E U A DESPEJA MILHÕES DE TONELADAS DE ÁGUA DO MAR EM TERRAS SECA APÓS 1.000 DIAS: MEGAUSINAS . . .

. . . movidas por energia intensa tentam reverter colapso hídrico com dessalinização e reuso de esgoto tratado no coração agrícola da Califórnia

Escrito porAlisson Ficher


Califórnia amplia dessalinização, reuso e aquedutos para enfrentar secas prolongadas e garantir água a cidades e áreas agrícolas.

Infraestrutura hídrica conecta oceano, reservatórios e reuso para sustentar cidades e agricultura em meio à seca prolongada na Califórnia, com obras de grande escala, alto consumo energético e custos elevados que moldam decisões públicas sobre abastecimento e gestão da água.

A Califórnia ampliou o uso de grandes obras de engenharia hídrica para enfrentar períodos prolongados de seca que afetam centros urbanos e áreas agrícolas.

O estado passou a integrar, de forma mais intensa, a captação de água do mar, o reuso de esgoto tratado e a redistribuição de água armazenada em reservatórios, em um sistema desenhado para reduzir riscos de desabastecimento quando rios e aquíferos operam em níveis críticos.

O tema ganhou centralidade porque a pressão sobre os recursos hídricos não é marginal na economia do estado.

A Califórnia tem um produto interno bruto que a coloca entre as maiores economias do mundo quando comparada a países, de acordo com dados oficiais.

Ao mesmo tempo, o setor agrícola local responde por uma parcela relevante da produção nacional de alimentos, com destaque para frutas, nozes e vegetais, o que amplia a demanda por água em regiões naturalmente secas.

Distribuição irregular das chuvas e dependência da neve

 



A distribuição irregular das chuvas ajuda a explicar o desafio.

Enquanto o norte concentra boa parte da precipitação anual, áreas extensas do sul convivem com um clima mais árido, o que obriga o transporte de água por longas distâncias.

Esse deslocamento depende de uma infraestrutura complexa, construída ao longo de décadas.

Outro fator decisivo é a dependência do degelo na Serra Nevada, que funciona como uma reserva natural durante o inverno.

Estudos climáticos indicam que, em anos mais secos, a quantidade de neve diminui e o derretimento ocorre mais cedo, reduzindo a previsibilidade do abastecimento ao longo do ano.

Pesquisas acadêmicas e relatórios climáticos classificaram o período recente no oeste dos Estados Unidos como o mais seco em cerca de 1.200 anos, com base em reconstruções históricas.

Segundo esses estudos, a combinação de variabilidade natural e aquecimento global contribui para secas mais longas e intensas, pressionando sistemas tradicionais de armazenamento.




Dessalinização entra como fonte complementarInfraestrutura costeira de dessalinização capta água do Oceano Pacífico e integra o sistema hídrico da Califórnia em resposta à crise hídrica. (Imagem: Reuters)

Nesse contexto, a água do mar passou a ser considerada uma fonte adicional.

O Pacífico oferece volume praticamente ilimitado, mas a conversão em água potável envolve custos elevados e desafios técnicos.

A salinidade média da água do mar, em torno de 3,5%, impede o uso direto para consumo humano ou irrigação.

Para superar essa barreira, usinas utilizam principalmente a tecnologia de osmose reversa, que aplica alta pressão para separar sais e impurezas.

Segundo órgãos reguladores e operadores do setor, o processo exige grande quantidade de energia e manutenção constante, o que explica o custo mais elevado em comparação a fontes convencionais.

Um dos exemplos mais conhecidos é a usina de dessalinização de Carlsbad, no sul do estado, apontada por autoridades como a maior do tipo nos Estados Unidos.

A planta produz dezenas de milhões de galões de água potável por dia, volume suficiente para abastecer centenas de milhares de pessoas, mas ainda pequeno diante do consumo total estadual.

Custos e limitações da água dessalinizada

Usina de dessalinização na Califórnia transforma água do mar em água potável para enfrentar a seca prolongada e reforçar a segurança hídrica do estado. (Imagem: Getty Images)

Especialistas em gestão hídrica ressaltam que, mesmo com plantas de grande porte, a dessalinização não substitui sozinha o sistema existente.

O consumo combinado de cidades, indústria e agricultura supera a capacidade de produção das usinas costeiras.

Além disso, técnicos destacam a necessidade de soluções específicas para o descarte da salmoura concentrada gerada no processo.

Outro ponto frequentemente citado é o custo final da água dessalinizada, que costuma ser de duas a quatro vezes maior do que o de fontes tradicionais.

Essa variação depende do preço da energia, da localização da planta e dos custos operacionais.

Por essa razão, o modelo é tratado como complementar, e não como solução única para a crise hídrica.




Como funciona a osmose reversa nas usinasAqueduto da Califórnia transporta água por centenas de quilômetros, conectando reservatórios do norte a regiões secas do sul do estado. (Imagem: California Department of Water Resources)

Antes de chegar às membranas, a água captada passa por etapas de pré-tratamento para remover areia, matéria orgânica e partículas maiores.

Essas fases combinam filtragem mecânica e ajustes químicos, com o objetivo de proteger os equipamentos e aumentar a eficiência do sistema.

No estágio central, bombas elevam a pressão para forçar a água a atravessar membranas semipermeáveis.

O sal e outras impurezas ficam retidos, enquanto a água atravessa o material.

Após a separação, o líquido passa por correções de pH e por um processo de remineralização, necessário para adequar o sabor e garantir estabilidade química.

Segundo operadores do setor, o conjunto dessas etapas explica por que a dessalinização é tecnicamente viável, mas energeticamente intensiva.
Aquedutos e reservatórios sustentam o abastecimento

Muito antes da expansão da dessalinização, a Califórnia já havia investido em um sistema de barragens, reservatórios e aquedutos que redistribuem a água do norte para o sul.

Essas obras permitem armazenar água em períodos mais chuvosos e transportá-la por centenas de quilômetros.

Em alguns trechos, o sistema supera grandes desníveis de terreno com o uso contínuo de estações de bombeamento.

Autoridades estaduais apontam que essa rede foi decisiva para o desenvolvimento agrícola em regiões áridas.

Ao mesmo tempo, o custo de manutenção é elevado, com gastos permanentes em eletricidade, reparos e modernização.

Reuso de água tratada ganha relevância

 


Paralelamente, o reuso de esgoto tratado tornou-se uma frente estratégica na gestão hídrica.

Estações avançadas removem sólidos, reduzem carga orgânica por processos biológicos e utilizam membranas.

Em alguns casos, o tratamento inclui osmose reversa para atingir padrões elevados de qualidade.

De acordo com especialistas em saneamento, essa abordagem reduz a pressão sobre mananciais naturais.

Também contribui para diminuir o volume de efluentes descartados em rios e no oceano.

Ainda assim, o modelo envolve custos operacionais e depende de fiscalização rigorosa para garantir segurança sanitária.

Sistema integrado enfrenta pressão crescente

O cenário atual é marcado pela combinação de múltiplas fontes de abastecimento.

Entram nesse conjunto a água de reservatórios, as transferências por aquedutos, a dessalinização e o reuso.

Técnicos e gestores públicos avaliam que a diversificação aumenta a resiliência do sistema.

Por outro lado, eles apontam que isso não elimina conflitos em períodos de seca prolongada.

Nessas fases, cresce a disputa entre consumo urbano, agricultura e preservação ambiental.

Com secas mais frequentes e irregulares, especialistas em recursos hídricos afirmam que o desafio passa a ser definir prioridades, investimentos e regras de uso.

Essas decisões precisam manter o abastecimento sem elevar custos a níveis incompatíveis com a renda da população e a competitividade do setor agrícola.

Que combinação de fontes e políticas públicas pode garantir segurança hídrica sem ampliar desigualdades no acesso à água?

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículo.


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