ÔNIBUS SEQUESTRADO EM IPANEMA, MORADORES REFÉNS, ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO: O QUE MOTIVOU AS PRISÕES NA MEGAOPERAÇÃO DA PENHA E DO ALEMÃO

Ação policial nos dois complexos de favelas teve retaliação por parte dos criminosos por toda a cidade: um dos detidos estava em Ipanema, na Zona Sul

Por João Vitor Costa — Rio de Janeiro
                                                                                                             Foto: Guito Moreto / 28-10-2025
Detidos durante operação no Alemão e na Penha, levados para a Cidade da Polícia

Sete em cada dez presos ou apreendidos durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, realizada no último dia 28, são acusados de associação para o tráfico. É o crime mais recorrente imputado aos detidos na ação. Mas a lista de tipificações tem ainda outras 15 violações da lei, e há casos de quem tenha sido enquadrado em até quatro crimes. Uma consulta às audiências de custódia de alguns dos presos mostra que os locais das ocorrências também são variados, incluindo bairros como Ipanema, na Zona Sul do Rio.

Preso em flagrante às 16h40 do dia 28, Paulo Cabral Dias Paiva subtraiu a chave de um ônibus da linha 740D (Niterói—Leblon) na Rua Visconde de Pirajá, uma das mais movimentadas do bairro, dizendo ao motorista que "a ordem" era a de "desligar o carro e levar a chave".

Naquela ocasião, ao menos 102 coletivos foram usados como barricadas em diferentes bairros do Rio, em retaliação à ação policial, fato citado pelo juiz Patrick Couto Xerez Sobral ao decidir por converter a prisão em flagrante em prisão preventiva. "Por isso, não há como dissociar a conduta do indiciado da referida facção criminosa (Comando Vermelho), de modo que tudo indica estava associado, em divisão de funções, para obstruir as ações das autoridades", escreveu o magistrado.

                                                                                         Foto: Giampaolo Morgado Braga
No último dia 28, coletivos foram usados como barricadas em diversos bairros da cidade 

Paulo é um dos oito detidos que responde por atentado contra meios de transporte. Ele também foi enquadrado por associação criminosa, crime pelo qual respondem outras sete pessoas. Os dois crimes ocupam, empatados, a segunda posição no ranking com mais detidos.

O GLOBO se baseou numa lista enviada pelo governo do Rio ao Supremo Tribunal Federal (STF) após a operação. Dos 99 nomes, dois deles são contabilizados duas vezes, na lista de presos e na relação de menores apreendidos: um deles, de 18 anos, preso por roubo, associação para o crime, resistência e desobediência, e outro, de 15 anos, apreendido por associação para o tráfico e atentado contra meios de transporte.

Procurada, a Polícia Civil explicou que a sua conta inclui 82 presos em flagrante, 10 menores apreendidos em flagrante e sete cumprimentos de mandado de prisão, mas não explicou se irá retificar a lista após a duplicidade encontrada pela reportagem.

Moradores sequestrados

Outra ocorrência flagrada longe do Alemão e da Penha foi a prisão de quatro suspeitos numa casa na Rua Doutor Jaime Marquês de Araújo, no Campinho, na noite do dia 28. De acordo com o registrado em delegacia, duas vítimas foram feitas reféns, enquanto os suspeitos se escondiam no imóvel. No local foram presos Luis Carlos Mourão de Matos, Rodrigo dos Santos Lourenço, Celso Luiz Gitahy Ferreira, além da apreensão de um menor de idade, em ação da polícia realizada após denúncias. Foram apreendidas uma pistola com carregador, duas toucas ninjas, rádios transmissores e drogas. Um quinto homem fugiu do local.

Todos os quatro respondem por associação para o tráfico, porte ilegal de arma e tráfico de drogas. Rodrigo responde ainda por sequestro ou cárcere privado.

Tráfico de drogas e resistência

Já Wesley de Oliveira Ferreira foi preso no início da manhã daquele dia 28. Segundo os policiais, equipes foram alvejadas por tiros de fuzis ao entrar no Complexo da Penha, na Rua do Cajá, e houve confronto. Criminosos então fugiram, mas Wesley, de acordo com o registrado na delegacia, tentou pular em diversas casas, mas foi cercado e capturado pelos agentes. Com ele, foram apreendidos 2,2 quilos de maconha, além de cocaína, cheirinho da loló e haxixe, que estavam em uma mochila. Ele é um dos cinco detidos que responde por tráfico de drogas.

Juan Lucas Andrade Lima e Gabriel Vicente Ramos da Silva, por outro lado, foram presos por resistência, desobediência e adulteração de sinal identificador de veículo. A dupla circulava pela Rua Irapuá, na Penha Circular, próxima à Vila Cruzeiro, durante a operação quando foram abordados por policiais: os agentes alegaram que "diversos elementos em motocicletas" obstruíam a via, em represália à ação nos complexos de favelas do entorno.
                                                                                  Foto: Fabiano Rocha / 28-10-2025
Operação no Alemão e na Penha deteve mais de 90 pessoas

Sobre uma moto com placa dobrada e com letras apagadas, além de sinal identificador adulterado, Juan e Gabriel, então, teriam fugido após a ordem de parada. Gabriel ainda precisou ser contido após ser capturado. As decisões do juiz que mantiveram a prisão dos dois cita que no celular de Juan havia um grupo de mensagens intitulado "Monopólio do CV2", o que indicaria ligação com a facção. A digital de Gabriel anteriormente também havia sido identificada em um carro roubado, recuperado pela PM na Favela do Quitungo.

Na Avenida Pastor Martin Luther King Jr., via que passa próximo a comunidades dominadas pelo CV, como o Juramento, em Vicente de Carvalho, e o Complexo do Alemão, Jeferson de Oliveira da Silva, Jhonatan Alexandre Dias de Menezes e Vitor Alexandre Oliveira dos Santos foram presos por associação criminosa, atentado contra os meios de transporte e incêndio.

Conforme registrado por policiais militares, a equipe flagrou o trio tentando fechar a via, na altura da estação do metrô do Engenho da Rainha, usando caçambas de lixo. Testemunhas relataram que, após a ação ser frustrada, o grupo havia retornado e ateado fogo no local por ordem do tráfico. Na decisão para manter a prisão de Jhonatan, por exemplo, o juiz Danilo Nunes Cronemberger Miranda ressaltou que a participação no ato revelou "sua efetiva dedicação à sobrevivência da facção criminosa, ao ponto de expor sua vida pelo sucesso de eventual evasão dos demais integrantes".

Ranking mostra em que crimes foram enquadrados os presos na megaoperação do último dia 28 (alguns foram enquadrados em mais de um crime):

Associação para o Tráfico - 71
Associação Criminosa - 8
Atentado contra os Meios de Transportes - 8
Adulteração de sinal identificador de veículos - 7
Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso Restrito - 6
Tráfico de Drogas - 5
Desobediência - 3
Incêndio - 3
Receptação - 3
Resistência - 3
Apreensão de adolescente infrator - 1
Artefato explosivo - 1
Furto de Estabelecimento Comercial - 1
Roubo - 1
Sequestro ou Cárcere Privado - 1
Tráfico - 1

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