sexta-feira, 29 de julho de 2016

APÓS 63 ANOS JUNTOS , CASAL DE SANTA CATARINA MORRE AO MESMO DIA

Quando filhos e netos ligavam para saber como estavam Fernando e Delinda Biz, a resposta da matriarca até mudava um pouco de acordo com o dia, mas sempre acabava com os mesmos dizeres: "Quando a gente for, a gente vai junto".

Apesar da displicência das palavras, Delinda estava certa. Após 63 anos casados, os dois acabaram morrendo no mesmo dia: 19 de julho. Ele, aos 82 anos, por causa de um problema do coração. Ela, aos 86, após falência de múltiplos órgãos. Não chegaram a saber nem da internação nem da morte um do outro.

 

Os dois nasceram e cresceram em Turvo –cidade catarinense com 12 mil habitantes a 244 km de Florianópolis– e se conheceram em uma festa religiosa. Fernando tinha 19 anos, Delinda 23. O namoro durou um ano, com encontros durante a missa e visitas formais, sempre sob olhares atentos dos pais. Casaram-se em 1953.

No sítio simples que herdaram da família, os dois plantavam arroz, milho e feijão. Durante a infância dos filhos, falavam mais italiano –idioma de seus ascendentes– do que português. Todas as noites, reuniam os dez filhos em um círculo na sala e liam passagens da Bíblia. Também rezavam o terço antes de dormir.

Fernando era sério, sisudo, exigente, mas foi amolecendo com o tempo, diziam os filhos mais velhos ao ver a "moleza" recebida pelos mais novos. Já Delinda era engraçada, divertida, carinhosa e apaziguadora se necessário.

Com o tempo, os filhos foram casando e se mudando. Com menos ajuda na lida, o casal vendeu as terras e começou vida nova em Araranguá (a 214 km de Florianópolis). Fernando abriu um bar, que tocou com a ajuda dos filhos mais novos, enquanto Delinda se dedicava à casa. Fazia roupas para a família e caprichava na cozinha.

MACARRÃO E POLENTA

Os almoços com macarrão, polenta e galinha caipira continuaram a reunir toda a família aos domingos. Até os filhos e netos que moravam em outras cidades costumavam aparecer. A mesma popularidade tinham os cafés da tarde de dona Delinda. Não faltavam pão sovado, bolinho de chuva e cuca –um tipo de bolo alemão, geralmente feito com banana.

Com a aposentadoria, Fernando costumava rodar pela cidade em sua bicicleta e jogar carteado com os amigos –às vezes era o anfitrião, em outras era o convidado.

Delinda preferia ficar em casa, sentadinha na sala ou ao lado do fogão à lenha. No sofá de casa, ele interrompia as missas que a mulher assistia na televisão para perguntar se ela o amava. Delinda se irritava com a insistência e sempre terminava com: "Te amo, mas me deixa ver a televisão". Marido e mulher conseguiam repetir o mesmo diálogo diversas vezes no dia.

Os problemas de saúde começaram a aparecer nos últimos anos, levando o casal a morar com uma das filhas. Fernando precisou de um marcapasso por problemas cardíacos e já apresentava sintomas de alzheimer. Delinda teve quatro derrames.

AUSÊNCIA

Na noite do último dia 18, ela começou a se sentir mal. Foi levada ao hospital por um dos filhos e lá ficou em observação. Na manhã seguinte, Fernando percebeu sua ausência e questionou uma das filhas –que não revelou a internação.

Ele então pediu uma blusa, um pouco de café e voltou para a cama, onde foi encontrado morto 15 minutos depois, por volta das 7h30. Delinda, que teve que ser entubada na madrugada, morreu às 13h do mesmo dia.

"Sei o que dizem os médicos e os atestados de óbito, mas, pra mim, minha mãe já tinha ido na madrugada e veio buscar meu pai pra ir junto dela. Ela chegava a rezar para Jesus levar os dois juntos", conta a filha Rose.

A missa e o enterro do casal aconteceram também no dia 19, no cemitério de Araranguá, onde Fernando e Delinda continuam juntos. 

FOLHA DE SÃO PAULO
FERNANDA PEREIRA NEVES

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