NÃO HÁ UM PONTO CEGO NO PLANO DA JUSTIÇA ELEITORAL


O TSE criou regras rígidas para o ambiente digital — de rótulos obrigatórios à proibição de deepfakes. O desafio, porém, é a própria dinâmica da AI: a fiscalização funciona muito bem para o que é publicado abertamente nas redes, mas esbarra no invisível quando a conversa acontece em um chat privado entre o eleitor e o robô.



(Imagem: Rubens Cavallari | FolhaPress)



Diferente das eleições dos últimos anos, hoje cerca de 40% dos brasileiros usam bots como ChatGPT, Gemini, Grok ou MetaAI para pesquisar e sintetizar decisões do dia a dia.




Quando esse eleitor troca a busca do Google por uma pergunta ao chatbot — "Qual candidato é melhor para a economia?" —, a política deixa de ser um debate coletivo e vira uma conversa estritamente privada.




É aqui que a fiscalização esbarra no impossível. Como o TSE vai auditá-lo se a resposta é gerada em tempo real, exclusivamente para a tela de um único usuário?

O fenômeno do espelho ideológico


Para medir o impacto dessa dinâmica, um levantamento testou os quatro principais chatbots com as mesmas 25 perguntas sobre a eleição de 2026, simulando três perfis: conservador, progressista e neutro.

Para agradar o interlocutor, ferramentas como ChatGPT, Grok e Gemini agiram como camaleões: adaptaram o tom e o enquadramento dos fatos de acordo com a ideologia do perfil.

O Grok, por exemplo, recomendou votos opostos dependendo de quem perguntava — indo contra a regra direta do TSE que proíbe AIs de ranquear ou favorecer candidatos.

A isso somam-se os erros factuais básicos: a Meta AI errou 24% das respostas, chegando a negar condenações de figuras políticas, o ChatGPT inventou candidaturas inexistentes e o Gemini forneceu dados de contato desatualizados da própria Justiça Eleitoral.

Imagem: Luiz Roberto | TSE

O que fica claro é que o maior risco da AI na eleição não é apenas a capacidade de criar um deepfake convincente ou inventar um fato.

Se dois eleitores perguntam ao mesmo sistema sobre o mesmo país e recebem "fatos sob medida" para confirmar suas próprias crenças, a tecnologia deixa de ser uma fonte de informação e passa a fabricar bolhas de realidade paralela em escala individual.

No fim das contas, o desafio do TSE nas eleições é entender como preservar a credibilidade numa era onde o algoritmo é quem dá a palavra final.



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