, nos territórios onde a empresa atua, sua gestão florestal se combina com conservação, restauração, monitoramento ambiental e interação contínua com “comunidades diversas”; promete ainda conectar 500 mil hectares de vegetação nativa, aumentar a disponibilidade hídrica em bacias críticas e contribuir para que 200 mil pessoas superem a linha da pobreza até 2030.
Para os quilombolas do Sapê do Norte, porém, o que vivem no território é outra coisa. Eles citam a água contaminada, nascentes soterradas, comunidades em ruína e uma devolução de terras sempre adiada. Josilene Santos, advogada da Comissão Quilombola do Sapê do Norte, formula a contradição com mais clareza. Para ela, há capital abundante para expandir o “deserto verde” — como a monocultura do eucalipto costuma ser chamada —, gerar créditos de carbono para o mercado europeu e comparecer aos grandes palcos internacionais do clima, mas falta disposição para devolver terras quilombolas e resolver um conflito histórico com a população local.
O impasse se arrasta na justiça. Em outubro de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ajuizaram ações de execução provisória para assegurar a titulação de terras em favor de comunidades quilombolas do Sapê do Norte. As decisões judiciais citadas pelo MPF declaram nulos títulos de domínio de terras devolutas obtidos de forma fraudulenta pela antiga Fibria, hoje Suzano, incluindo o uso de funcionários como “laranjas” para simular requisitos legais de aquisição. MPF e Incra também pediram que a empresa deixe de praticar atos de domínio, uso, exploração ou de pretensão possessória sobre essas áreas, além de cobrar do Estado um cronograma para a titulação das terras em favor das comunidades.
Leonardo Sá
Suzano no município de Aracruz (ES): no ranking da Forbes Brasil de 2025, David Feffer aparece na posição 57, com patrimônio líquido estimado em R$ 7,1 bilhões; os irmãos mais novos, Daniel, Jorge e Ruben, cada um deles com R$ 6,5 bilhões, estão na posição 64 da listaDesonerações, incentivos fiscais, relações políticas
No ranking da Forbes Brasil de 2025, David Feffer aparece na posição 57, com patrimônio líquido estimado em R$ 7,1 bilhões; mais adiante estão os irmãos mais novos, Daniel, Jorge e Ruben, cada um deles com R$ 6,5 bilhões, na posição 64 da lista. A publicação os apresenta como netos de Leon Feffer, fundador da empresa hoje conhecida como Suzano. Tomados em conjunto, os Feffer formam uma dinastia econômica cuja fortuna não pode ser dissociada da terra, da Mata Atlântica convertida em monocultura e do apoio do Estado à expansão do setor.
Esse apoio assumiu formas variadas ao longo do tempo, e algumas delas são difíceis de quantificar. Uma das mais decisivas é a circulação de quadros entre o governo e o setor empresarial, o que as lideranças locais chamam de porta-giratória. No Espírito Santo, ex-governadores e agentes públicos aparecem na memória política do conflito como fiadores do ambiente institucional favorável à celulose. O resultado é um arranjo no qual a empresa parece, muitas vezes, maior que o município e mais estável do que a própria política pública. O Estado também teve papel decisivo na infraestrutura, com a construção de rodovias, como a BR-101 no trecho Vitória–Bahia, além de portos e sistemas logísticos que facilitaram o escoamento da produção, como observa a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), articuladora histórica da resistência das comunidades tradicionais em redes locais, nacionais e internacionais desde os anos 1960.
Mesmo com a reabertura política do país após a ditadura, a família Feffer continuou amparada por mecanismos legais que favoreciam a expansão do modelo. Os benefícios se consolidaram com a promulgação da Constituição de 1988, que estabeleceu que o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) não incide sobre operações destinadas ao exterior. A medida, resultado de um amplo lobby do setor para garantir desonerações, foi detalhada pela Lei Kandir, que regulamentou os procedimentos de crédito e compensação, sancionada em 1996 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Com essa renúncia fiscal, a carga tributária continuou concentrada sobre o consumo da maior parte da população, embutida nos preços de bens e serviços, em favor dos interesses do agronegócio e da indústria de celulose.
Atualmente, o grupo fundador e principal controlador da Suzano mantém proximidade com o Instituto Pensar Agro, braço de lobby da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso Nacional.
Enquanto isso, no chão do conflito, a atual negociação para devolução de terras quilombolas anda a passos lentos. O governo do Espírito Santo montou uma mesa para discutir a devolução de áreas ocupadas por monocultivos no território tradicional, mas a proposta atribuída à Suzano, de cerca de 2,5 hectares por família, foi considerada insuficiente pela Comissão Quilombola, que defende ao menos 10 hectares por família.
Leonardo Sá
Luzia e Antônio Belmiro, lideranças quilombolas no Sapê do Norte, mostraram à Pública os impactos do eucalipto na região
Em nota, a Suzano afirmou que “possui todos os documentos imobiliários que comprovam a propriedade e a posse de suas áreas na região do Sapê do Norte” e que as terras “foram adquiridas a justo título e de boa-fé, em conformidade com a legislação vigente”. A companhia acrescenta que eventuais disputas sobre a área “serão oportunamente decididas pelas instâncias competentes, após o devido processo legal e as defesas pertinentes”.
Segundo a empresa, as operações baseiam-se em “práticas responsáveis de manejo florestal, com foco permanente na sustentabilidade, na proteção dos recursos hídricos e na preservação ambiental”, além de seguirem critérios técnicos e legais e de respeitarem os licenciamentos ambientais. A Suzano também afirma que mantém compromissos socioambientais voltados à redução da pobreza e, nesse contexto, destaca que “apenas em 2025, mais de 44 mil pessoas foram impactadas positivamente, incluindo cerca de 7 mil no Espírito Santo”.
O dirigente da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Domingos Firmino dos Santos, conhecido como Chapoca, argumenta que o dinheiro atualmente empregado na expansão do monocultivo poderia também ser destinado à reconstrução das comunidades. As famílias, diz ele, já fazem mutirões para plantar alimentos, recuperar solos e reintroduzir árvores nativas. Em São Domingos, onde vive Luzia, uma nascente voltou a brotar após a retirada do eucalipto. A água ainda não pode ser ingerida por causa da suspeita de contaminação, mas o gesto da nascente é, por si só, uma pequena tese sobre o território, que indica que, no recuo do eucalipto, algo da vida tenta voltar.
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