O ORNAMENTO DO ÓCIO E O ORNAMENTO DA VIDA NA GENIALIDADE DE MÁRIO QUINTANA

Ensaísta e ex-governador Tarso Genro traça perfil do processo de criação do poeta gaúcho de Alegrete em seu ano 120


"Para Mario Quintana, a coisificação do cotidiano é um empecilho para viver as angústias e as felicidades que o cotidiano pode nos oferecer. Essa é a sua poesia" - Tarso GenroFoto : CP Memória

Nos anos 80, em alguma entrevista publicada no Brasil, Ezra Pound disse literalmente o seguinte sobre a relação forma-conteúdo, especialmente na poesia: “A técnica é o teste da sinceridade. Se a coisa não é digna de técnica para ser dita é de valor inferior”. Para um autor chegar ao nível de simplicidade genial da poesia de Quintana, é necessário que ele tenha talento, para escrever o que quer transmitir, e também um domínio técnico da forma, através da palavra certa - no contexto pré-concebido – pra transformar fazer dos seus sentimentos as pontes para o universal. Para Quintana, a coisificação do cotidiano é um empecilho para viver as angústias e as felicidades que o cotidiano pode nos oferecer. Essa é a sua poesia.

Os primeiros homens de letras, na configuração do que mais tarde será a literatura latino-americana, eram os aristocratas: de alma, de fato, ou de ambas as condições. E eram principalmente poetas, que concebiam a arte “menos como necessidade vital do que como um ornamento do ócio” (1). A paixão, todavia, que o homem concreto evidencia entre os momentos de vida repetitivos de um lado, e o sentido mais universal do que é o humano, de outro (“nada que é humano me é estranho”) como fomentava um apaixonado da obra de Shakespeare, era considerada pela aristocracia um ornamento do ócio. A devoção intelectual ao que seria substancial nos humanos ainda não tinha sido focada pelas Luzes da Ilustração: a arte como ornamento de todas as vidas, universalmente consideradas, ainda não prosperara.

As mutações sociais e as revoluções culturais e políticas que transformaram a Europa e grande parte do ocidente, nos séculos XV e XIX, já bem antes com o romance de cavalaria e depois com romantismo e o “realismo”- bem como com a poesia crítico-revolucionária nas suas diversas etapas - ajudaram a fundar uma nova civilização. E esta fez todo o tempo da história como um só movimento, que fundiu na solidez do aço das revoluções industriais, um cotidiano mais visível para depois termos uma história mais rápida.

O processo de criação do que é artístico, em qualquer campo – independentemente do seu sucesso no meio ao qual a obra se dirige – é uma parte importante da formação autoconsciente da humanidade. Ele faz o saber abstrato da totalidade humana relacionar-se na vida, como arte e trabalho, em níveis distintos, mas ambos dentro desta reprodução humana de autoconhecimento.

Esta reprodução está presente em interações permanentes, primeiro como ponto de partida configurado para todos os homens na sua vida diária, com aquilo que é a imediatidade da vida quotidiana; segundo como configuração inicial das mediações de um processo de autoconhecimento em abstrato. Esse já é um “meio de domínio intelectual” da vida por fora da espontaneidade e já é produção consciente, que pode unir pelo intelecto e na emoção - num poema - a expansão e a redução das visões de mundo particulares pela linguagem.

Especificamente o domínio de si que faz a submissão das emoções e gera, assim, a sadia desconfiança com as coisas e a inconformidade com a rotina da vida comum, abrindo a possibilidade de promovê-la como arte a um patamar muito superior a uma mera narrativa sobre o real. Aí podem surgir os gênios, como Lorca, Shakespeare, Eliot, Cruz e Souza e Mário Quintana. A fala do gênio, em matéria poética, não veio do pensamento racional estilizado pelo pensamento científico ou organizado pela ciência, mas da busca do objeto de entender e superar a coisificação do mundo pela estrita e particular subjetividade do artista.

A submissão à pura emoção, raramente ajuda na composição de uma grande obra de poesia, da qual Cruz e Souza é uma grande exceção. Sendo tributário de uma linguagem cientificista despida de rigor literário, ele fez a reinvenção do objeto poético diluindo as fronteiras formais entre a ciência natural e o padrão artístico, ultrapassando-os com a beleza de uma razão impura.

Aquela literatura, da qual nasce como um grande poema, está próxima do infinito, como fruto de um domínio das emoções pelo intelecto, nas quais uma objetividade é revista pelo sentimento de mundo e pela razão subjetivista do poeta. Esta é que harmoniza - como nova objetividade social recriada no espírito – o que vai muito além da mera “retratação” do objeto pensado, já recriado pelo controle estético do gênio (2).

A cotidianidade não é uma sequência infinda de ações gratuitas, embora estas possam ser repetidas na vida de todos, pelos princípios da automaticidade e da necessidade. As ações gratuitas se põem para os humanos, ora como convites do mercado, ora como coisificações, tanto de determinações da necessidade como da automaticidade, que integram o cotidiano, mas não são o cotidiano integralmente.

O cotidiano da maioria do mundo é o presente reiterado nas relações de familiaridade, na busca isolada de saber viver no meio às guerras, no olhar as paisagens da cidade, nas desavenças e amizades, nas más e boas relações de vizinhança; nas escolas, nas vizinhanças com a naturalidade, nas horas de lazer e descanso; nos amores fortuitos ou sérios e hoje, também, nas muitas experiências vividas nas redes.

Lembram os mestres da grande literatura do século passado que, “em alguns autores(...) como a Albert Camus e André Gide, mas no primeiro notadamente - no livro “O Estrangeiro” - essa noção é levada ao paroxismo, quando o personagem Mersault justifica ter atirado em um árabe em função do calor. Trata-se, portanto, em Camus, de uma visão da exasperação da contingência, que pode ser questionada como uma patologia alienada da vida cotidiana (3)

Vejamos como Borges (4) aliena-se na objetividade porosa do cotidiano, sobre a qual, pelo momento da poesia, ele procura incidir, domando pela verborrágica subjetividade com certo ornamento poético: “(...)Ele se deleita nos prazeres tranquilos do estudo e da contemplação, elogia as coisas simples: pão e sal, as estações do ano, a arte da amizade, o sabor do café, o sono, o hábito, a diversidade e o esquecimento (...).”

Como surge o poema de Quintana, a obviedade simpática do cotidiano e os contornos estéticos da arte, para explodirem em imagens geniais do universo, ao final, como uma “casca dourada e inútil das horas”? Vem do toque mágico do poema na voz forte da lamentação do humano, que oferece vida e afeto às coisas presumidamente mortas do cotidiano.

E assim diz o poeta que soube transformar a vida numa odisseia de sobrevivência do humano, para suportar a violência das coisas sem alma: “a vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo. Quando se vê, já é 6ª feira. Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado…E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio seguia sempre em frente…E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”. (5) Ou ainda no verso: “o tigre da manhã espreita pelas venezianas. O Vento fareja tudo. No cais os guindastes, domesticados dinossauros, erguem a carga do dia.” (6)

Correio do Povo

NOTAS

1 HARSS, Luis.Los Nuestros; Colaboración com Baraba Dohamann. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1975, p.9.: “Nuestros primeros hombres de letras, generalmente aristócratas de alma si no de hecho, fueron poetas. Pertenecian a esa estratosfera cultivada de nuestra sociedad que concebia el arte menos como necesidad vital que como un ornamento del ócio”.

2 LUKÁCS, György. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível. Tradução de Lya Luft e Rodnei Nascimento: supervisão editorial de Ester Vaisman - São Paulo: Boitempo, 2010, p. 37.

3 LUKÁCS, György. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível. Tradução de Lya Luft e Rodnei Nascimento: supervisão editorial de Ester Vaisman. - São Paulo: Boitempo, 2010, p. 38.

4 HARSS, Luis. Los Nuestros; Colaboración com Baraba Dohamann. Buenos Aires: Ed. Sudamericana, 1975, p. 129, tradução nossa.

5 AIDAR, Laura (Revisão por). 15 poemas preciosos de Mario Quintana analisados e comentados Cultura Genial. Disponível em culturagenial.com/poemas-mario-quintana/. 

GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

Postar um comentário

0 Comentários