PARA SALVAR GALÁPAGOS, CIENTISTAS EXTERMINARAM 150 CABRAS EM UMA OPERAÇÃO EXTREMA QUE DESTRUIU INVASORES, FEZ . . .

. . . florestas renascerem, trouxe tartarugas de volta e criou novos dilemas ecológicos profundos globais

Erradicação de cabras, 150 mil cabras e Projeto Isabela: como cabras Judas e tartarugas gigantes mudaram as Galápagos.

A operação que removeu 150 mil cabras de Pinta, Santiago e norte de Isabela derrubou invasores, fez florestas voltarem e trouxe tartarugas de volta, mas abriu dilemas ecológicos difíceis de ignorar.

Para salvar as Galápagos, foi preciso encarar uma escolha extrema: eliminar 150 mil cabras que, em poucas décadas, transformaram ilhas inteiras em paisagens degradadas. O que começou com apenas três animais deixados como “reserva de emergência” virou uma crise silenciosa que empurrou plantas nativas e tartarugas gigantes para perto do colapso.

A caçada terminou em 2006, mas o efeito real apareceu depois. Vinte anos mais tarde, cientistas voltaram com câmeras e encontraram um cenário que parecia impossível: encostas mais verdes, florestas jovens renascendo e sinais de recuperação biológica, junto com novos problemas que ninguém previa quando decidiu remover 150 mil cabras.

De três cabras ao desastre ecológico nas ilhas

Em 1959, pescadores deixaram três cabras na ilha de Pinta como fonte de alimento de emergência. A ideia parecia prática, quase inofensiva.

Só que a pergunta que parecia retórica virou um alerta: que diferença três cabras poderiam fazer?

Em poucas décadas, a resposta apareceu na vegetação mastigada. As cabras se multiplicaram em dezenas de milhares, abrindo copas antes fechadas, deixando encostas nuas, soltando o solo e acelerando a erosão.

Na década de 1970, havia cerca de 40.000 cabras em apenas 60 km² em Pinta. E Pinta não estava sozinha: em Santiago e no norte de Isabela, a explosão também avançou, com o norte de Isabela chegando a algo como 100.000 animais.

O problema era ainda mais grave porque as Galápagos quase não tinham mamíferos terrestres nativos. Plantas e répteis evoluíram sem grandes herbívoros com casco.

Quando as cabras chegaram em massa, elas encontraram um “buffet” ecológico sem defesa, com mudas desaparecendo antes de crescer, poças rasas virando lama e tartarugas gigantes competindo com rebanhos ágeis e famintos.
Por que 150 mil cabras viraram um ponto sem retorno

A crise deixou de ser “incômodo” e virou risco de extinção. Árvores de sombra desapareceram, microambientes secaram e comunidades de plantas chegaram perto do colapso.

Conservacionistas alertavam para o ponto de retorno: se a estrutura vegetal quebrasse demais, algumas populações não voltariam.

Nesse cenário, a discussão mudou de tom. A questão já não era se as cabras eram um problema, e sim se existia algo ousado o bastante para ser feito a tempo.

A resposta foi um plano que parecia irrealista: não controlar, mas apagar completamente as cabras de três ilhas enormes. Foi assim que a meta de remover 150 mil cabras ganhou forma e escala.
Projeto Isabela: a operação extrema que caçou do céu e do chão

No fim da década de 1990, a direção do Parque Nacional das Galápagos e a Fundação Charles Darwin decidiram tentar a erradicação total em Pinta, Santiago e norte de Isabela. A operação ficou conhecida como Projeto Isabela.

A escala era difícil de visualizar. A área alvo cobria cerca de 500.000 hectares, com terreno íngreme, remoto e cortado por fluxos de lava.

As estimativas sugeriam cerca de 150 mil cabras na área de intervenção. O orçamento ultrapassou 10 milhões de dólares, tornando o esforço um dos maiores já tentados para erradicação de mamíferos invasores em ilhas.

Em Pinta, guardas já caçavam a pé com cães havia décadas, mas era lento demais. Para Santiago e norte de Isabela, a solução veio de cima: helicópteros voavam baixo sobre encostas vulcânicas com atiradores removendo animais do ar.

Em algumas fases, cerca de 90% dos bodes de uma ilha podiam ser removidos em um ano, acelerando o que antes levaria uma eternidade.
Cabras Judas: a estratégia que encontrou os últimos sobreviventes

O problema é que os últimos animais são sempre os mais difíceis. Conforme os números caíam, os sobreviventes ficaram cautelosos com o barulho dos helicópteros e começaram a se esconder em penhascos, tubos de lava e arbustos densos. Se a caçada tradicional se prolongasse por anos, a população poderia se recuperar.

A virada veio com uma solução tão engenhosa quanto controversa: usar o comportamento social contra eles. Capturavam bodes vivos, esterilizavam, colocavam coleiras de rádio e soltavam de volta. Eram as chamadas cabras Judas.

O animal com coleira vagava até encontrar outros e se juntar ao grupo. Caçadores rastreavam o sinal, chegavam ao local e removiam o novo conjunto, mantendo o “Judas” vivo para repetir o processo.

Nos bastidores, economistas e biólogos modelaram o melhor equilíbrio entre horas de helicóptero, caça terrestre e Judas para minimizar custo e tempo.

A etapa final, com poucos animais restantes, foi a mais cara por indivíduo, mas parar antes não era opção: bastava um pequeno grupo reprodutor para o problema voltar.

Em 2006, as armas ficaram silenciosas. Em Pinta, Santiago e norte de Isabela, não havia mais bodes para encontrar. O objetivo de remover 150 mil cabras tinha sido atingido.
Ilhas renascidas: florestas voltam e o verde reaparece

A erradicação nunca foi o objetivo final. O objetivo era um reinício. A pergunta real era: as ilhas permaneceriam “vazias” depois de um século de pastoreio ou ainda guardavam memória ecológica do que haviam sido?

Em Pinta, parcelas de monitoramento contaram parte da história. Antes da remoção dos bodes, árvores de escalésia e cactos estavam perto do colapso; a floresta tinha virado arbustos dispersos, com solo exposto e seco.

Poucos anos após a eliminação, mudas de escalésia começaram a aparecer novamente em bolsões sombreados. Plantas jovens de Opuntia, antes arrancadas como petisco, passaram a crescer acima do nível do solo.

Em Santiago e no norte de Isabela, a mesma dinâmica surgiu em outro ritmo. Áreas descritas como “paisagens lunares” começaram a mudar: arbustos retornaram, depois pequenas árvores, depois trechos de floresta jovem.

Cicatrizes antigas de erosão suavizaram quando raízes seguraram o solo e uma camada escura de serapilheira se formou. Satélites registraram um aumento sutil na cobertura verde. No chão, guardas que antes atravessavam encostas abertas e empoeiradas passaram a caminhar por vegetação na altura dos ombros.

Remover 150 mil cabras não trouxe um passado congelado de volta. Trouxe um novo processo, com peças familiares reconstruindo complexidade sob um clima e um regime de perturbação que já haviam mudado.

Tartarugas gigantes voltam a ter espaço e a moldar o ecossistema

Antes da chegada das cabras, os verdadeiros “engenheiros” dessas ilhas eram as tartarugas gigantes. Elas percorriam vales e planaltos, pastando, pisoteando e carregando sementes por longas distâncias, abrindo clareiras e moldando o padrão da vegetação.

Quando as cabras dominaram, as tartarugas perderam espaço e alimento. Plantas jovens desapareciam antes de crescer, árvores sombreadoras sumiam e, em algumas ilhas, populações entraram em colapso ou desapareceram.

O Projeto Isabela não foi apenas sobre plantas. Ele foi criado para devolver às tartarugas seu habitat. A remoção de 150 mil cabras foi combinada com restauração ativa: ovos foram coletados, incubados, filhotes criados em cativeiro até tamanho seguro e então libertados em paisagens em recuperação.

Com o tempo, pesquisadores observaram juvenis sobrevivendo mais, animais ampliando território e plantas preferidas ficando mais disponíveis.

À medida que números cresciam, as tartarugas voltaram a moldar a vegetação, deixando de ser apenas beneficiárias e virando parceiras ativas da restauração.
O paraíso não ficou simples: novos invasores e novas concessões

Seria fácil encerrar com final feliz, mas a realidade ficou mais complicada. Remover um herbívoro poderoso muda quem come o quê e quem cresce onde.

Uma surpresa foi a amora preta, Rubus niveus, já presente em Santiago antes da erradicação. As cabras a comiam junto com tudo o resto, mantendo-a sob controle sem que ela fosse alvo.

Quando as cabras desapareceram, a amora preta disparou nas áreas altas frias e úmidas. Em poucos anos, formou moitas densas, bloqueou caminhos, sombreou mudas nativas e criou paredes quase impenetráveis.

Em vez de apenas recuperar, partes da ilha passaram a lidar com um novo invasor, exigindo campanhas de controle caras.

Outra reviravolta veio do céu. O falcão das Galápagos, predador de aves do arquipélago, aproveitou carcaças durante as campanhas, ganhando uma fonte rica de alimento.

Depois, com cabras fora e vegetação mudando, estudos de presas em ninhos mostraram ratos pretos ganhando espaço na dieta, enquanto o número de falcões territoriais diminuía.

No papel, adaptação. Na prática, a sobrevivência passou a depender parcialmente de outra espécie invasora que gestores também queriam controlar.

Em Pinta, ainda surgiu uma dúvida adicional: sem cabras e com números de tartarugas ainda baixos, o que acontece em uma paisagem quase sem grandes herbívoros?

Algumas comunidades vegetais podem depender de perturbações ocasionais para manter diversidade. Muito pastejo simplifica. Mas distúrbio demais reduzido por décadas também pode levar a outro estado ecológico.

A vitória sobre 150 mil cabras foi real, só não veio com um “problema resolvido” definitivo.

Ética, custo e o que o mundo aprendeu com 150 mil cabras

Para quem estava em helicópteros e trilhas, o Projeto Isabela foi trabalho medido em horas de voo, coordenadas, rádio e carcaças contadas.

Para observadores externos, levantou outra pergunta: o que significa matar dezenas de milhares de animais em nome de salvar a natureza?

Antropólogos e especialistas em ética chamam isso de “matar para salvar”. Cabras trazidas por humanos como alimento e gado foram redefinidas como invasoras, com vidas consideradas menos valiosas do que as de tartarugas, plantas raras e ecossistemas inteiros.

Ao mesmo tempo, o parque desenvolveu capacidades técnicas raras: coordenação aérea, uso de GPS, radiotelemetria e manejo de Judas em terreno acidentado. As Galápagos viraram referência global para combate a mamíferos invasores em ilhas.

O legado também é prático: a combinação de controle aéreo, equipes terrestres, Judas e modelagem de custos virou material de referência para outros planos de erradicação em ilhas ao redor do mundo.

E a lição ecológica é ainda mais desconfortável: ilhas não são peças de museu esperando restauração perfeita. São sistemas dinâmicos que respondem em camadas, e cada ação expõe outro elo da cadeia.

No fim, a história de 150 mil cabras mostra que grandes intervenções podem reverter danos profundos, mas exigem persistência, monitoramento de longo prazo e coragem para ajustar o plano quando novos problemas aparecem.

Você apoiaria uma mega erradicação como a de 150 mil cabras em outros lugares, mesmo sabendo que ela pode criar novos dilemas ecológicos depois?

Eles poderiam ter encontrado uma solução que não custasse as vidas dos animais

Difícil responder … deixar chegar nesse nível tb foi irresponsabilidade daqueles cujo trabalho é monitorar o espaço/o ecossistema peculiar de Galápagos! Retirar animais, identificar fêmeas (ou machos) e esterilizar, remover alguns para outras localidades onde ha manejo controlado? No ponto em que chegou, provavelmente somente uma medida drástica resolveria! Que fiquem mais atentos para ação preventiva… é sempre menos onerosa e mais justa com os animais!

Escrito porCarla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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