quinta-feira, 24 de maio de 2018

É MAIS FÁCIL UM GOLPE PARLAMENTAR DO QUE MILITAR



É muito mais palpável Rodrigo Maia (DEM-RJ), o “Botafogo” nas planilhas da Odebrecht, aproveitar-se da fraqueza de Michel Temer, do que os militares, que sequer conseguiram cuidar do Rio de Janeiro, e tomar o poder por meio de um golpe.


Portanto, é mais fácil um golpe parlamentar.

Note o caríssimo leitor que Maia começou a agir ontem (23), na calada da noite, buscando saídas para a crise da greve dos caminhoneiros e o consequente desabastecimento do país.

Michel Temer se acovardou. Não mostrou iniciativa. Não tem força para demitir Pedro Parente da Petrobras. Não consegue revogar a política de reajuste dos combustíveis adotada pela estatal em outubro de 2016.

O Vampirão Neoliberalista sangra. “Botafogo”, com o entusiasmo da Globo, prepara o bote.

EGOSFERA: O EGO É O ÚNICO ADVERSÁRIO A SER VENCIDO

Como um câncer peculiar, o ego dispõe o organismo que forjou de modo a preservar o máximo possível sua perpetuidade. Estabelece um poço, um lago, um oceano de sofrimento para garantir que com a ausência de paz e a promessa da felicidade futura o sujeito se sujeite. Esse poço também pode ser rastreado pela história

Eduardo Bonzatto, Pragmatismo Político

“Quando, em uma família, surge um buscador,
é porque este encarna o desejo de todo o clã de
sair das repetições e do conhecido e ir adiante”
Bert Hellinger

O ego é uma ideologia, não um dispositivo da psiquê.

O ego é uma patologia. Um cancro, um tumor em permanente e eterna metástase. Quer encarcerar as energias livres num organismo, num território.

Foi um fenômeno do humanismo, do deslocamento e da usurpação do centro que estava em deus (mistério, incognoscível) para o centro no indivíduo.

O conceito por trás do termo indivíduo é um mapa: indiviso e dual. De um lado, o território a ser defendido, sem divisão, uno, compacto, duro; de outro, a dualidade, a dicotomia, uma forma pensamento limitante que opera sempre pelo caminho moral do bem e do mal.

Desse núcleo duro, inflexível, isolado, derivado de uma ideologia imprecisa, egoísmo, erigiu-se um mundo inteiro de relações.

Kropotikin (Ajuda Mútua) descreveu o mundo anterior a essa modernidade que é o EU. A colaboração era a forma coletiva e comum da existência. De todas as formas de vida. Sem a colaboração, a vida não teria prevalecido nesse planeta, neste plano, neste platô. Nenhuma forma de vida poderia ser pensada sozinha, isolada. Todos só se completavam com o grupo, com a diversidade, na pluralidade, em complexidade (tecer juntos).

O pior castigo que se pode impor a alguém de tribo, clã ou matilha, ou qualquer grupo gregário, é o exílio. Nas tribos germânicas o exilado fica conhecido como whalrus, o sem paz, a maldição do lobisomem.

Na nossa sociedade cuja ordem é hierárquica e desigual, todos somos exilados, uma sociedade de pequenos tiranos.

O ego não é um fenômeno da psiquê, mas da sociabilidade e da história. Os mecanismos de divulgação e formação do ego são facilmente identificáveis: o pecado e a penitência, o patriarcado e o primogênito, o professor e o aluno,
o patrão e o empregado. Essas são algumas relações para a formação do ego.

Submissão e competitividade são seus corolários. As instituições são as estruturas para a divulgação do perfil do ego, pois individualizam o sujeito e a sujeição. O nomeia, o reconhece, o identifica, o seleciona. Tudo como uma unção. Uma marca. Essa distinção é única e irremovível para a formação da personalidade.

O sujeito se vê como um outro, uma outridade, uma diferença e, no computo geral, uma desigualdade que move sua energia em direção a um resgate.

O sujeito quer pra si. Nesse ponto, a partilha que norteava o conjunto de humanos-terra em deslocamento é encerrada e em seu lugar emerge a disputa, o sedentarismo, o território. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Tem início o processo de desumanização que será fundamental para a coisificação que o oportunista sistema capitalista carecia.

No ego se aloja a racionalidade e a partir daí uma inundação de discursos encerra qualquer diálogo. A racionalidade, que é o suporte verificável do ego, sabe tudo, prescreve tudo, suporta tudo.

Quem primeiro nomeou a racionalidade foi Descartes. Afirmava que a existência vinha apenas depois do pensamento. “Penso, logo existo”. Criou uma prisão com isso. E erradicou o sentimento. A prisão cartesiana da razão.

Se antes dessa forma civil de existir era a intuição que palmilhava os encontros, com a emergência da racionalidade como forma social de distinção as linhagens se romperam. O filho se separou do pai e se isolou do irmão.

Depois a família nuclear completou o processo. O pai era a linhagem de mil gerações; o irmão era o parceiro de caça. O sujeito isolado passa a ser um objeto, uma coisa, uma lavra. Ação que prepara a terra para o cultivo. Passará a ser cultivado como um produto.

O ego assume seu potencial de desejo como se fosse uma espécie singular de autonomia. Como se viesse de si, de dentro, de sua lavra. E então se confunde com os deslocamentos fragmentados que os desejos proporcionam. E ego se fecha e se torna uma concha protetora diante de ameaças: de deus, do pai, do padre, do professor, do patrão.

Iludido pelo fragmento, o ego anseia desesperadamente ser íntegro. E cultiva dentro de si a ilusão das pérolas. Mas é já de feridas que trata. Enovelando esse corpo estranho, o organismo, o território se defende dos ataques externos.

Perdeu sua perspectiva de grupo, de parte, de complemento. Deixou de ser uma singularidade para se transformar numa metáfora. Abdicou das metamorfoses da vida pela concessão do pertencimento, da aceitação, da distinção.

Dessa forma, o ethos se degenera. Aquilo que era parte, aceitação das diferenças, reconhecimento da generosidade se transforma em hierarquia, em ordenamento, em dominação.

E diante do novo ethos, das hierarquias agora naturalizadas pelos esforços institucionais, nesse mesmo movimento acompanha uma moralidade que reafirma que a desigualdade é boa e deve ser reconhecida, respeitada.

A ideologia do egoísmo, que diz que isso é natural e é irrevogável, se fortalece com outros discursos ideológicos similares: evolução, progresso, desenvolvimento, consumismo.

Respaldados pelas instituições verticais da modernidade, os valores se consolidam e serão transmitidos de geração para geração, pelo pai, pela mãe, convictos que o ego é natural do ser humano.

Como um câncer peculiar, o ego dispõe o organismo que forjou de modo a preservar o máximo possível sua perpetuidade.

Estabelece um poço, um lago, um oceano de sofrimento para garantir que com a ausência de paz e a promessa da felicidade futura o sujeito se sujeite.

Esse poço também pode ser rastreado pela história. O martírio da culpa pelo pecado, de não ser reconhecido pelo pai a quem se honra, de negligenciar aquilo que o professor espera, de não prover a continuidade da família, de não
agradar ao patrão.

O trabalho em sua forma muito específica, como tortura e doença, se apresentou como uma forma de dignidade. Nesse momento histórico, o ego se consolidou como uma ferramenta completamente internalizada e a psicologia surgiu para lhe dar suporte e virtualidade.

Toda sua simbologia passou então a prevalecer como um apêndice, uma inerência, e não como uma contingência que poderia ser subvertida.

Instado a se apresentar como um aparelho psíquico, o ego se dilui na naturalização da desigualdade e se oculta no interior do EU. Assim camuflado pode se dar a ver apenas como racionalidade.

A racionalidade então ganha autonomia. Cercada por dispositivos e uniformização e de padronização, a racionalidade, que num primeiro movimento pode indicar singularidade, aquilo que o indivíduo pensa, de sua elaboração exclusiva, a racionalidade entra em movimento para pautar um sistema.

Nesse ponto, o que era aparentemente singular passa a ser coletivo novamente e todos pensam e se movimentam segundo um ritmo genérico.

Agora é já uma visão de mundo compartilhada por muitos. A racionalidade, que habita cada um e todos, produz um sistema de dominação que, pelo desdobramento das instituições, tende a se tornar hegemônico. E se alastra numa colônia de egos coordenados. Se num primeiro movimento é voluntarismo, depois opressão, depois emulação, depois voluntarismo novamente, pois a racionalidade é o ego mas é também o poder que submete e convida a submeter e promete.

A heteronomia é exatamente o movimento da racionalidade. Uma forma de ver o mundo pautada, coletiva, sinóptica, gerenciada por cada ego como se fosse uma colônia, partes de um todo, elemento da totalidade. A racionalidade é o panóptico, a lente que orienta a percepção.

Essa estratégia de primeiro isolar o indivíduo, capacitar sua forma pensamento e depois reunir num todo coerente em que os conceitos estão já previamente traçados, faz com que o desmantelamento do ego seja um desafio, pois cada um imagina que o ego é o eu e que o eu é uma unidade de isolamento e competição com outros eus concomitantes.

O deslocamento de tais individualidades formando um todo e recebendo dessa totalidade as informações para prosseguir segundo um protocolo padrão faz da luta contra o ego uma forma épica de suavidades. Qualquer resistência contra o ego é inútil, pois é também do ego resistir. Ele se aloja onde houver dureza.

Como o ego está encouraçado pela racionalidade, tudo que for pensado será do ego, de sua lavratura. Ele é soberano no reino do pensamento. Então não se iluda quanto às dificuldades de esboroá-lo. O ego precisa de um inimigo muito mais formidável para se encolher. Esse inimigo sempre esteve aí dentro, sorrateiro, tímido, temerário pela soberania do ego. Esse inimigo é o sentimento. Sempre oculto pela sombra do ego.

O sentimento não formula hipóteses. Vive num fluxo permanente, em cujo trânsito se realiza de modo sempre incompleto. Está sempre de passagem por nós. Trafega por entre as fibras e as colônias que vivem dentro de nós.

Como o ego é a própria racionalidade, fica confuso com o sentimento que não pode explicar ou sequer rastrear. O sentimento é puramente intuitivo e, portanto, caótico. O sentimento não está preso ao circuito das configurações.

A racionalidade está em tudo que produzimos. Barthes diz que a língua é fascista não porque impede de falar, mas porque nos obriga a dizer de uma certa maneira.

Nisso, está muito distante do modelo de pensamento da racionalidade que é dicotômico, simplório, ambíguo. É justamente diante das táticas dos sentimentos que o ego produz o assombro. Como uma zona de indeterminação.

Mas o assombro pode se transformar em permanente rodopio para o tráfego dos sentimentos. É uma zona de interstício, de indefinição, de ruídos incongruentes que normalmente fazem rodopiar outros sentimentos ainda mais estranhos.

É aceitável para o ego, desde que por instantes, por um átimo, para logo depois se recompor em voláteis combustões.

Mas o sentimento é, ou pode vir a ser, uma outra forma de nos ligarmos ao mundo. Pois o sentimento é movido por energias, exclusivamente. E é também gerador de energias leves.

O sentimento é o responsável pelas conexões que são muito diversas das relações hierarquizadas pela racionalidade. As conexões são despretensiosas e fluidas como os próprios sentimentos que se encontram com os sentimentos daqueles que passam por nós durante nossa jornada pela vida.

Esse sentimento pode também ser gerado pelo serviço, nossa capacidade de servir incondicionalmente a tudo e todos que estiverem próximos de nós. O ego quer reconhecimento e retribuição, quer o obrigado a devolver o favor. O ego não compreende que a gratidão é ao cosmos e não a nenhum outro ego em particular.

O cosmos é a egrégora, essa abóboda das energias leves que se formam com os sentimentos em comunhão de tudo e de todos. O ego acredita que todo o mérito é seu mesmo e que é causa de tudo que promove.

Anular a manifestação do ego é fundamental para vivenciar uma vida boa, em plenitude, sempre em alegria e felicidade. Não se negocia com o ego, apenas devemos ignorar sua existência.

O sentimento é a comunicação absoluta entre os seres vivos. O sentimento não carece de tradução e é universal. Sentimos simplesmente.

Ao encarcerar as energias num organismo, num território, o ego transforma o etéreo num bloco, o coletivo num corpo, a legião num ser, a simbiose num resíduo e a diversidade num poço.

O ego dispõe o saco de tijolos como um apêndice, o poço sem fundo numa morada, a vitimização num hábito, o empoderamento numa armadura.

O sentimento, por outro lado, está sempre nu, é sempre livre, leve, solto em sua confusa jornada por entre as vidas, invadindo sem pedir licença os espaços mais secretos, vibrando em energias todas as sincronicidades.

O sentimento é sempre o ethos (a forma da relação) horizontal, a circulação energética das coletividades, a morada do homem, do animal, do espiritual, a constância do agir. Não pode ser rastreado nem aprisionado.

Está em serviço e seu deslocamento é intangível. O sentimento se desdobra sem capricho e se metamorfoseia em planos de equívocos, em estáticas sonoras, em movimentos deturpados.

O sentimento não tem memória e nem produz narrativas. Sutil, apenas transita todo o tempo, vagabundo e prosaico. Os sentimentos estão sempre em diáspora. Migram com a facilidade dos pássaros e deixam ocasos de sementes, húmus cautelosos, metamorfoses. Por isso os sentimentos são universos e cantam na língua do universo.

Enquanto a racionalidade é da terceira dimensão, os sentimentos são da quinta. Se ela é esforço e dureza, eles são suaves e minúsculas expansões. Se a racionalidade tem sua própria genealogia, os sentimentos são eternidades e
infinitudes.

A racionalidade é colonizadora e produz sensações que podem ser confundidas com os sentimentos. Essas sensações produzem sofrimento, geradas pela ilusão imposta pela racionalidade como uma descarga química capaz de gerar energias densas. Por isso é importante não confundir sentimentos com sensações. Os sentimentos são vibrações que não podem ser explicadas, pois nutrem-se do cosmos.

No entanto, algumas ações podem atrair os sentimentos para dentro de nós. Masturbação, autoconhecimento, servir incondicionalmente, palavras-mantra SÓ ALEGRIA E FELICIDADE.

O ego é meticuloso e incansável, enquanto o sentimento é fluido e desinteressado. Enquanto o primeiro se aloja e se apega, o segundo transita, indiferente aos obstáculos. Se o ego é volume e espaço, o sentimento é sutil e permissivo. O sentimento não se liga a nada e passa por entre as frestas, invisível.

O ego é nocivo e tóxico; o sentimento é benfeitor e repleto de alegria e felicidade. Um é forte e indeterminado; o outro é frágil e peculiar.

Mas, sobretudo, o ego é dispensável como uma roupa velha e puída. E o sentimento liberta como a nudez primeira, a pele sobre a carne, as carícias suaves do amor.

Podemos traçar um inventário para os recursos do ego: sofrimento, altivez, inveja, orgulho, soberba, capricho, desdém, indiferença, ódio, desprezo, manipulação, vitimização, apego, apropriação, usurpação, cobiça, posse e por
aí vai.

Mas a negligência do ego é causa de grandes sofrimentos. Tomemos como exemplo as relações ordinárias que todos compartilhamos e os abusos que cometemos uns com os outros.

O abuso sempre começa sem razão e se torna razoável. Alguma agressão fortuita, feita em público ou de modo privado, sendo que o acerto é sempre privado. Então a parte que agride convence a parte agredida que deve relevar,
pois a relação é satisfatória.

É uma relação de poder muito sofisticada porque não é imposta de cima pra baixo, mas se gesta na horizontalidade da relação afetiva. Está quase sempre travestido por um cuidar do outro. Os abusadores quase nunca são arrematadamente cruéis e tem uma autoimagem muito elevada de sua peculiar generosidade.

O abusador opera exclusivamente no nível da racionalidade, enquanto o abusado vivencia o emocional. E o relacionamento abusivo acontece quando o racional prevalece sobre os sentimentos. Há um menosprezo pelo sentimento do outro.

O abuso tem muitas formas, desde um safanão, uma patada, uma grosseria descuidada, um gesto sútil. Não precisa se manifestar como violência física para ser abuso, mas sempre nega a humanidade do outro.

Depois de um tempo, o evento se repete, mas agora só no âmbito privado. Então começa a relação abusiva. A parte ofendida faz o cálculo que a relação ainda vale a pena e releva uma vez mais.

Na vez seguinte, a vergonha entra no jogo da relação: a parte ofendida se envergonha de si e do outro e se cala, produzindo uma resiliência tóxica. Aqui começa uma simbiose, uma forma perversa de cumplicidade em nome dos benefícios da relação, mas principalmente se torna um segredo. E aqui vira rotina, pois ciclicamente voltará a acontecer. Passa a ser um hábito.

A parte que ofende se torna cada vez mais negligente, embora saiba do abuso, pois ele só acontece no âmbito privado e nunca mais no público: cada um sabe que há ali uma indignidade corrosiva e latente. Normalmente, nas relações abusivas, toda reação é aplacada com a lógica da relação satisfatória. Há sempre uma contabilidade que reafirma a continuidade.

O abuso está potencialmente presente em todas as formas de relação e degenera a todos os envolvidos, mas a pessoa abusada vê minando sua estima enquanto o abusador naturaliza a relação tornando normal a toxidade.

Nesse sentido, é sempre uma patologia e como tal será somatizada pelo organismo. Mestre Pastinha é mais que adequado a essa situação: “quem bate não se lembra, quem apanha nunca esquece”.

Como estou num caminho de autoconhecimento, só depois de ter passado pela experiência daquele que sofre o abuso pude perceber que também sou um abusador. Agora começa minha jornada para deixar de sê-lo.

John Milton, em seu libelo contra a monarquia inglesa, escreveu O Paraíso Perdido no séc. XVIItambém como um arauto do isolamento do homem operado pelo ego. Sua metáfora religiosa era a única válida e plausível então.

A obra de 1667 narra o aparecimento do ADVERSÁRIO, significado hebraico do termo Satanás, da árvore do conhecimento (a educação, a ciência, o trabalho) como representação da queda do homem (sua desumanização, sua coisificação, sua reificação) e de sua separação da natureza divina a que pertencia, implicando em todo sofrimento que daí adviria.

O ego é o único adversário a ser vencido.

*Eduardo Bonzatto é professor da Universidade do Sul da Bahia, permacultor e colaborou para Pragmatismo Político

MAIS UM PROCURADOR ATACA AS AGÊNCIAS DE CHECAGEM

Procurador ligado ao MBL publica mentiras sobre jornalistas para atacar agências que se dedicam a combater fake news. Parceria do Facebook com agências de checagem é o mais novo pesadelo de grupos que sobrevivem nas redes criando e espalhando notícias falsas, como é o caso do próprio MBL

Monteiro (de camisa xadrez) com vereador Fernando Holiday (DEM) e Kim Kataguiri, ambos do MBL | Foto: Facebook

Arthur Stabile, Ponte Jornalismo

O procurador Marcelo Rocha Monteiro, do Ministério Público do Rio de Janeiro, publicou mentiras sobre jornalistas para atacar agências que se dedicam a combater as notícias falsas na internet.

Contrário a uma parceria firmada entre o Facebook e as agências de “fact-checking” (checagem de fatos) Lupa e Aos Fatos com o objetivo de conter a propagação de “fake news”, o procurador espalhou ele próprio notícias falsas sobre o jornalista Leonardo Sakamoto, presidente da Repórter Brasil e colunista do UOL.



Em uma das postagens mais recentes, Monteiro se refere a Leonardo Sakamoto como um “jornalista de extrema-esquerda”, “contratado pela rede social [Facebook] para fazer checagem de fatos” em meio à “tentativa de censura a liberais e conservadores”.

Ao contrário do que afirma o procurador, contudo, Sakamoto não tem qualquer relação com a parceria entre as agências e o Facebook – e, inclusive, é contrário a ideia de que corporações tenham poder de determinar o que é verdadeiro ou falso nas redes.

Notícias falsas compartilhadas pelo procurador colocam Sakamoto como dono da Agência Pública, que faria parte da parceria de checagem de fatos com o Facebook. De novo, as informações são mentirosas: Sakamoto não é dono da Pública, que, por sua vez, nada tem a ver com a parceria das agências de checagem com o Facebook.

Em outra postagem, o procurador volta a misturar Sakamoto e a Agência Pública, para afirmar que “a autodenominada ‘agência de checagem de fatos’, que diz ser sua missão ‘combater fake news’, informa: Não há crise humanitária na Venezuela”. O link trata de uma reportagem da Agência Públicasobre a Venezuela publicada no ano passado – e que apresentava diferentes faces da situação no país, afirmando, por exemplo, que 70% dos venezuelanos haviam perdido em média 8 quilos, mas reconhecendo que a escassez de alimentos básicos havia atingido seu auge no ano anterior.

As mentiras espalhadas por Marcelo Rocha Monteiro se unem ao esforço coletivo de diversos grupos de direita que se colocam contra a parceria firmada entre o Facebook e as agências de checagem, a qual consideram um “ataque à liberdade de expressão” e uma tentativa de “censura” instigada pela “extrema esquerda”, como afirma Renan Santos, um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre).
‘Ser jornalista sério virou profissão de risco’

Na falta de informações reais que comprovem sua tese, esses grupos passaram a publicar diversas informações falsas sobre as agências de checagem, misturando ataques pessoais aos jornalistas que fazem parte dessas empresas até mentiras que misturam outros profissionais sem qualquer relação com a parceria do Facebook.

O próprio procurador, por sinal, posta fotos em seu Facebook ao lado de membros do MBL (Movimento Brasil Livre), entre eles Kim Kataguiri, Renan Santos, o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM) e o youtuber Arthur do Val, do canal “Mamãe, falei”.

Foram justamente os integrantes do MBL que, em junho do ano passado, usaram dados falsos sobre progressão de regime de sentenciados para atacar Sakamoto. O Truco, fact-checking da Agência Pública, pediu informações ao movimento, que respondeu com a imagem de um pênis usando um capacete escrito ‘imprensa’ e os dizeres “cheque isto”.

“Essas coisas criam um clima ruim e você passa a achar que todo mundo na rua pode ser um agressor. Ser jornalista sério no Brasil hoje em dia é uma profissão de risco”, diz Sakamoto. “Não sei onde vamos parar, espero que o jornalismo sobreviva a esse momento, ruim”, segue. Ele enviou o caso ao MPF (Ministério Público Federal) e às Nações Unidas – segundo ele, por fazer parte de um grupo da ONU que atua contra o trabalho escravo, qualquer ameaça deve ser informada ao órgão. “Caso aconteça qualquer coisa comigo, já se sabe”, aponta.

As perseguições ganharam força com a publicação de um “dossiê” sem assinatura intitulado “censores”. Nele, o autor faz uma “auditoria de viés partidário” dos integrantes da Agência Lupa e do Aos Fatos, e de jornalistas e professores que o autor anônimo acha que têm alguma relação com eles. São 299 páginas com prints das redes sociais de 36 jornalistas e quatro professores universitários. Os nomes de todas as pessoas estão expostas no documento, com a intenção de apontar “partidarismo” por parte de quem faz a checagem dos fatos.
Em defesa das notícias falsas

“Isto fez com que ataques surgissem em comentários nas redes, de ‘safada’ e ‘vagabunda’ para baixo. A exposição foi maior com dois membros da equipe antes deles fazerem parte da Lupa”, revela Cristina Tardáguila, diretora da Agência Lupa. “Estão nos acusando de não sermos transparente nos perfis, sendo que o trabalho da Lupa é que deve ser transparente, e ele é”, prossegue.

As perseguições criaram medo nos jornalistas. Por conta do relatório, há quem tenha fechado suas redes sociais para pessoas que não sejam seus amigos, outros preferiram apagar os perfis.

Tanto a Lupa quanto a Aos Fatos fazem parte da IFCN (International Fact-Checking Network), uma rede que avalia e dá aval para agências de checagem em todo o mundo. Um dos critérios para constar da lista de aptos pela IFCN é justamente o apartidarismo e independência de seus jornalistas. Para isso, auditorias são feitas periodicamente.

“Nós temos protocolos internos que orientam nossos jornalistas a não endossar projetos político-partidários nem se mobilizar em campanhas. Nosso código de ética é no sentido de não endossar plataformas políticas, mas tratá-las de maneira equânime. Sem esses parâmetros, nós sequer seríamos aprovados pela IFCN e não seríamos hoje checadores no Facebook”, pondera Tai Nalon, da Aos Fatos.

A ideia é que, através do trabalho das duas agências, o Facebook receberá relatórios de conteúdos com possível indicação de noticiário falso. Com esse documento em mãos, caberá ao Facebook determinar quais posts e publicações terão o poder de alcance e disseminação diminuídos dentro da rede.
O procurador com integrantes do MBL, entre eles o vereador Fernando Holiday, Renan dos Santos, Kim Kataguiri e o blogueiro Arthur do Val do “Mamãe, falei” | Foto: Facebook

Muitas páginas têm bons motivos para temer uma checagem de fatos. Em março, o Facebook retirou do ar uma página e dois perfis que haviam disseminado notícias falsas sobre a vereadora assassinada Marielle Franco (Psol), acusando-a de ligação com o crime organizado. Segundo o Globo, as páginas pertenciam a Carlos Augusto de Moraes Afonso, que adotava na rede o pseudônimo de Luciano Ayan.

O nome de Ayan também aparece associado à produção de outras notícias falsas, que também difamaram o jornalista Leonardo Sakamoto. Segundo a Folha de S.Paulo, documentos sugerem que as “fake news” contra Sakamoto teriam sido financiadas pela JBS, dona das marcas Friboi e Swift, que estaria incomodada com a atuação do jornalista contra o trabalho escravo no campo, por meio da Repórter Brasil.

Curiosamente, o próprio Sakamoto se diz contrário à possibilidade de o Facebook diminuir o alcance de posts com base na verificação feita por agências de fact-checking. “Sou contra a ideia de qualquer grupo, governo ou pessoa definir o que é verdade ou não. Tenho posição clara”, explica o jornalista. “Prefiro um sistema em que notícias falsas corram e atrapalhem a democracia do que uma democracia que o Estado ou corporações digam o que é verdade ou não. Aí não é democracia”, define.

PROCURADOR ESPALHA FAKE NEWS SOBRE JORNALISTAS E AGÊNCIAS DE CHECAGEM

Procurador federal conhecido por micos espalha fake news perigoso sobre jornalista e agências de checagem

Conhecido por escrever pérolas nas redes, o procurador Ailton Benedito agora se especializou em espalhar fake news

A Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji) divulgou nota (leia abaixo) para repudiar o posicionamento criminoso de procuradores contra jornalistas e agências oficiais de checagem.

Um dos procuradores que dispararam ataques nas redes sociais é Ailton Benedito. Ele foi empossado procurador-chefe da Procuradoria da República em Goiás (PR-GO) em outubro de 2017 e coleciona polêmicas e pérolas nas redes sociais.

Em 2014, Ailton virou piada nacional o Itamaraty a levantar a identidade de supostos jovens sequestrados e investigar uma possível rede de tráfico humano na Venezuela. O motivo foi a divulgação de que o governo do país vizinho teria convocado 26 jovens do ‘Brasil’ para compor as Brigadas Populares de Comunicação. Acontece que o ‘Brasil’ em questão era apenas um bairro popular do município de Cumaná, na Venezuela, e nada tinha a ver com o nosso País.



Mais recentemente, o procurador voltou a ganhar os holofotes ao tuitar que o nazismo seria um regime de esquerda, baseando-se em uma questão nominal. O argumento utilizado por ele era o fato de haver a palavra “socialista” em “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”.

Naquele mesmo dia, em resposta a quem rebateu sua postagem, escreveu que “a praga SOCIALISTA alastra-se pelo Brasil”. “Mais algumas gerações, e o homo sapiens tupiniquim saboreará cadáveres no desjejum”, completou.

Em março, Ailton afirmou que o atentado a tiros contra ônibus da caravana de Lula foi uma ação de marketing do próprio PT e usou uma tese alucinada para justificar seu argumento.

Abaixo, leia a nota da Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos:

A recente ofensiva contra as agências de checagem Aos Fatos e Lupa atinge também organizações e pessoas que não estão envolvidas no programa de verificação de conteúdo do Facebook, cujo lançamento no início deste mês originou a onda de ataques.

Após a propagação de informações falsas sobre o jornalista Leonardo Sakamoto e a Agência Pública, o profissional e o veículo passaram a ser alvo de ameaças, ofensas e exposição indevida. Agentes públicos como o procurador federal Ailton Benedito, o procurador de Justiça do Rio de Janeiro Marcelo Rocha Monteiro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) estão entre as pessoas que compartilharam tais informações.

Em postagens nas redes sociais, Rocha e Bolsonaro afirmam erroneamente que Sakamoto foi contratado pelo Facebook para participar da iniciativa de checagem de publicações indicadas como potencialmente falsas na plataforma. De acordo com informações do próprio Facebook, apenas Aos Fatos e Lupa são parceiros do programa.

Circulam ainda postagens segundo as quais Sakamoto seria “dono” da Agência Pública, o que é desmentido por uma verificação simples no site do veículo.

Graças às informações erradas e ao discurso inflamatório usado por figuras públicas como os procuradores e o deputado federal, Sakamoto tem recebido ameaças de morte e centenas de ofensas por meio de comentários em sua página e blog. O jornalista diz ainda que quase foi agredido fisicamente.

As redes sociais da Agência Pública também foram inundadas por comentários agressivos, e os perfis pessoais de seus jornalistas têm sido expostos indevidamente, com acusações e desqualificações grosseiras, inclusive pelas figuras públicas citadas.

A Abraji repudia os ataques e o assédio direcionado aos jornalistas. É muito grave que, nesse episódio, agentes públicos difundam inverdades contra um dos alvos desses ataques e exponham outros indevidamente, contribuindo para a intensificação das agressões. Ameaças, ofensas e invasão da intimidade de profissionais da comunicação em função de sua atividade são atos antidemocráticos.

PASTOR EVANGÉLICO ESTUPRA FILHO E ENTEADO ANTES DE MATÁ-LOS

Perícia revela que pastor evangélico estuprou o filho de 3 anos e o enteado de 6 antes de matá-los no Espírito Santo. Os meninos foram queimados vivos

O pastor George Alves, a esposa e os filhos. A mulher não teve participação no crime

O pastor evangélico George Alves, da Igreja Batista Vida e Paz, assassinou o próprio filho, de 3 anos, e o enteado, de 6. A informação, baseada em laudos periciais, foi confirmada pela Polícia Civil do Espírito Santo nesta quarta-feira (23).

A perícia revelou ainda que George Alves estuprou os meninos antes de matá-los de maneira cruel: eles foram queimados vivos.

O crime aconteceu no mês passado, em 21 de abril, na cidade de Linhares, no Espírito Santo. A princípio, o pastor George Alves, que estava sozinho em casa com os meninos, disse que eles morreram em um incêndio que atingiu apenas o quarto onde as vítimas dormiam.

O pastor chorou na primeira entrevista que concedeu à imprensa. George disse que tentou salvar os meninos, mas a polícia identificou inconsistências em sua fala.

Menos de 24 horas depois da morte de Joaquim Alves Salles e Kauã Salles Butkovsky, câmeras de segurança flagraram o pastor George e a mãe dos meninos em uma lanchonete. Ambos aparentavam normalidade.

De acordo com o inquérito, a mãe não teve participação no crime e não será investigada. No dia do crime, Juliana Salles estava em um congresso em Minas Gerais com o filho mais novo do casal.

George Alves está preso desde o dia 28 de abril. A polícia afirma que ele alterou o local do crime e fez contato com testemunhas. Ele foi indiciado por duplo homicídio triplamente qualificado e duplo estupro de vulneráveis. A soma máxima das penas pode chegar a 126 anos.
Delegado descreve assassinatos

“Naquela madrugada, o investigado, inicialmente, molestou as duas crianças, tanto o filho biológico Joaquim quanto o enteado Kauã, mantendo um ato libidinoso”, disse o delegado André Jaretta.

“Com as duas vítimas ainda vivas, porém desacordadas, o investigado as levou até o quarto, as colocou na cama e ateou fogo nas crianças, fazendo com que elas fossem mortas com o calor do fogo”, explicou Jaretta.

“Isso tudo é comprovado pelo exame pericial. As crianças continham fuligem na traqueia e o exame demonstrou que elas ainda respiravam quando começou o incêndio”, concluiu o delegado.

Pastor fez culto evangélico depois do crime

A polícia ainda não desconfiava de George Alves e não tinha elementos para incriminá-lo nos instantes que sucederam o crime. Apenas um dia depois dos assassinatos, como se nada tivesse acontecido, o pastor realizou um culto em sua igreja.

Durante o ato religioso, George contou, no microfone, diante de dezenas de fiéis, uma versão mentirosa do que havia acontecido naquela madrugada. O pastor alegou que houve um incêndio acidental e ele tentou salvar os meninos.

“Quero agradecer a todos a solidariedade e as orações. Quero dizer que só há um caminho e esse caminho não acaba na cruz, mas na ressurreição. Não há nada que me faça parar agora, entrar num quarto, entrar em depressão porque eu creio que há um senso de urgência: o mundo precisa de Deus. Não há uma resposta para o mundo, se não for Deus”, bradou.

Ainda sem saber que George era o autor do crime, alguns jornais religiosos louvaram a sua atitude de ministrar um evento religioso após a morte das crianças: “Mesmo depois da dor de perder os filhos, o pastor continuou testemunhando o amor de Deus às pessoas (sic)”, publicou um veículo de notícias gospel.

                                       Imagens do pastor George Alves:

ALUNOS DA PUC PEDEM CONTRATAÇÃO DE PROFESSORA NEGRA E OCUPAM FACULDADE

Aulas e atividades administrativas estão suspensas na PUC depois que alunos ocuparam a faculdade exigindo a efetivação de uma professora negra. Docente em questão é a única não branca em mais de 80 anos do curso de Serviço Social



Alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo ocuparam o campus de Perdizes em um protesto pedindo a efetivação de uma professora negra no curso de Serviço Social. A PUC informou que as atividades acadêmicas e administrativas do campus estão suspensas.

Em nota, o Centro Acadêmico de Serviço Social informou que as aulas foram paralisadas “em prol do fortalecimento da pauta #MarciaFica”, pedindo a contratação efetiva de Marcia Eurico. Segundo o CA, trata-se da única professora negra que o curso admitiu em seus 80 anos de funcionamento.

Fotos que circulam nas redes sociais mostram barricadas de cadeiras e cartazes indicando a ocupação e protestando contra o racismo.

Como resposta, a reitoria da PUC divulgou uma nota listando as ações já tomadas pela universidade sobre a questão racial, como a instituição de cotas para os estudantes e o início de debates sobre cotas para o corpo docente também.

Leia a íntegra da nota do Centro Acadêmico:

“NOSSA LUTA É POR REPARAÇÃO HISTÓRICA, ATUALIZAÇÃO E QUALIDADE DO CURSO:

NÓS, ALUNAS E ALUNOS DO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL DA PUC-SP, PARALISAMOS NOSSAS AULAS NA MANHÃ DESSA SEGUNDA-FEIRA (21) EM PROL DO FORTALECIMENTO DA PAUTA #MARCIAFICA. NÃO RECUAREMOS 1MM SEQUER, MESMO COM PESSOAS QUE COMPÕEM ESSA UNIVERSIDADE (PROFESSORES E ALUNOS) AMEAÇANDO A NOSSA INTEGRIDADE FÍSICA. OCUPAREMOS E RESISTIREMOS.

*É DE GRANDE IMPORTÂNCIA QUE QUEM QUEIRA SOMAR COM A LUTA FORTALEÇA DE CORPO PRESENTE SE POSSÍVEL, MAS CASO NÃO SEJA, AJUDARÁ MUITO O FORTALECIMENTO COM ALIMENTOS DE FÁCIL CONSUMO.

#MARCIAFICA

“No último processo seletivo ocorrido na Faculdade de Serviço Social da PUC/SP para a contratação de docente substituta a Profa. Marcia Eurico foi uma das entrevistadas e aprovada para a vaga, entrando assim para o quadro de docentes da referida instituição. A Profa. Marcia Eurico tem uma trajetória pública e notória. É professora universitária há mais de 12 anos, têm experiência tanto no campo acadêmico como nos espaços sócio ocupacionais. Foi a autora mais citada nos trabalhos enviados ao 15º CBAS e tem diversos artigos publicados em revistas científicas, tais como Serviço Social e Sociedade e Revista Ser Social, e no próximo dia 25 deste mês defenderá sua tese na PUC/SP.

A chegada de uma mulher negra naquele espaço tão restrito reacendeu uma discussão que há tempos faz parte das pautas de reivindicações das/os estudantes que constroem o CA da PUC/SP. Assim, no último dia 07 de maio de 2018, durante a realização do 11º Seminário Anual de Serviço Social iniciou-se uma mobilização com o movimento #MARCIAFICA, entendendo a importância de uma professora negra naquele espaço.

Destacamos que o Curso de Serviço Social da PUC/SP é pioneiro no País, com mais de 80 anos de existência, e em toda sua história nunca houve em seu quadro de docentes efetivos um/uma docente negro/a. Ressaltamos ainda que as orientações da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, bem como do Conjunto CFESS/CRESS (2016-2018) é direcionada para a imediata inclusão de disciplinas e núcleos de pesquisas que discutam as opressões, e entre elas, o racismo e as determinações étnico-raciais, e neste sentido, a reivindicação das/os alunos/as é legítima e portanto reafirmamos #MARCIAFICA.

Nesta direção, reafirmamos nosso compromisso com essa categoria profissional e ressaltamos o necessário e urgente apoio frente a essa trincheira, que neste momento histórico nos convoca a continuar nessa articulação entre entidades, e neste sentido conclamamos à todas/os que historicamente constroem essa categoria profissional, aos profissionais assistentes sociais, discentes e docentes da graduação e da pós-graduação, aos supervisores de campo e acadêmico e a cada um/uma que compactua com o mesmo projeto societário, que assinem o abaixo-assinado que já conta com mais de 1.200.00 ASSINATURAS, e que participem das assembleias e demais atividades que ocorrerão durante a ocupação que reivindica a imediata CONTRATAÇÃO EFETIVA da Profa. Marcia Eurico, e por cotas no corpo docente da graduação e pós graduação.
Segue na íntegra o abaixo assinado https://www.change.org/p/reitoria-da-puc-sp-marciafica.

ENESSO É PRA LUTAR!!! O MESS EXISTE E RESISTE! #MARCIAFICA.

Assinem esta nota:

Comissão Gestora da Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social.

Coordenação Regional da ENESSO – Região VII.

Maio/2018”

Leia a íntegra da nota da Reitoria da PUC:

A Reitoria da PUC-SP vem manifestar o seu reconhecimento da relevância das demandas dos alunos do curso de Serviço Social, que incorporam questões acerca da temática racial na Universidade.

Nesse sentido, em conjunto com os Coletivos da Universidade, tem estabelecido uma agenda de ações concretas relacionadas a essa temática, que envolvem a participação da comunidade universitária, da Reitoria e da FUNDASP. Entre elas, destaca-se a implementação do Programa “Inclusão social: cotas étnico-raciais” para a concessão de bolsas de estudo na Pós-graduação stricto sensu, desde o 2º semestre de 2017. Esse Programa foi discutido e aprovado pelos órgãos colegiados da Universidade.

Além disso, vem realizando reuniões com o conjunto de representações do corpo discente para o estabelecimento de uma política de permanência dos estudantes na Universidade, iniciada com bolsas alimentação.
Em continuidade a essas ações, a Reitoria, com base no modelo utilizado na Pós-graduação, já elaborou proposta de política de bolsas de estudos, com critério de recorte racial, para alunos da graduação, cuja implantação está prevista para o 2º semestre de 2018.

Reconhecendo a necessidade de diversificação e mudança do perfil do quadro docente da Universidade, está em elaboração uma política de cotas étnico-raciais para a contratação de docentes, a ser amplamente discutida pela comunidade, ainda neste ano, e aprovada nas instâncias colegiadas.

Em relação à demanda específica de permanência da professora Marcia Eurico, no quadro docente do curso de Serviço Social, os Departamentos de Fundamentos do Serviço Social e de Política Social e Gestão Social responderam expressando sua posição. A Reitoria, preservando a autonomia dos Departamentos e da Faculdade de Ciências Sociais, tal como previsto no Estatuto da Universidade, acompanha as tratativas em curso entre os estudantes e aquela unidade acadêmica, com forte expectativa de que se chegue à melhor solução.

A Reitoria reafirma sua disposição em manter o diálogo com os estudantes acerca de suas demandas e reitera a necessidade de que a Universidade retome seu funcionamento normal, uma vez que questões estruturais relativas ao tema continuarão sendo tratadas e implementadas em âmbito institucional.

A Reitoria”

Luiza Calegari, Exame

MAIO DE 1968 E A GERAÇÃO QUE PERMANECE FIEL A SEUS IDEIAIS

A geração que protagonizou o movimento de Maio de 1968 se mantém fiel a seus ideais de justiça e de liberdade, afirmam especialistas no momento em que a França se prepara para celebrar o 50º aniversário de um dos meses mais intensos de sua história



Midia 1508



No ano de 1968, a França viveu uma grande onda de protestos de caráter revolucionário. Um movimento ocorrido durante o mês de maio daquele ano provocou uma grande greve geral de trabalhadores e estudantes franceses e chegou a reverberar em outros países. Os protestos de Maio de 68 tiveram no movimento estudantil. Em 2 de maio de 1968, um movimento foi iniciado por estudantes das universidades de Paris e Sorbonne que pediam reformas no setor educacional francês. Os protestos se estenderam por vários dias e foram reprimidos com violência policial. Estudantes e trabalhadores levantaram barricadas e enfrentaram a repressão e, nesse período, Paris vivia um cenário de batalha campal.

A resposta violenta do então presidente Charles De Gaulle aos estudantes franceses fez com que o movimento estudantil ganhasse força, sendo apoiado pelo Partido Comunista Francês (PCF) e pelos trabalhadores franceses.

Com ajuda de sindicatos, o movimento convocou em 13 de maio uma greve geral no país. Com cerca de dois terços dos trabalhadores em greve, o presidente De Gaulle se sentiu pressionado e no dia 30 de maio decidiu convocar novas eleições para junho. No entanto, De Gaulle e seus aliados venceram as eleições graças à manobras políticas e promessas de aumentos salariais, o que enfraqueceu o movimento estudantil e terminou com a greve geral. Apesar da vitória, De Gaulle renunciou no ano seguinte.

As frases rebeldes de Maio de 68 na França, como o clássico “É proibido proibir”, além de “A imaginação no poder” e “O poder está nas ruas, não nas urnas”, são algumas que entraram para a história da luta política internacional. Embora apagadas dos muros, as frases sobreviveram e resistiram à passagem do tempo e permaneceram gravadas na memória de uma geração. Pintados nas paredes, principalmente do famoso Quartier Latin de Paris, sede da Universidade Sorbonne e epicentro da revolta estudantil, os grafites eram sinônimo de liberdade, diz o jornalista Julien Besançonem um livro que compilou centenas de inscrições em Paris e na cidade próxima, Nanterre, sede de outra universidade mobilizada durante as revoltas de maio.

Muitos dos grafites se transformaram em palavras de ordem e foram imortalizados na época por uma militante de belas artes de Paris, que imprimiu 600 mil cartazes, colados na capital e arredores. A maioria de seus autores conservaram o anonimato. Mas alguns evocam sua fase criativa, como Bernard Cousin, estudante que se transformou em médico e que reivindica a compaternidade de “Sob os paralelepípedos, a praia”. A frase foi fruto de uma reflexão dele e de um jovem publicitário, Bernard Fritsch, e o ponto de partida foi a frase “Há grama debaixo dos paralelepípedos”.

O famoso “É proibido proibir” foi criado por um humorista e causou furor na época. A revolta e a recusa à autoridade foram expressas no cartaz “Jovem, aqui está sua cédula para votar”, que mostrava um paralelepípedo, símbolo da luta e revolta contra os agentes da repressão policial e de barricadas.

Enquanto algumas propagandas falavam de uma sociedade voltada ao trabalho, como “Metrô, trabalho, dormir”, outros celebravam a utopia: “Sejam realistas, exijam o impossível”. Cartazes em Paris mostravam uma jovem lançando um paralelepípedo enquanto dizia: “A beleza está na rua”.
Mesmo 50 anos depois a geração de maio de 68 permanecem fiéis ao seus ideais

A geração que protagonizou o movimento de Maio de 1968 se mantém fiel a seus ideais de justiça e de liberdade, afirmam especialistas no momento em que a França se prepara para celebrar o 50º aniversário de um dos meses mais intensos de sua história. As conclusões são ainda mais surpreendentes dado o mito que cerca os jovens que protagonizaram a maior greve geral da história francesa.

“Quando investigamos as pessoas anônimas que participaram do movimento, nos damos conta de que a ideia de que a geração de Maio de 1968 deu as costas para a causa é completamente falsa”, explica a pesquisadora Julie Pagis, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.

Entre os membros de 170 famílias analisadas por Pagis para um livro sobre o tema, “apenas uma pessoa” deu uma guinada para a direita. “Há uma grande fidelidade à esquerda, ou à extrema-esquerda”, diz a pesquisadora.

“Mais da metade ainda tem atividades militantes” e “muitos continuam participando regularmente de manifestações públicas”, completa. “Ainda querem, por diferentes meios, mudar o mundo”, diz Julie Pagis, acrescentando que, hoje, muitos se manifestam contra as reformas de Macron.

Já o historiador Pascal Ory afirma que o espírito de Maio de 1968 não apenas influenciou comunistas e anarquistas da época, mas a esquerda como um todo e se prolongou por meio de novos combates “influenciados por perspectivas libertárias”, como o feminismo, a ecologia e a luta contra o racismo.
Estudantes-trabalhadores portugueses em Maio de 68

O envolvimento português nos acontecimentos de maio de 1968 foi sobretudo protagonizado por estudantes-trabalhadores que serviram de ponte entre os sindicatos e a emigração clandestina.

O historiador da Universidade de Pau et des Pays de l’Adour, Victor Pereira, refere que existem estudos de sociologia, elaborados na França logo após o Maio de 68, que mostram que muitos portugueses, sobretudo nas fábricas, não boicotaram greves e que participaram dos acontecimentos até porque havia trabalhadores politizados e que falavam francês e que fizeram a ligação entre o movimento sindical e os emigrantes.

“Não podemos ter visões monolíticas, de que todos os portugueses tiveram medo e fugiram, porque isso não é verdade. Houve uma organização importante como o Comitê de Ação da Sorbonne e um Comitê de Ação dos Trabalhadores e Estudantes Português que tinha a ideia de que a revolta não se limitava ao meio acadêmico. Os estudantes lançaram a faísca, mas os operários é que tinham de continuar a luta”, conta o historiador.

Em 1968, viviam na França cerca de 200 mil portugueses sendo que muitos tinham ido a salto (clandestinamente) a partir do final dos anos 1950, sem documentos, não dominavam totalmente a língua e viviam como operários em bairros periféricos, em casas muito degradadas ou em alojamentos para estrangeiros, sobretudo na região de Paris.

Segundo Victor Pereira, quando surgem os tumultos de 68 em Paris muitos dos portugueses não entendem o movimento porque a grande parte trabalhava na construção civil (obras públicas), um meio pouco sindicalizado e que não permite, como numa fábrica, ter uma unidade fixa e consequentemente promover a sindicalização.

“Por outro lado, é preciso distinguir quem são os operários e quem são os estudantes, porque a partir de 1961, com o início da Guerra Colonial e da revolta estudantil em 1962 muitos estudantes portugueses vão para França e são obrigados a trabalhar porque cortaram com a família, têm pouco dinheiro e são obrigados a encontrarem emprego, muitos deles em fábricas”, diz o autor do livro “A Ditadura de Salazar e a Emigração”.

Muitos estudantes portugueses são rebeldes e têm uma visão diferente dos acontecimentos porque têm um “capital cultural diferente” do que a maior parte da comunidade emigrante e ao contrário dos trabalhadores sabiam que não podiam voltar – por motivos políticos – enquanto que os emigrantes pretendiam regressar quando tivessem dinheiro para visitar Portugal nas férias.

“Na França, os estudantes-trabalhadores portugueses podiam fazer coisas que dificilmente poderiam fazer em Portugal: falar, contestar e explicar diretamente os acontecimentos aos trabalhadores portugueses de comunidades rurais”, explica o historiador acrescentando que, sobretudo nas fábricas, os trabalhadores-estudantes portugueses desempenham um papel muito importante na intermediação entre os sindicatos e os operários.

Na altura, frisa o historiador, os trabalhadores-estudantes faziam panfletos em português e organizavam visitas aos bairros operários como “tentativas” de ações de politização dos emigrantes clandestinos que receavam estar vigiados pela polícia política do Estado Novo para os perseguir e expulsar da França.

A maior parte desses estudantes eram maoistas, anarquistas ou sem organização, mas “estavam desvinculados” do Partido Comunista de Portugal (PCP) que era apontado como um partido ortodoxo.

“Muitos militantes do PCP não participaram no Maio de 68 porque temiam ser vistos pela polícia ou pelo informador da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). É quase um paradoxo: os comunistas eram as pessoas que mais capital político tinham e quase não participaram nos acontecimentos. Quase nunca iam ao Quartier Latin, em Paris, onde os cafés eram frequentados pela extrema-esquerda, mas onde temiam ser apontados pelos ‘bufos’ e informadores da PIDE”, sublinha Victor Pereira.
1968 – O ano que marcou o mundo

Em 1968, os Estados Unidos acumularam fracassos no Vietnã, a juventude tomou as ruas de Berlim, Paris e México. Foi um ano de revoltas e esperança, que muitas vezes acabou em desilusão.

Em meados dos anos 1960, estudantes dos Estados Unidos e Europa eram os principais críticos da guerra do Vietnã. Em 1968, o movimento foi ampliado, incorporadas críticas ao capitalismo e introduzidas novas reivindicações: liberdade sexual, feminismo e ecologia. Na Alemanha, a tentativa de assassinato, em 11 de abril, do líder estudantil Rudi Dutschke, iniciou uma revolta em Berlim, que se ampliou para dezenas de cidades alemãs.

Na Cidade do México, em 2 de outubro, a 10 dias dos Jogos Olímpicos, as forças de segurança assassinaram centenas de estudantes, quando os jovens realizavam uma manifestação na Praça das Três Culturas, no bairro de Tlatelolco, pedindo a abertura democrática no país. Além disso, o líder do movimento pelos direitos civis Martin Luther King foi assassinado em 1968, ano que viu as chocantes imagens da fome causada pela guerra da Biafra, na Nigéria.