ESCASEZ NO VALE DO SILÍCIO FEZ BRASILEIRO VENDER CASAS DE US$ 35 MILHÕES A AMERICANOS

Fab Homes compra terrenos valorizados e usa materiais importados do Brasil para criar residências de alto padrão para driblar escassez em São Francisco


André Magozo, fundador da Fab Homes: empresa brasileira aposta em casas de alto padrão no Vale do Silício usando arquitetura, materiais e fornecedores do Brasil. (Imagem gerada por IA/Divulgação)


Repórter de Mercados

Uma das regiões mais disputadas do mercado imobiliário mundial tem um problema peculiar: sobra dinheiro, mas faltam casas à altura da demanda. No Vale do Silício, onde executivos de empresas como Google, Meta, Nvidia, OpenAI e SpaceX disputam poucos imóveis disponíveis, uma empresa brasileira encontrou uma oportunidade.

A Fab Homes, fundada pelo brasileiro André Magozo, compra casas antigas em terrenos valorizados, derruba ou reforma as estruturas e entrega residências de alto padrão usando arquitetura, materiais e mão de obra especializada do Brasil. A tese da companhia é aproveitar a escassez imobiliária de uma das regiões mais ricas do mundo e a diferença de custo entre Brasil e Estados Unidos.

Hoje, a Fab atua principalmente em Palo Alto, Atherton e São Francisco, regiões onde o preço dos imóveis pode chegar a dezenas de milhões de dólares. A empresa já concluiu 13 projetos nos Estados Unidos e possui outros 12 em andamento, com um valor geral de vendas (VGV) acumulado de aproximadamente US$ 75 milhões.

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A estratégia da Fab é ampliar a operação mantendo o foco em residências unifamiliares de alto padrão. Segundo Magozo, construir casas apresenta menos riscos operacionais do que grandes empreendimentos verticais, além de permitir ciclos mais rápidos de aprovação e execução.

A meta da companhia é atingir US$ 500 milhões de faturamento nos próximos cinco anos, com margem de aproximadamente 20%.

Surfando nas assimetrias

A oportunidade surgiu quando Magozo chegou ao Vale do Silício, em 2018, acompanhando a esposa que trabalhava no Google. Ao observar o mercado local, ele se surpreendeu com um cenário que considerava pouco eficiente. Casas antigas, muitas construídas na década de 1960 e com baixa qualidade construtiva, eram vendidas por milhões de dólares — na prática, pelo valor do terreno.

Segundo ele, o problema estava na combinação entre uma demanda crescente e uma oferta limitada por regras urbanísticas restritivas. O movimento ganhou ainda mais força nos últimos anos com o avanço da inteligência artificial, que concentrou riqueza e novos empregos altamente remunerados na região.

A Redfin, imobiliária digital e proptech americna, mostra que, desde o ano 2000 até meados dos anos 2020, os preços dos imóveis na área tiveram valorização acumulada de 214%. Em termos de valores nominais, a mediana saltou de cerca de US$ 440.000 no ano 2000 para mais de US$ 1.380.000 até o final de 2020, consolidando o período como um dos momentos de maior valorização imobiliária impulsionada pelo crescimento das empresas de tecnologia na região.

“Você tem uma pressão imobiliária brutal, com um zoneamento e um processo de aprovação muito restrito”, afirma Magozo.

O executivo afirma que, desde 1980, o mercado imobiliário da região costuma dobrar de valor em ciclos de aproximadamente sete anos, embora esse movimento não aconteça de forma linear. Na visão dele, as grandes valorizações acompanham ondas tecnológicas que concentram riqueza na região.

O diferencial da Fab está justamente na origem brasileira da operação. A empresa leva para os Estados Unidos arquitetura, interiores, mobiliário, marcenaria e materiais produzidos no Brasil.

“Tudo que a gente pode trazer do Brasil, a gente traz. É o melhor dos mundos, porque a gente compra produto caro do Brasil, mas que é 50%, 70% do custo de fazer aqui com a mesma qualidade", afirma o executivo.

As tarifas internacionais impostas por Donald Trump reduziram parte da vantagem de custo da estratégia brasileira da Fab, mas não eliminaram a diferença competitiva.

"O aumento das barreiras comerciais reduziu entre 10% e 20% o benefício econômico de importar materiais do Brasil, diminuindo em cerca de um terço a diferença de custo que existia anteriormente entre produzir nos Estados Unidos e trazer produtos brasileiros", explica Magozo.

O impacto, porém, não ficou restrito aos fornecedores brasileiros. Os custos também aumentaram nos Estados Unidos, já que uma parcela relevante dos materiais usados no setor imobiliário americano vem da Ásia, especialmente da China, que também foi afetada por tarifas. Na prática, a inflação atingiu diferentes cadeias de fornecimento.

Mesmo com esse cenário, Magozo afirma que a estratégia de importar produtos brasileiros continua vantajosa. A companhia mantém a chamada assimetria de câmbio, em que materiais de alto padrão produzidos no Brasil ainda chegam a um custo inferior ao de alternativas equivalentes nos Estados Unidos.

Casas de até US$ 35 milhões

'Beverly Hills' do Vale do Silício: em Atherton, o empreendimento Elena tem casas de até US$ 35 milhões. (Fab Homes/Divulgação)

A Fab trabalha com diferentes mercados dentro do Vale do Silício. Em Palo Alto, onde estão empresas e universidades próximas ao centro tecnológico da região, as casas entregues pela empresa têm valor médio de cerca de US$ 11 milhões e aproximadamente 600 metros quadrados.

Já em Atherton, considerada uma espécie de "Beverly Hills" do Vale do Silício, os imóveis partem de US$ 35 milhões e podem chegar a áreas entre 1.100 e 1.300 metros quadrados. Em São Francisco, a empresa tem projetos com preço de saída de aproximadamente US$ 25 milhões, em residências menores, com cerca de 300 metros quadrados.

O público comprador é formado principalmente por executivos e empreendedores do setor de tecnologia. “Os compradores são founders ou early employees dessas empresas”, afirma Magozo. Entre eles estão profissionais ligados a empresas como Google, Meta, Nvidia, OpenAI e SpaceX.

Apesar da origem da companhia, os brasileiros não são o principal público comprador. “Só uma casa foi comprada por brasileiro. A maioria são compradas por indianos, na verdade”, afirma.

Segundo ele, a composição dos compradores é bastante internacional, com aproximadamente 25% de clientes indianos, 25% americanos e uma parcela relevante formada por profissionais de outros países.

A diversidade cultural também passou a influenciar os projetos. Magozo afirma que a empresa adapta alguns detalhes das residências para diferentes perfis de compradores, incluindo preferências do público asiático. Entre os exemplos estão evitar o número quatro, associado a azar em algumas culturas, e valorizar o número oito, além do uso de consultoria de Feng Shui para aspectos como o posicionamento das entradas.

Para Magozo, uma das oportunidades da Fab está justamente em um setor que perdeu atratividade para novos talentos. Enquanto jovens profissionais do Vale do Silício preferem trabalhar em startups, fundos de venture capital e empresas de tecnologia, a construção civil passou a ser vista como uma indústria tradicional.

Esse movimento criou uma lacuna entre uma demanda sofisticada e uma oferta com pouca inovação. “São casas muito ruins vendidas por muito caro, casas da década de 60, é quase o preço da terra só”, afirma.

A Fab tenta ocupar esse espaço oferecendo uma solução de conveniência para executivos que não querem administrar obras complexas.

Regras urbanísticas restritivas em São Francisco

São Francisco construiu, ao longo de décadas, uma das culturas de aprovação imobiliária mais restritivas dos Estados Unidos.

O modelo combina instrumentos jurídicos, poder político local e forte participação de grupos de vizinhança nos processos de decisão. Entre os principais mecanismos está o Discretionary Review (DR), que permite que moradores contestem projetos mesmo quando eles seguem as regras de zoneamento, transformando o processo em uma possível barreira adicional para novos empreendimentos.

Outro fator citado por André Magozo é o CEQA, lei ambiental estadual que permite questionamentos judiciais contra projetos e que, segundo críticos, passou a ser usada por grupos locais para atrasar aprovações.

Ao longo dos anos, o poder dos supervisores distritais e a influência de movimentos de preservação e slow growth também contribuíram para limitar a expansão imobiliária. O resultado foi uma produção muito abaixo das metas habitacionais: em 2023, São Francisco aprovou cerca de 3.039 unidades, enquanto a meta estadual previa aproximadamente 82 mil unidades até 2031.

Esse cenário, porém, começou a mudar com a pressão crescente do governo estadual da Califórnia para acelerar a construção de moradias. Leis como SB 35 e SB 423, associadas ao senador Scott Wiener, reduziram parte do poder discricionário das cidades ao criar caminhos mais rápidos de aprovação para projetos que atendem determinados critérios, especialmente de habitação acessível.

Em paralelo, o HCD (Department of Housing and Community Development) abriu uma revisão formal das práticas de aprovação de São Francisco.

Em 2026, Magozo conta que novas reformas locais também sinalizaram uma mudança de direção, com redução de algumas exigências para projetos menores e corte de taxas de desenvolvimento.

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