BRASILEIRA RECEBE PRÊMIO DA NATIONAL GEOGRAPHIC POR SOLUÇÃO QUE REDUZ ATROPELAMENTO DE FAUNA

A bióloga Fernanda Abra foi premiada após transformar pontes para fauna em referência de conservação nas rodovias da Amazônia
Karina Pinheiro


Implantação de travessia no município do norte mato-grossense. Foto: Smith Sonian/Divulgação

A bióloga da conservação Fernanda Abra foi anunciada na última segunda-feira (9) como uma das vencedoras do Wayfinder Award, uma das principais premiações concedidas pela National Geographic Society a pesquisadores e lideranças que desenvolvem soluções inovadoras para desafios ambientais globais. A brasileira foi reconhecida pelo trabalho voltado à redução dos impactos de rodovias sobre a fauna silvestre, especialmente na Amazônia.

Além do reconhecimento internacional, o prêmio concede o título de Exploradora da National Geographic, um aporte de US$ 50 mil e acesso à rede global de pesquisadores e financiadores da instituição.

Cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA, Fernanda atua há anos em uma área pouco discutida da conservação: os efeitos da infraestrutura de transportes sobre a biodiversidade. Seu principal trabalho consiste na implantação de pontes de dossel estruturas suspensas que conectam copas de árvores separadas por estradas e permitem que animais arborícolas atravessem rodovias sem precisar descer ao solo.

O reconhecimento tem como base os resultados do Projeto Reconecta, iniciativa que desde 2021 vem instalando essas estruturas em áreas estratégicas da Amazônia. Segundo o projeto, mais de 20 mil travessias seguras de animais já foram registradas, demonstrando o potencial da medida para reduzir atropelamentos e restaurar a conectividade entre fragmentos florestais.

Um dos marcos da iniciativa ocorreu na BR-174, rodovia que atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre Amazonas e Roraima. Na região, foram instaladas 32 pontes de dossel em parceria com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a comunidade indígena Waimiri-Atroari, que participou da escolha dos locais de instalação e do monitoramento da fauna.

Os resultados obtidos em campo também passaram a influenciar políticas públicas. Em 2026, o modelo de ponte desenvolvido pelo projeto foi incorporado às recomendações oficiais do DNIT para implantação em rodovias federais, após estudos que aperfeiçoaram as estruturas para atender diferentes espécies de mamíferos arborícolas.

Em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, sete pontes monitoradas registraram quase 15 mil travessias em apenas 15 meses. Entre os animais observados está o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), primata descrito pela ciência em 2019 e atualmente classificado como criticamente ameaçado de extinção. A espécie depende das copas das árvores para se deslocar e tem sido afetada pela fragmentação da floresta causada pela expansão urbana e pela abertura de vias.

Para especialistas em conservação, o caso demonstra como medidas relativamente simples podem reduzir um dos impactos mais recorrentes da expansão da infraestrutura sobre a biodiversidade. Em um país onde milhares de animais morrem anualmente atropelados em rodovias, iniciativas voltadas à conectividade ecológica têm ganhado espaço no debate sobre licenciamento ambiental e planejamento de transportes.

O prêmio da National Geographic chega em um momento de expansão do Projeto Reconecta. A organização prevê a instalação de novas pontes em Alta Floresta e no município de Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso, além da ampliação da atuação para outras regiões do país.


Karina Pinheiro

Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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