NA CORRIDA PELA ELETRICIDADE, QUEM DISPAREOU FORAM OS CHINESES

Se alguém te perguntasse qual é o ativo estratégico mais valioso da China hoje, as respostas mais prováveis seriam chips, fábricas de eletrônicos ou terras raras. Eletricidade dificilmente entraria na lista.

No entanto, a energia elétrica barata se tornou o pilar central da competição geopolítica chinesa.

Imagem: Qilai Shen | Bloomberg via Getty Images

Um relatório publicado pela consultoria Rhodium Group batizou esse fenômeno de "electro-state" — um modelo de país que não compete por meio de expansão militar ou controle de poços de petróleo, mas sim pela oferta farta e barata de megawatts.

A lógica do país funciona como uma verdadeira engrenagem:

Eles produzem muita energia elétrica e vendem essa energia super barata para fábricas locais.

As fábricas usam essa energia barata para processar metais — como lítio e alumínio — gastando quase nada.

Com metal barato, eles fabricam painéis solares e baterias a preço de banana. Com os painéis e baterias baratos, eles geram AINDA MAIS energia barata.

O volume dessa produção alterou a escala global. Em 2025, a geração solar e eólica da China superou todo o consumo industrial dos Estados Unidos. Desde 2000, o país respondeu por 60% de todo o crescimento do consumo elétrico mundial.

O x da questão: o motor disso é o carvão

Mas como um país que é líder mundial em energia solar pode, ao mesmo tempo, ser um dos maiores poluidores do planeta?

A resposta é praticidade. Petróleo e gás natural são combustíveis que a China precisa comprar de fora. Se estourar uma guerra ou se um país fechar uma rota marítima, a China fica no escuro.

Já o carvão existe em abundância dentro do próprio território chinês. Eles cavam, transportam e queimam o carvão sem depender de nenhum vizinho.

Para garantir que a luz nunca falte nas fábricas, a China continua construindo usinas a carvão em ritmo acelerado. Basicamente, eles preferem arcar com poluição temporária a ter a economia paralisada por falta de energia.

Imagem: Na Bian | Bloomberg

Nem tudo são vantagens…A China construiu tanta fonte de energia limpa que as "tomadas e fios" do país não deram conta. Em apenas um ano, o país jogou fora uma quantidade astronômica de energia solar e eólica simplesmente porque não tinha como transportar essa eletricidade das usinas até as cidades.

Para cobrir o buraco, tiveram que queimar ainda mais carvão.

O contraste global

O modelo chinês expõe a diferença entre apenas gerar energia limpa e possuir uma estratégia industrial de consumo.

Em países como o Brasil, por exemplo, projeta-se o descarte de até 40 gigawatts de geração solar e eólica por ano até 2030 devido à sobreoferta. O país produz energia limpa, mas não possui parque industrial proporcional para absorvê-la, mantendo o foco na exportação do minério bruto.

A conclusão do modelo chinês: a China não busca apenas a transição energética por metas ambientais, mas por domínio da cadeia de suprimentos. Foram três décadas de planejamento estatal, subsídios de crédito e operação com margens reduzidas para atingir escala.

Ao controlar desde a geração da eletricidade até o produto tecnológico final, Pequim tornou a energia barata um fator de atração industrial que o Ocidente dificilmente conseguirá replicar no curto prazo.



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