A FORÇA DAS PERIFERIAS NA CRIAÇÃO DO SUS

Segunda rodada de depoimentos do ciclo de debates “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS” reúne José Noronha, Itamar Silva e Lucia Souto. De Nova Iguaçu ao morro Santa Marta, relembrou-se a fusão da luta comunitária com a luta pela saúde

OutraSaúde
SUS
Por Glauco Faria

Nesta sexta-feira (8), a mesa “40 anos em perspectiva: Lutas do Movimento Comunitário e Saúde”, do seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS, resgatou as raízes populares da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Com relatos históricos, José Noronha, Itamar Silva e Lucia Souto relembraram como a luta por direitos nas favelas cariocas e na Baixada Fluminense forjou as bases do Sistema Único de Saúde.

O pesquisador da Fiocruz José Noronha relembrou os anos 1970, destacando sua atuação na Baixada Fluminense, apoiada pela Igreja Católica progressista. Naquele período, o trabalho clínico se misturava à mobilização política. “As pessoas diziam que o principal problema era a iluminação pública, a vala aberta. Nós éramos introduzidos à determinação social da saúde pelo povo”, recordou.

                                Vanor Correia (Multimeios – Icict/Fiocruz)

Para ele, a 8ª Conferência foi o ápice dessa convergência entre intelectuais, partidos e periferias. Olhando para o futuro, Noronha defende a urgência de um novo projeto nacional. “Temos que ter esperança e acreditar que podemos avançar na construção de um Brasil mais justo”, acredita.


O protagonismo das favelas e o desafio atual

                            Créditos: Vanor Correia (Multimeios – Icict/Fiocruz)

O ativista Itamar Silva, liderança histórica do Santa Marta, na capital fluminense, relembrou a criação de um ambulatório comunitário na favela em 1981. Gerido de forma participativa entre moradores e médicos voluntários, o projeto durou dez anos e alcançou marcos como 100% de vacinação infantil.

Itamar estabeleceu uma comparação entre a intensa mobilização da época com o cenário atual. Embora reconheça avanços institucionais, como as Clínicas da Família, unidades de atenção primária, ele aponta uma espécie de distanciamento comunitário. “Existe a política pública, mas falta um envolvimento mais efetivo dessas iniciativas com os territórios. Sinto falta dessa participação coletiva”, disse. Ele alertou para o esvaziamento das associações de moradores e a necessidade de resgatar o sentido do coletivo para defender o SUS.
Constituinte popular e a vitalidade do controle social

A pesquisadora Lúcia Souto (Cebes) enfatizou que a Reforma Sanitária nasceu do enfrentamento à ditadura militar, lembrando a censura imposta durante a epidemia de meningite, ocorrida entre 1971 e 1974. Ela detalhou ainda a força da mobilização social na Baixada Fluminense, que gerou ações históricas, como o fechamento da Rodovia Dutra em 1986 para denunciar a primeira epidemia de dengue no país, surgida em Nova Iguaçu (RJ), classificada por ela como a primeira ação de “vigilância popular em saúde”.

Lúcia definiu a 8ª Conferência como uma verdadeira “constituinte popular” e rebateu as críticas de que o controle social estaria burocratizado hoje. Ela destacou a força da recente 17ª Conferência Nacional de Saúde e a realização de 99 Conferências Livres pelo país. “Isso é demonstração de vontade de participação popular. Temos uma sociedade com consciência crítica e vontade política”, celebrou.
                                        Vanor Correia (Multimeios – Icict/Fiocruz)

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crítico.

GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

Postar um comentário

0 Comentários