Em dezembro de 2024, 38% dos brasileiros diziam não confiar no STF, segundo pesquisa do Datafolha. Em março de 2026, esse número já tinha subido para 43%, recorde da série histórica iniciada em 2012.
Imagem: Antonio Augusto | STF
Esses números, além de todas as polêmicas que rondam há algum tempo o Supremo, foram influenciados principalmente pelo maior escândalo recente: as relações dos ministros com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro dono do Banco Master. Na última semana, esse escândalo atingiu seu ápice — pelo menos até agora.
Como um banqueiro foi capaz de chegar perto de tanta gente?
As provas e indícios que saíram até agora do caso Master mostram que diferentes ministros do STF tinham relações com o Vorcaro. Mas como alguém chegou tão perto do topo do Judiciário brasileiro sem que isso acendesse nenhum alarme antes?
A verdade é que não existe nada que impeça um ministro do STF de aceitar viagens, presentes ou proximidade social com alguém que tem processos correndo na própria Corte. A única exceção é — acredite se quiser — o próprio ministro, que pode se considerar impedido de julgar um caso.
Foi assim que o contrato entre o Master e o escritório da mulher de Moraes seguiu rodando por dois anos sem levantar suspeitas, e que os encontros de Toffoli com Vorcaro passassem despercebidos até a PF vasculhar o celular do banqueiro.
O código de ética que o STF nunca teve
Imagem: Antonio Augusto | STF
Restringir a participação de ministros em eventos patrocinados por empresas ou partes em processos em andamento na Corte.
Exigir transparência sobre viagens custeadas por terceiros e tornar público os encontros, despachos e audiência com advogados e partes interessadas.
Mas ela não foi para frente… A proposta segue, até hoje, sem data para votação em plenário — e enfrenta resistência que não é de qualquer um. Segundo fontes, ela esbarra especificamente nos "magistrados com maior interlocução política". Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes são citados como os que mais resistem à ideia.
Em agosto, quando Fachin propôs uma política de conflito de interesse para todo o Judiciário via CNJ, os ministros do STF ficaram de fora até dessa versão mais genérica das regras.
A percepção do brasileiro em relação ao STF tende a refletir nos números
Como trouxemos no início, antes mesmo do caso Master se espalhar entre os poderosos, o brasileiro já não sentia confiança no que deveria ser o cargo mais alto da Corte, e um dos mais importantes do país.
Sem uma regra formal que puna esse tipo de proximidade — e sem previsão de quando isso muda —, o único julgamento que sobra aos ministros é o informal. Foi esse julgamento que apareceu com força um dia depois das revelações mais recentes sobre Moraes.
A foto que girou na internet do ministro rindo ao lado de outros colegas do STF, incluindo o presidente de Edson Fachin, e virou alvo de críticas e desapontamento da população.
Imagem: Brenno Carvalho | O Globo
Um levantamento da Vox Radar sobre 86.421 comentários públicos no Instagram a respeito da imagem mostra algo curioso: 97,9% dos comentários não citam nenhum ministro pelo nome. Os que leem a cena como deboche ou escárnio somaram 10.237 e reuniram 143.308 curtidas — o maior engajamento entre os temas mapeados; outros 12.570 chamam a Corte de "quadrilha", "circo" ou "palhaços".
É a mesma leitura que os números do início desta matéria já anunciavam, agora com um rosto: o problema não é um ministro, é uma Corte sem regra — e, enquanto isso não muda, quem julga é a plateia.
GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR
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