ANTES DE HOMERO, UMA MULHER ASSINOU A PRIMEIRA OBRA LITERÁRIA DA HUMANIDADE; ENTENDA

Alta sacerdotisa da Mesopotâmia, filha de Sargão da Acádia, ela assinou seus próprios textos há mais de 4 mil anos e inaugurou a ideia de autoria literária


Por O GLOBO

 Bagdá
                                           Divulgação/ Museu da Universidade da Pensilvânia
Disco de Enheduanna, encontrado em uma câmara do templo de Larsa em Nin-Gal (Gig-par-ku) 

De acordo com a reportagem especial do The Conversation, Enheduanna viveu por volta de 2300 a.C., na cidade de Ur, no atual sul do Iraque. Alta sacerdotisa do deus lunar Nanna, ela ocupava uma posição central no poder religioso e político do período. Filha de Sargão da Acádia, fundador do primeiro império mesopotâmico, tornou-se também a primeira pessoa conhecida — homem ou mulher — a assinar uma obra literária, estabelecendo um marco na história da escrita.

O nome pelo qual ficou conhecida não era pessoal, mas um título religioso que pode ser traduzido como “alta sacerdotisa, ornamento do céu”. Ainda assim, seu impacto é inequívoco. Ao escrever e reivindicar a autoria de seus textos, Enheduanna inaugurou uma noção fundamental para a literatura: a consciência de quem escreve e por quê.

                                          Foto: Masha Stoyanova/Museu da Universidade da Pensilvânia
Tablet, cópia do hino Inanna B/Ninmesharra/Exaltação de Inanna, escrito por Enheduana 

Escrita, poder e espiritualidade

A escrita cuneiforme já existia havia séculos e era usada sobretudo para fins administrativos, como registros de impostos e comércio. No tempo de Enheduanna, porém, passa a ganhar densidade simbólica e estética, associada à deusa Nisaba, protetora dos escribas e do conhecimento. É nesse contexto que sua obra se destaca, unindo devoção religiosa, linguagem poética e estratégia política.

Entre os textos preservados estão a Exaltação de Inanna, um hino intenso e pessoal à deusa do amor e da guerra, escrito durante um período de exílio, e os Hinos do Templo, uma coleção de 42 composições que mapeiam espiritualmente as cidades sumérias. Há ainda fragmentos dedicados a Nanna. Longe de simples orações, esses textos articulam simbolismo, emoção e legitimação do poder imperial acádio sobre territórios conquistados.

Apesar de sua importância, Enheduanna permanece ausente da maioria dos livros didáticos e cursos de literatura. Segundo o The Conversation, para pesquisadores, esse apagamento está ligado a uma longa tradição de invisibilização das mulheres na história cultural. A historiadora da arte Ana Valtierra Lacalle observa que, embora evidências arqueológicas comprovem a presença feminina entre escribas e administradoras, essa participação foi sistematicamente minimizada.

A trajetória de Enheduanna mostra que as mulheres estiveram na base da civilização escrita, atuando como líderes religiosas, intelectuais e criadoras. Ao assinar seus textos, ela não apenas fez história: redefiniu o próprio conceito de autoria. Sua voz, gravada em argila há mais de quatro milênios, segue ecoando como um dos primeiros testemunhos conscientes do ato de escrever.

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