Veja quais fatores podem impedir a validação de identidade digital, quem é mais afetado pelos erros e quais caminhos alternativos garantem a entrada na conta
Usuários relatam dificuldade para concluir o reconhecimento facial da conta gov.br.Michël Pozzi / Agencia RBS
A biometria facial se consolidou como um dos principais mecanismos de validação de identidade no Brasil digital. No aplicativo gov.br, ela é usada para recuperar senha, aumentar o nível da conta, autorizar transações sensíveis e viabilizar o acesso a uma série de serviços públicos.
Nos últimos meses, porém, multiplicaram-se relatos de usuários que não conseguem concluir o reconhecimento facial, mesmo seguindo as orientações técnicas. As queixas se concentram principalmente em duas situações: quando o sistema não conclui o cadastro da biometria
quando a biometria já existente não reconhece o titular da conta
Segundo especialistas, a falha não decorre de um único motivo: envolve limitações técnicas, inconsistências na integração entre bases de dados e desafios estruturais da própria tecnologia de reconhecimento facial.
Biometria pode não estar disponível
O primeiro ponto pouco conhecido pelos usuários é que o gov.br não cria uma base biométrica própria do zero. O sistema consulta três bancos de dados oficiais já existentes:
Carteira de Identidade Nacional (CIN), mantida pelos institutos de identificação estaduais
Identificação Civil Nacional (ICN), administrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Carteira Nacional de Habilitação (CNH), mantida pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran)
Se o cidadão não estiver identificado em pelo menos uma dessas bases, ou se os dados ainda não tiverem sido integrados ao ambiente do gov.br, a opção de reconhecimento facial não será disponibilizada.
No caso da CIN, após a emissão do documento físico, o envio das informações ao sistema federal depende do instituto de identificação estadual. O prazo pode variar entre as unidades da Federação. Já na base do TSE, a biometria precisa passar por processo de individualização, em que os dados são comparados com outros registros para garantir unicidade.
Mesmo com biometria cadastrada, sistema pode falhar
Quando a biometria está disponível, ainda assim o reconhecimento pode não ser concluído. O aplicativo exige que a imagem capturada atinja parâmetros mínimos de semelhança em relação ao registro armazenado na base oficial. Entre os fatores que mais geram erro estão:
Iluminação inadequada ou sombras no rosto
Fundo com objetos ou movimento
Internet instável
Câmera de baixa qualidade
Movimentação excessiva durante a captura
Diferença significativa entre aparência atual e foto registrada
Mudanças ocorridas ao longo do tempo, como envelhecimento, perda ou ganho de peso, barba, cortes de cabelo ou procedimentos estéticos, podem reduzir a taxa de acerto. Por questões de segurança, após muitas tentativas inválidas no mesmo dia, o sistema bloqueia novas tentativas até o dia seguinte.
Barreiras começam antes da tecnologia
Para Julia Abad, especialista Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), as dificuldades não estão restritas ao funcionamento do aplicativo. Segundo ela, há um problema estrutural de acesso e de inclusão digital que antecede o reconhecimento facial.
A especialista destaca que parte da população enfrenta limitações técnicas básicas, relacionadas ao dispositivo e à conectividade.
— O desafio inicial está na própria capacidade de acesso do consumidor, nem todas as pessoas, em especial pessoas idosas, possuem dispositivos compatíveis ou até mesmo familiaridade para a utilização da ferramenta — detalha.
Ela ressalta que falhas operacionais simples podem comprometer o processo.
— Alguns dos erros mais comuns podem ocorrer por instabilidade da internet, iluminação ou até baixa qualidade das câmeras — comenta.
No entanto, o problema vai além de questões técnicas pontuais.
— O problema é que não são só esses erros técnicos, tem-se a ausência de um letramento digital básico para seguir as etapas que são exigidas para comprovação de identidade, o que também é um desafio — aponta.
— Sabe-se que o reconhecimento facial possui falhas estruturais, seja pelo viés algorítmico, erros de funcionalidade e até problemas de integração com as bases de dados para comparação.
Erros mais frequentes entre pessoas negras e trans
Estudos sobre reconhecimento facial apontam que o desempenho dos algoritmos pode variar conforme o perfil do usuário. A literatura acadêmica internacional já documentou disparidades relevantes quando se analisam conjuntamente raça, gênero e tonalidade de pele.
Para a especialista, esses dados ajudam a explicar por que determinados grupos enfrentam maior probabilidade de falha no reconhecimento:
— Um dos principais pontos de tensão quando se trata da tecnologia de reconhecimento facial é sua limitação de funcionamento quando utilizada por pessoas negras e transsexuais.
Julia explica que a raiz do problema está na composição das bases de treinamento dos algoritmos, que nem sempre refletem a diversidade da população:
— Pelo viés algorítmico, há uma tendência ao erro da ferramenta quando utilizada por grupos que não são diversificadamente representados nas bases de treinamento — reforça.
Dessa forma, preconceitos já existentes fora do ambiente digital podem ser reproduzidos pela tecnologia:
— A visão de pessoas não brancas como um grande grupo homogêneo tem o mesmo efeito no modo digital.
Um dos trabalhos citados nesse debate é o estudo Gender Shades, publicado em 2018 por Joy Buolamwini, do MIT Media Lab, e Timnit Gebru, então na Microsoft Research. A pesquisa analisou sistemas de reconhecimento facial de grandes empresas de tecnologia e identificou disparidade expressiva de desempenho.
Os resultados mostraram que, enquanto a precisão para homens brancos se aproximava de 100%, a taxa de erro para mulheres negras chegava a 34,7%. O estudo também evidenciou o problema da interseccionalidade: o erro não se distribuía de maneira uniforme entre "gênero" ou "raça" isoladamente, mas aumentava significativamente quando fatores como pele mais escura e identidade feminina se combinavam.
As pesquisadoras identificaram um problema estrutural nas bases de dados usadas para treinar os algoritmos, compostas majoritariamente por pessoas de pele clara, entre 79% e 86%, o que reduz a capacidade do sistema de reconhecer rostos diversos. Se as bases de dados usadas no treinamento são pouco diversas ou carregam distorções, o sistema aprende esses padrões e passa a reproduzi-los.
Assim, a tecnologia tende a reforçar as desigualdades, acertando mais nos perfis mais representados e falhando com maior frequência nos grupos sub-representados. Em serviços públicos e validação de identidade, isso pode resultar em exclusão digital, constrangimentos e barreiras de acesso a direitos.
O que o governo faz para melhorar o sistema
Recentemente, foi adotada tecnologia de detecção de prova de vida, que busca impedir fraudes com fotos, vídeos ou máscaras.André Ávila / Agencia RBS
Em nota, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) informa que desde 2023 vem implementando medidas para melhorar a experiência do usuário no reconhecimento facial do gov.br.
Entre as ações estão a possibilidade de uso da câmera traseira do celular, que costuma ter maior resolução, a implementação de comando por voz durante o processo e a ampliação do número de tentativas e do tempo de validação para pessoas com deficiência com registro na nova CIN. Também foi adotada tecnologia de detecção de prova de vida, que busca impedir fraudes com fotos, vídeos ou máscaras.
O que fazer quando a biometria não funciona
Outras formas de validação
É possível recorrer a alternativas como validação por internet banking, uso de certificado digital ou cruzamento com outras bases oficiais, quando disponíveis.
Atendimento presencial
O Balcão gov.br disponibiliza atendimento físico em redes credenciadas, embora a cobertura não contemple todos os municípios.
Canais de reclamação e suporte
Em caso de falhas, é possível buscar atendimento pela Central de Ajuda dentro da própria conta, registrar manifestação na Ouvidoria por meio do Fala.BR, entrar em contato telefônico pelo 156 (em localidades onde o serviço está disponível) ou procurar atendimento presencial nas unidades credenciadas do Balcão gov.br.
Como aumentar as chances de reconhecimento
Ambiente bem iluminado
Fundo claro e uniforme
Rosto totalmente visível
Sem chapéu ou óculos escuros
Celular na altura do rosto
Preferir a câmera traseira
Manter a cabeça dentro do círculo
Internet estável
Se houver bloqueio por excesso de tentativas, é necessário aguardar até o dia seguinte.
GZH
GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR
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