Sandee LaMotte
Comer muitos alimentos ultraprocessados aumenta significativamente o risco de câncer colorretal nos homens e pode levar a doenças cardíacas e morte precoce em homens e mulheres, de acordo com dois novos estudos feitos em larga escala com pessoas nos Estados Unidos e na Itália, publicados na quarta-feira (31) no periódico médico britânico “The BMJ”.
Os alimentos ultraprocessados incluem sopas pré-embaladas, molhos, pizza congelada, refeições prontas e comidas prazerosas em geral, como cachorros-quentes, salsichas, batatas fritas, refrigerantes, biscoitos comprados em lojas, bolos, doces, rosquinhas, sorvetes e muito mais.
“Esses dois estudos mantêm a consistência: os alimentos ultraprocessados estão inequivocamente associados a um risco aumentado de doenças crônicas”, disse Nestle, que não participou de nenhum dos estudos.
Uma conexão para o câncer
O estudo examinou as dietas de mais de 200 mil homens e mulheres por até 28 anos e encontrou uma ligação entre alimentos ultraprocessados e câncer colorretal –o terceiro tipo mais diagnosticado nos EUA– em homens, mas não em mulheres.
“Descobrimos que os homens no quintil mais alto de consumo de alimentos ultraprocessados, comparados aos do quintil mais baixo, tinham um risco 29% maior de desenvolver câncer colorretal”, disse a coautora sênior Fang Fang Zhang, epidemiologista de câncer e presidente da divisão de epidemiologia nutricional e ciência de dados na Friedman School of Nutrition Science and Policy, da Tufts University, em Boston.
Situação das mulheres
Por que o novo estudo não encontrou o mesmo risco de câncer colorretal em mulheres?
“As razões para tal diferença entre os sexos ainda são desconhecidas, mas podem envolver os diferentes papéis que a obesidade, os hormônios sexuais e os hormônios metabólicos desempenham em homens versus mulheres”, disse Zhang.
Ultraprocessados estão associados ao câncer colorretal / UnplashA pesquisa descobriu que ter um “maior consumo de laticínios ultraprocessados, como iogurte, foi associado a um menor risco de câncer colorretal em mulheres”, disse Zhang. “Alguns ultraprocessados são mais saudáveis, como alimentos integrais que contêm pouco ou nenhum açúcar adicionado, iogurte e laticínios”.
As mulheres tiveram um risco maior de câncer colorretal se consumissem mais pratos prontos para comer ou aquecer, como pizza, disse ela. No entanto, os homens eram mais propensos a ter um risco maior de câncer de intestino se comessem muita carne, aves ou produtos prontos para comer à base de frutos do mar e bebidas açucaradas, disse Zhang.
Uma conexão para a morte precoce
O segundo estudo acompanhou mais de 22 mil pessoas por uma dúzia de anos na região de Molise, na Itália. O estudo, que começou em março de 2005, foi projetado para avaliar fatores de risco para o câncer, bem como doenças cardíacas e cerebrais.
No entanto, quando os pesquisadores compararam os dois tipos de alimentos para ver qual contribuiu mais, eles descobriram que os alimentos ultraprocessados eram “primordiais para definir o risco de mortalidade”, disse a primeira autora Marialaura Bonaccio, epidemiologista do departamento de epidemiologia e prevenção, no IRCCS Neurologico Mediterraneo Neuromed de Pozzilli, na Itália.
De fato, mais de 80% dos alimentos classificados pelas diretrizes seguidas no estudo como nutricionalmente insalubres também eram ultraprocessados, disse Bonaccio em nota.
“Isso sugere que o aumento do risco de mortalidade não se deve diretamente [ou exclusivamente] à má qualidade nutricional de alguns produtos, mas ao fato de que esses alimentos são em sua maioria ultraprocessados”, acrescentou Bonaccio.
Xarope é o principal ingrediente usado na fabricação de refrigerantes / Foto: Lernestorod/ PixabayNão é comida de verdade
Esses alimentos excessivamente processados geralmente são ricos em açúcar e sal adicionados, pobres em fibras alimentares e cheios de aditivos químicos, como corantes, sabores ou estabilizantes artificiais.
“Embora alguns alimentos ultraprocessados possam ser considerados mais saudáveis do que outros, em geral, recomendamos ficar completamente longe de alimentos ultraprocessados e focar em alimentos não processados saudáveis, como frutas, vegetais, legumes”, disse Mendelsohn.
“Em média, os participantes ganharam 0,9 kg, enquanto estavam na dieta ultraprocessada e perderam uma quantidade equivalente na dieta não processada”, observou o instituto.
“Existe claramente algo sobre alimentos ultraprocessados que faz as pessoas comerem mais deles sem necessariamente querer ou perceber”, disse Nestle.
“Os efeitos dos alimentos ultraprocessados são bastante claros. As razões para os efeitos ainda não são conhecidas”, continuou Nestle. “Seria bom saber o porquê, mas até descobrirmos, é melhor aconselhar comer alimentos ultraprocessados em pequenas quantidades”.

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