DEPENDENTES QUÍMICOS ACEITAM E DESENVOLVIMENTO HUMANO ENCAMINHA 11 PARA COMUNIDADES TERAPÊUTICAS

Agarrando a chance
                                                                                                          Foto: Valquir Kiu Aureliano/SECOM
Acolhidos pela CRAVI recebem tratamento em fases de plano terapêutico.

Cento e onze das 480 pessoas em situação de rua que passaram pelo Centro Intersetorial de Atenção a Pessoas em Situação de Rua da Prefeitura de Curitiba, próximo à Rodoferroviária, aceitaram fazer tratamento para enfrentar a dependência química e foram encaminhadas para acolhimento em dez comunidades terapêuticas na Região Metropolitana. O número representa 23% dos atendimentos realizados no local entre julho e dezembro do ano passado.

As informações são do Departamento de Política Sobre Drogas (DPSD), que faz parte da estrutura da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano (SMDH), que mantém uma equipe de atendimento no Centro Intersetorial e é responsável pela articulação de ações para o segmento. “Todos esses homens e mulheres tiveram forças e lucidez para buscar ajuda. Estão tendo o apoio necessário e podem voltar a comandar suas vidas”, resume o diretor do DPSD, João Eduardo Cruz, que já sentiu na pele os efeitos da dependência química. Cada acolhido se encontra em diferentes estágios do plano terapêutico, que é individualizado e dura de seis a nove meses.

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João Eduardo Cruz, diretor do DPSD










De novo no comando

Depois de 12 anos de dependência e sete meses acolhido na Casa de Recuperação Água da Vida (Cravi), em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana, o cozinheiro José Fernando de Oliveira comemora o fato de estar pela primeira vez limpo por mais de 30 dias.

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José Fernando de Oliveira, cozinheiro







Empregado e há poucos dias de completar 42 anos, que pretende comemorar na unidade de acolhimento temporário onde foi admitido na semana passada, ele começa a escrever uma nova página da sua história por meio da chamada reinserção social.

Seu novo endereço é o espaço que a SMDH mantém no bairro Mercês – um hotel social com capacidade para acolher simultaneamente 100 homens e mulheres de 18 a 59 anos, em ambientes separados. Ele chega a essa fase depois de um “estágio” proporcionado na etapa final dentro da comunidade. Nos últimos tempos de comunidade eu já tinha autorização para acompanhar pessoas no médico e até sair para comer pizza nas imediações.

No último sábado (17/1), cheio de planos, começou a trabalhar na área em que já tem experiência: a cozinha, agora na unidade Bacacheri de uma grande rede brasileira de fast food. “Se possível, pretendo conseguir uma bolsa de estudos em Gastronomia, para me aprimorar, e visitar meu pai, na Paraíba”, planeja José Fernando, que começou a atuar na área há 22 anos e passou por restaurantes tradicionais de Curitiba.

Ao sair da comunidade terapêutica, deixou companheiros a quem serve de inspiração, como o instalador de pisos laminados Evandro da Cunha Barbosa e o consultor educacional Wanderson André Molina.

Momento de se reorganizar

Evandro tem 34 anos e 14 de uso continuado de substâncias químicas. Já conhecia a Cravi, onde chegou pela segunda vez há menos de um mês. “Estou diferente da outra vez. Virei o ano com propósito. Hoje vejo o quanto é vergonhoso acordar em cima de um papelão, sujo e malcheiroso. É duro ver as pessoas caminhando pro trabalho, pra estudar, e você ali, sem perspectiva nem iniciativa”, diz, comparando os tempos na rua com a nova vida na comunidade.

Mais velho e com mais tempo de uso de substâncias químicas, Wanderson tem 46 anos e 33 usando drogas. Chegou à comunidade há pouco mais de quatro meses e se define “um homem novo”. Como Evandro, passou pelo Centro Pop do Centro de Atendimento Integrado, onde chegou magro, com 20 quilos a menos do que tem hoje. “Eu não era mais eu, tinha esperança zero. A ajuda que tentaram me dar nunca tinha funcionado comigo. Mas agora é diferente”, explica.

A cerca de 70 quilômetros dali, no Centro de Recuperação Feminino Restaurar Vidas (Revi), em São José dos Pinhais, a advogada Anne Cristine Rodrigues e a fisioterapeuta Flaviane Lopes também se esforçam para superar a dependência.

O momento delas

Com 49 anos, há oito Flaviane lamenta a noite em que – emocionalmente abalada pela perda de alguém querido - consumiu cocaína pela primeira vez. Ex-aluna de colégio militar na adolescência e praticante de esporte durante boa parte da vida, chegou na comunidade há quase quatro meses.

Foi encaminhada pelo Centro Integrado, depois de ter conhecido o setor feminino da mesma unidade de acolhimento temporário onde acaba de se instalar José Fernando. “Está sendo minha terceira internação, mas a primeira desejando de verdade retomar a minha vida”, pontua, dizendo-se animada com a oportunidade de se reorganizar emocional e profissionalmente. O nascimento do primeiro neto também funciona como estímulo.

Entre outras companheiras de desafio, a fisioterapeuta divide a rotina na comunidade com a servidora pública paulista Anne Rodrigues, de 52 anos, e que está fora da estatística do DPSD.

Formada em Direito, ela vem de São Paulo, onde é concursada em um órgão público. Anne entrou em contato com a bebida cedo e teve um casamento difícil, funcionando como gatilho para o consumo da substância. “Eu bebia de tudo”, relembra a servidora, que está de licença do cargo e passa pela quarta internação.

Diferente dos demais acolhidos, ela chegou à comunidade por decisão da mãe, há cerca de quatro meses e meio, e paga pelo tratamento. A trajetória e a dedicação ao tratamento, porém, a colocam em pé de igualdade com as acolhidas que conseguiram vagas custeadas pelo poder público e são também comprometidas com o sucesso da recuperação. “Nem lembro dos detalhes da minha vinda, de tão mal que eu estava. Mas foi uma decisão acertada a da minha mãe. Está me ajudando muito”, conta Anne, que já começa a preparar seu retorno à antiga rotina.

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