QUEM JULGA OS JUÍZES?

Em dezembro de 2024, 38% dos brasileiros diziam não confiar no STF, segundo pesquisa do Datafolha. Em março de 2026, esse número já tinha subido para 43%, recorde da série histórica iniciada em 2012.

Antes, o mesmo instituto já tinha testado algo mais visceral que confiança: orgulho ou vergonha. O resultado foi que 58% dos brasileiros disseram ter mais vergonha do que orgulho dos ministros da Corte, contra 30% que se disseram orgulhosos.

Imagem: Antonio Augusto | STF

Esses números, além de todas as polêmicas que rondam há algum tempo o Supremo, foram influenciados principalmente pelo maior escândalo recente: as relações dos ministros com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro dono do Banco Master. Na última semana, esse escândalo atingiu seu ápice — pelo menos até agora.

Como um banqueiro foi capaz de chegar perto de tanta gente?

As provas e indícios que saíram até agora do caso Master mostram que diferentes ministros do STF tinham relações com o Vorcaro. Mas como alguém chegou tão perto do topo do Judiciário brasileiro sem que isso acendesse nenhum alarme antes?

A verdade é que não existe nada que impeça um ministro do STF de aceitar viagens, presentes ou proximidade social com alguém que tem processos correndo na própria Corte. A única exceção é — acredite se quiser — o próprio ministro, que pode se considerar impedido de julgar um caso.

Foi assim que o contrato entre o Master e o escritório da mulher de Moraes seguiu rodando por dois anos sem levantar suspeitas, e que os encontros de Toffoli com Vorcaro passassem despercebidos até a PF vasculhar o celular do banqueiro.

O código de ética que o STF nunca teve

                                         Imagem: Antonio Augusto | STF

Na abertura do Judiciário neste ano, em 2 de fevereiro, foi levantada a possibilidade de uma solução para esse gargalo. O presidente do STF, Edson Fachin, anunciou a criação de um código de ética para os ministros e nomeou a ministra Cármen Lúcia como relatora. A proposta incluiria:

Restringir a participação de ministros em eventos patrocinados por empresas ou partes em processos em andamento na Corte.

Exigir transparência sobre viagens custeadas por terceiros e tornar público os encontros, despachos e audiência com advogados e partes interessadas.

Mas ela não foi para frente… A proposta segue, até hoje, sem data para votação em plenário — e enfrenta resistência que não é de qualquer um. Segundo fontes, ela esbarra especificamente nos "magistrados com maior interlocução política". Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes são citados como os que mais resistem à ideia.

Em agosto, quando Fachin propôs uma política de conflito de interesse para todo o Judiciário via CNJ, os ministros do STF ficaram de fora até dessa versão mais genérica das regras.

A percepção do brasileiro em relação ao STF tende a refletir nos números

Como trouxemos no início, antes mesmo do caso Master se espalhar entre os poderosos, o brasileiro já não sentia confiança no que deveria ser o cargo mais alto da Corte, e um dos mais importantes do país.

Sem uma regra formal que puna esse tipo de proximidade — e sem previsão de quando isso muda —, o único julgamento que sobra aos ministros é o informal. Foi esse julgamento que apareceu com força um dia depois das revelações mais recentes sobre Moraes.

A foto que girou na internet do ministro rindo ao lado de outros colegas do STF, incluindo o presidente de Edson Fachin, e virou alvo de críticas e desapontamento da população.

                                  Imagem: Brenno Carvalho | O Globo


Um levantamento da Vox Radar sobre 86.421 comentários públicos no Instagram a respeito da imagem mostra algo curioso: 97,9% dos comentários não citam nenhum ministro pelo nome. Os que leem a cena como deboche ou escárnio somaram 10.237 e reuniram 143.308 curtidas — o maior engajamento entre os temas mapeados; outros 12.570 chamam a Corte de "quadrilha", "circo" ou "palhaços".


É a mesma leitura que os números do início desta matéria já anunciavam, agora com um rosto: o problema não é um ministro, é uma Corte sem regra — e, enquanto isso não muda, quem julga é a plateia.


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