CRESCE O COMPROMETIMENTO DE RENDA E DÍVIDA DAS FAMÍLIAS

Valor Economico

As famí­lias bate­ram recorde na década no endi­vi­da­mento e no com­pro­me­ti­mento da renda. A ina­dim­plên­cia das pes­soas físi­cas caiu ligei­ra­mente para 7% em março, mas con­ti­nua muito ele­vada e com ten­dên­cia a pio­rar. A inca­pa­ci­dade de cum­prir obri­ga­ções finan­cei­ras levou 5.931 empre­sas a pedi­rem recu­pe­ra­ção judi­cial no tri­mes­tre, um aumento de 22% na com­pa­ra­ção com o mesmo perí­odo de 2025, segundo dados do Moni­tor da RGF & Asso­ci­a­dos (Valor, ontem). Cerca de R$ 500 bilhões de emprés­ti­mos não estão com paga­mento regu­la­ri­zado se con­si­de­ra­dos os sal­dos de cré­dito para pes­soas jurí­di­cas e físi­cas em março.

O endi­vi­da­mento de empre­sas e con­su­mi­do­res em rela­ção ao PIB não é alto no Bra­sil. No caso das famí­lias, ele atinge 38% do PIB, cerca de 15 pon­tos per­cen­tu­ais abaixo de outros paí­ses emer­gen­tes. Mas não causa espanto o aumento da ina­dim­plên­cia diante da taxa de expan­são dos emprés­ti­mos, que ultra­passa dois dígi­tos em mui­tas moda­li­da­des em um ambi­ente muito adverso a dívi­das: as mai­o­res taxas de juros reais em 20 anos.

Segundo dados do Banco Cen­tral divul­ga­dos ontem, as con­ces­sões de novos emprés­ti­mos para pes­soas jurí­di­cas avan­ça­ram 24,6% em março e 7,5% em 12 meses com recur­sos livres (com taxas livre­mente pac­tu­a­das). As des­ti­na­das às pes­soas físi­cas cres­ce­ram 15,1% no mês e 10,4% em um ano. No total das con­ces­sões livres, houve queda de 5,7% no tri­mes­tre, mas alta de 19,4% em março e 9,1% em 12 meses. São núme­ros de assun­ção de cré­di­tos com­pa­tí­veis com um ambi­ente de juros reais bai­xos em uma eco­no­mia equi­li­brada, o con­trá­rio do que ocorre.

“O des­lo­ca­mento do cré­dito em dire­ção à pes­soa física, con­cen­trado em moda­li­da­des mais one­ro­sas, ajuda a expli­car o apa­rente des­co­la­mento entre indi­ca­do­res macro­e­co­nô­mi­cos favo­rá­veis e a per­cep­ção de des­con­forto finan­ceiro”, afir­mam Lauro Gon­za­lez, Rafael Schi­o­zer e Matheus Car­rij, do Cen­tro de Estu­dos de Micro­fi­nan­ças e Inclu­são Finan­ceira (FGV­ce­mif), em estudo no qual indi­cam que o índice cri­ado para medir esse “des­con­forto” está perto da máxima his­tó­rica, ocor­rida na pan­de­mia (Valor, 24-4).

Há vários moti­vos para o des­con­trole com as des­pe­sas, da baixa edu­ca­ção finan­ceira à ele­vada infor­ma­li­dade e aos bai­xos salá­rios. O cres­ci­mento real da renda e um mer­cado de tra­ba­lho em que tro­car de emprego ainda é rela­ti­va­mente fácil podem ter dado con­fi­ança sufi­ci­ente aos con­su­mi­do­res para rea­li­za­rem novas dívi­das, mas a rea­li­dade é cruel.

Defla­ci­o­na­dos pelo índice de pre­ços dos ali­men­tos, os salá­rios hoje não são mai­o­res que antes da pan­de­mia, segundo estu­dos do FGV Ibre. Os juros, por outro lado dis­pa­ra­ram.

As taxas de juros seriam de espan­tar qual­quer cli­ente sen­sato que pudesse adiar des­pe­sas e com­pri­mir gas­tos. O che­que espe­cial cobrava 137,9% ao ano em março, com saldo de R$ 48,3 bilhões empres­ta­dos. A ina­dim­plên­cia nessa linha é a segunda mais alta das moda­li­da­des de emprés­timo a pes­soas físi­cas: 16,1%. A pri­meira delas, a do cré­dito rota­tivo do car­tão de cré­dito, equi­vale ao sui­cí­dio finan­ceiro: 428,3%, com um índice de calote de 61%, isto é, pra­ti­ca­mente dois a cada três con­tem­pla­dos com esse cré­dito não con­se­guem pagá-los. O saldo des­ses emprés­ti­mos atin­giu R$ 87 bilhões na linha em março. O cré­dito par­ce­lado do car­tão, se com­pa­rado, tem juros até cama­ra­das, de 192,1%, com ina­dim­plên­cia de 12,6%.

O cré­dito pes­soal não con­sig­nado (sem garan­tia de des­conto nos salá­rios) cus­tava 117,1%, com 8,9% de calote e R$ 398 bilhões de sal­dos. A moda­li­dade que mais cresce recen­te­mente é a do cré­dito con­sig­nado para tra­ba­lha­do­res pri­va­dos, cujo saldo mais que dobrou em um ano, sal­tando de R$ 42 bilhões para R$ 101,6 bilhões em março. A taxa de juros era de 56,8%. Na média, o cré­dito livre às pes­soas físi­cas foi de 61,5%.

Com encar­gos finan­cei­ros tão pesa­dos, o endi­vi­da­mento das famí­lias che­gou a 49,9% em março, e o com­pro­me­ti­mento da renda (exclu­indo finan­ci­a­mento imo­bi­li­á­rio), a 29,7%. Ainda que a ina­dim­plên­cia atinja muito mais os de menor faixa de renda, que gas­tam dois ter­ços de suas ren­das com ali­men­ta­ção, ela atinge com força boa parte da classe média. Pes­quisa da Con­fe­de­ra­ção Naci­o­nal do Comér­cio indi­cou que em dezem­bro, 12,8% das pes­soas com salá­rio acima de dez míni­mos (R$ 15.180, na época) já com­pro­me­tiam mais da metade da renda com paga­mento de dívi­das. A fatia do total de endi­vi­da­dos na mesma situ­a­ção era um pouco maior, de 18,8% (Valor, 29-12-2025).

O pre­si­dente Lula incen­ti­vou o cré­dito o quanto pôde, para “movi­men­tar a eco­no­mia”, que já se movia a um ritmo acima de seu poten­cial. Para com­ba­ter a infla­ção, o BC ele­vou os juros reais a 10%, aumen­tando a dívida pública, sob cres­cente des­con­fi­ança quanto a seu ritmo de expan­são, e criou um recorde de deve­do­res na eco­no­mia. Era mais ou menos óbvio que isso ocor­re­ria se o cré­dito se expan­disse rapi­da­mente em situ­a­ção tão adversa, como ocor­reu. Um novo pro­grama de refi­nan­ci­a­mento de dívi­das é um pali­a­tivo, como foi o pri­meiro. Aju­dar o BC a cor­tar as taxas extra­va­gan­tes, com polí­tica fis­cal aus­tera, seria uma solu­ção, que o governo ignora.

GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

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