COMO O CARIRI E A TAIOBA PODEM PRODUZIR A AMAZÔNIA PARA O MUNDO

Forbes Agro
 Christine Ro
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Área de lavoura no sistema regenerativa e sintrópico na Amazônia

Imagine uma fazenda que não se parece com uma fazenda. Em vez de fileiras uniformes da mesma cultura, o lugar é uma profusão de cores, texturas e alturas. Na verdade, parece mais um pequeno pedaço de floresta tropical do que uma fazenda convencional.

A Horta da Terra, startup produtora de plantas alimentícias não convencionais (chamadas de PANCs), ocupa uma área é de cerca de 19 hectares em Santo Antônio de Tauá, a 62 quilômetros de Belém, a capital do Pará (onde vai acontecer a COP30, em 2025), e que vem chamando a atenção do mundo. A área abriga uma variedade de plantas da floresta amazônica, desde o frondoso cariru até a impressionante vinagreira vermelha (hibisco amazônico). Depois de cultivadas e colhidas, as plantas são enviadas a Belém, para serem processadas, transformadas em pós liofilizados e daí enviadas para várias partes do mundo.
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Para fazer isso, a empresa deixa a maior parte da terra intacta. A fazenda é muito diferente agora do que era anteriormente, quando 90% de sua área era usada para agricultura convencional, segundo Bruno Kato, natural de Belém e CEO da Horta da Terra. Agora, 80% da área está em restauração (como manda o Novo Código Florestal Brasileiro, de 2012). Os restantes 20% são atribuídos à agricultura regenerativa (que procura melhorar a saúde do solo, por exemplo, minimizando a sua perturbação) e à agricultura sintrópica (que imita os processos ecossistêmicos, por exemplo, prestando atenção à sucessão das plantas).

“Hoje, a área é completamente diferente, porque vemos uma vida muito diversificada acontecendo na região”, diz Kato. Desde que começou a investir na agricultura regenerativa e sintrópica, Kato diz que há mais insetos, pássaros e diversidade de vida em geral. Ele conta que até onça já foi vista no local, uma demonstração notável dos benefícios para a biodiversidade. “Ver uma onça na área representa que o ecossistema é muito forte.”

A Horta da Terra foi uma das primeiras startups a receber apoio financeiro do Amazon Biodiversity Fund (Fundo para a Biodiversidade da Amazônia), um fundo de investimento idealizado pela filial brasileira da agência de ajuda do governo dos EUA (USAID/Brasil), em 2021, pelo grupo de pesquisa Alliance of Bioversity International e o Centro Internacional de Agricultura Tropical (Aliança/CIAT).

O monitoramento da biodiversidade, por meio de um sistema denominado TerraBio, foi uma parte importante deste apoio, segundo os financiadores. “O monitoramento da biodiversidade, cientificamente sólido, pode ser muito caro para o produtor rural e não é generalizado”, diz Fábio Deboni, diretor de programas da Aliança/CIAT. Os métodos da TerraBio incluem sensoriamento remoto e análise de DNA ambiental, que são vestígios de DNA deixados no solo e em outros ambientes.

O relatório de 2022 da TerraBio, para a Horta da Terra, constatou que a área de restauração da fazenda tinha o dobro de espécies de uma fazenda vizinha. Entretanto, “o sistema de intervenção sintrópica tem um número intermédio de espécies”.

O relatório também estimou que mais de 1.000 toneladas de equivalente CO2 foram convertidas em biomassa vegetal, entre 2017 e 2021. Isto ajuda a quantificar os tipos de benefícios climáticos e de biodiversidade que a equipe da Horta da Terra tem visto de forma empírica.

De acordo com Kato, de fato “há mais vida no solo”. Uma vantagem é que o solo repleto de micróbios e outras formas de vida é mais resistente aos riscos climáticos. Por exemplo, com as chuvas se tornando menos frequente e previsíveis. “Quando temos um ecossistema equilibrado no solo, podemos reter mais nutrientes”, apesar da seca ou das inundações, diz ele.

Plantas como a taioba são transformadas em pó liofilizado para ir ao mercado

As plantas produzidas pela Horta da Terra são geralmente pouco conhecidas fora da Amazônia, mas apresentam benefícios muito versáteis para a saúde, e com muito sabor, segundo a empresa. “Sabemos que os nossos avós usavam estas plantas para curar doenças”, afirma Kato. “Minha avó usava muitos chás para tratar diversas enfermidades.”

A empresa tem reunido pesquisas científicas para comprovar os efeitos desses remédios populares na saúde, bem como pesquisas agronômicas sobre a facilidade de cultivo das plantas. Por exemplo, a ora-pro-nóbis é uma fonte de proteína barata, apelidada de “proteína dos pobres”. As folhas e tubérculos da taioba são ricos em fibras e uma variedade de vitaminas. No entanto, o marketing e a rotulagem da empresa mencionam apoio ao tratamento, em vez de curas. A evidência clínica é difícil e cara de obter, diz Kato.

A empresa optou por transformar as plantas em pós liofilizados pela facilidade de envio e processamento, bem como pela durabilidade dos produtos. Em termos de durabilidade, o prazo de validade oficial dos produtos é de 18 meses, mas Kato afirma que a empresa trabalha para aumentar esse prazo para dois anos. Os clientes são variados, desde empresas de chocolate e outros alimentos até empresas de cosméticos e suplementos.

É importante que as jovens empresas amazônicas não acabem por se tornar parte do problema, por exemplo, uma produção que leve à desflorestação e às práticas insustentáveis. Uma forma de manter os projetos sustentáveis é que as boas práticas são uma exigência dos financiadores. Segundo Deboni, “a ABF está investindo em negócios cuja trajetória de crescimento esteja alinhada à conservação ou restauração da biodiversidade. Nenhum investimento é feito em negócios ou projetos onde a extração insustentável está no plano de crescimento.”

Do lado social, um dos produtos florestais mais conhecidos da Amazônia, o açaí, que é frequentemente colhido por crianças. Este pode ser um trabalho perigoso, mas as famílias pobres da região têm poucas alternativas a não ser enviar os seus filhos para os açaizais para ajudar a manter o agregado familiar em funcionamento.Siga a ForbesAgro no Instagram

O Fundo para a Biodiversidade da Amazônia procura proteger contra a exploração laboral através de certos requisitos, por exemplo, que os beneficiários paguem um salário mínimo. “A ABF possui uma política ESG rígida que é implementada pelo gestor do fundo. Como parte desta política, quaisquer empresas ou projetos que utilizem trabalho infantil ou trabalho explorador são categoricamente excluídos do fundo”, afirma Deboni. “Isso é verificado na due diligence e acompanhado durante toda a vida do investimento da ABF. Os gestores de fundos visitam periodicamente o negócio para validar.”

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Associação dos Produtores Rurais do Campo Limpo, que colaboram com a Horta da Terra

Além da fazenda, a Horta da Terra compra plantas de uma associação de produtores rurais de Campo Limpo, localidade próxima de Santo Antônio de Tauá. E a empresa está de olho em outras maneiras de crescer. Ela projetou uma unidade de 12 metros cheia de equipamentos de processamento, que Kato descreve como uma “fábrica em um contêiner”. Ele explica: “Podemos pegar esse contêiner e colocá-lo em uma comunidade na floresta”. O objetivo é capacitar os moradores para fazerem um processamento local, para que mais pessoas possam aproveitar os benefícios da biodiversidade amazônica.

Tudo isso depende se a empresa conseguirá continuar a criar demanda. O desafio é superar a hesitação em relação a novos produtos e educar os potenciais clientes sobre os benefícios sociais, além do alimentar, de produtos como o da Horta da Terra. Kato continua esperançoso. Uma pergunta que ele costuma ouvir é qual planta amazônica será a próxima a decolar internacionalmente.

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Jambú produzido na Horta da Terra e esperado como nova panc da moda

“Espero que o jambú seja o próximo açaí”, diz ele, referindo-se a uma erva que deixa uma sensação distinta de formigamento na boca. “As aplicações são muito vastas”, acredita Kato, desde potenciais aplicações odontológicas até uso em alimentos. O próprio Kato toma chá de jambú pela manhã. A infusão tem sabor delicado e toque refrescante, afirma.

Também consome taioba, que, segundo ele, lhe dá energia na hora de correr. Ao contrário da cafeína, não sofre nenhuma queda após o aumento de energia. “Eu me uso como exemplo”, diz Kato. “Pareço muito jovem, mas tenho 41 anos. Então está funcionando para mim.” A Horta da Terra e outros que investiram na sustentabilidade financeira e ambiental da Amazônia brasileira esperam que a taioba, o jambú e outras plantas amazônicas possam se tornar conhecidas internacionalmente nos próximos anos.

* Christine Ro é colaboradora da Forbes EUA, BBC, Atlantic, New York Times entre outras. (Tradução: ForbesAgro)


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