O VAI E VOLTA DESGASTA MAIS DO QUE O FIM


Nem sempre o fim de um relacionamento é o que mais machuca. Muitas vezes, o que realmente corrói por dentro é aquele ciclo interminável de idas e vindas, onde o coração é constantemente remendado e depois despedaçado novamente. O “vai e volta” não só confunde os sentimentos, mas também mina a autoestima, adia o luto e prolonga um sofrimento que poderia ser evitado com uma decisão firme.

No começo, pode parecer amor. Pode até parecer que existe esperança. Afinal, quando duas pessoas decidem tentar de novo, é porque ainda existe algum sentimento, certo? Mas a verdade é que nem sempre o sentimento é o suficiente para sustentar uma relação. Voltar nem sempre significa recomeçar — muitas vezes é apenas repetir os mesmos padrões, reviver os mesmos erros, e alimentar a ilusão de que, desta vez, será diferente.

Cada reconciliação pode parecer um alívio temporário, como um remédio que adormece a dor por algumas horas. Mas, no fundo, a ferida continua aberta, sendo exposta e reaberta a cada nova briga, a cada nova despedida. E o que era para ser cura se transforma em vício. O casal se acostuma com o caos, com a montanha-russa emocional, e confunde intensidade com amor. Mas amor de verdade não machuca, não cansa, e não exige que a pessoa se perca para caber no mundo do outro.

O ciclo do vai e volta tem outro efeito cruel: ele impede o amadurecimento emocional. Ao invés de cada um seguir seu caminho e aprender com o que deu errado, ficam presos em um looping emocional, onde os aprendizados se perdem e os erros se repetem. Não há espaço para crescimento quando se está constantemente voltando ao ponto de partida. Fica impossível construir algo novo sobre os mesmos escombros.

Além disso, essa instabilidade emocional afeta a confiança. A cada nova tentativa, aumenta o medo de que o outro vá embora novamente. Cria-se um ambiente de insegurança, onde qualquer pequena crise vira uma ameaça. Isso desgasta, suga energia, consome tempo e esgota sentimentos. O que era amor vira ansiedade. O que era companhia vira peso. E o que era relação vira dependência.

Outro ponto importante é que, muitas vezes, o vai e volta não acontece porque ainda há amor, mas sim porque existe apego, medo da solidão ou dificuldade em lidar com o término. Nessas horas, o coração pode confundir saudade com amor, e a carência com necessidade do outro. Mas voltar por medo de ficar só é um dos maiores autoabandono que alguém pode cometer.

É preciso coragem para pôr um ponto final. E mais ainda para sustentá-lo. Terminar dói, é verdade. Mas terminar de verdade permite o luto com sugar baby, o recomeço e a reconstrução de si. Já o vai e volta é como uma ferida que nunca cicatriza, que sempre volta a sangrar. E isso, no fim das contas, machuca mais do que a própria separação.

Portanto, se você está vivendo essa montanha-russa emocional, talvez seja hora de se perguntar: quantas vezes mais você vai se permitir voltar a um lugar que só te prende? Até quando você vai aceitar migalhas de um amor que já não se sustenta? O fim pode ser doloroso, mas também pode ser o início de algo novo — e, principalmente, o reencontro com você mesmo.

Encerrar um ciclo não é fracasso. É maturidade. É escolher a paz ao invés da dúvida, a tranquilidade ao invés da intensidade que fere. Porque o amor de verdade não precisa ir embora para depois voltar — ele fica. Ele cresce. Ele constrói. E, acima de tudo, ele te faz bem.

Paula
GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

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