A MAIOR FORTALEZA PORTUGUESA FORA DA EUROPA FOI CONSTRUÍDA EM PLENA AMAZÔNIA E PARECE SAÍDA DE OUTRO CONTINENTE

                                                                                                                         
 IMAGEM ILUSTRATIVA
A maior fortaleza portuguesa fora da Europa foi construída em plena Amazônia e parece saída de outro continente 

Ana Carolina

Em pleno coração da Amazônia rondoniense, no município de Costa Marques, ergue-se o Real Forte Príncipe da Beira. Construído entre 1776 e 1783, este monumento é a maior edificação militar portuguesa já erguida fora da Europa. Projetado para consolidar a soberania de Portugal na bacia do Rio Guaporé, o forte sobreviveu ao isolamento da floresta e ao esquecimento, sendo hoje o patrimônio histórico mais significativo do estado de Rondônia.

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A magnitude da obra é impressionante. Projetado no estilo Vauban, o forte possui muralhas de 7 metros de altura e uma planta em formato quadrado com 970 metros de perímetro. O que antes funcionava como uma “cidade de pedra” — contendo capela, prisão e alojamentos — foi redescoberto pelo Marechal Rondon em 1914, após ter sido engolido pela mata densa por décadas. Hoje, é tombado pelo IPHAN e está em processo de candidatura a Patrimônio Mundial da UNESCO.

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A vida ao redor do forte é um elo direto com a história. A Comunidade Quilombola do Forte, cujos moradores são descendentes diretos daqueles que foram forçados a construir esta imponente estrutura no século XVIII, atua hoje como guardiã do monumento. Ao lado do Pelotão Especial de Fronteira do Exército Brasileiro, os quilombolas desempenham o papel vital de guias turísticos, preservando a memória de quem, mesmo sob condições extremas, ergueu uma das maiores fortalezas das Américas.

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Visitar o Real Forte Príncipe da Beira é uma viagem de volta ao século XVIII. A experiência é enriquecida pela natureza selvagem do Rio Guaporé, que na época da seca revela inscrições rupestres milenares em suas margens, adicionando camadas pré-coloniais ao passeio. É um destino indispensável para quem deseja entender as fronteiras do Brasil colonial e a resiliência humana que sobreviveu à floresta e ao tempo em um dos monumentos mais fascinantes da região Norte.

Uma muralha de sete metros de altura em meio à floresta amazônica é o tipo de imagem que soa fora de lugar. No município de Costa Marques, oeste de Rondônia, o Real Forte Príncipe da Beira ocupa desde 1783 a margem direita do rio Guaporé, na fronteira com a Bolívia, e é considerado a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa. A obra atravessou séculos, foi engolida pela mata, redescoberta em 1914 por uma expedição militar e permanece de pé como o monumento histórico mais antigo do estado.

Por que Portugal decidiu erguer um forte no meio da Amazônia?

A resposta está em um acordo diplomático. O Tratado de Madrid, assinado em 1750 entre Portugal e Espanha, redefiniu os limites das colônias sul-americanas e substituiu o princípio das Tordesilhas pelo uti possidetis, que reconhecia como legítimo o território efetivamente ocupado. Para consolidar a posse da bacia do Guaporé, a Coroa portuguesa lançou um projeto de colonização da Amazônia sob orientação do Marquês de Pombal.

Depois que o antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição foi destruído por uma enchente do Guaporé em 1771, o governador da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, escolheu um novo local a cerca de 1.500 metros do anterior. A pedra fundamental foi lançada em 20 de junho de 1776, e a obra foi inaugurada em 20 de agosto de 1783.
                                                                                                              Wikipedia
Costa Marques, Rondonia

Como é a arquitetura militar do forte de Costa Marques?

O projeto seguiu o estilo Vauban, criado pelo arquiteto militar francês Sébastien Le Prestre de Vauban no século XVII e considerado o padrão europeu de fortificações da época. A planta é um quadrado de 970 metros de perímetro, com muralhas de aproximadamente 7 metros de altura e quatro baluartes nos cantos, cada um armado para receber 14 canhoneiras.

Os baluartes foram batizados com nomes de santos católicos: Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, Santo Antônio de Pádua e São José Avelino. Um fosso profundo alimentado pelas águas do Guaporé cercava toda a estrutura, e o único acesso ao interior era uma ponte elevadiça de três metros na muralha norte. Do lado de dentro, o forte funcionava como uma pequena cidade de pedra, com residências para oficiais, capela, armazéns, depósitos, alojamento de soldados, prisão e poço.
                                                              Wikipedia
Costa Marques, Rondonia 

Quanto custou construir uma fortaleza em plena floresta no século XVIII?

O Governo do Estado de Rondônia estima que a construção custou aproximadamente 48 mil contos de réis, cifra considerada extraordinária para o período. A pedra canga usada nas muralhas foi extraída da própria região e lavrada em blocos de meio metro, enquanto o calcário veio de Vila Bela, antiga capital do Mato Grosso, e do Grão-Pará.

A obra empregou mão de obra formada por portugueses, indígenas e pessoas escravizadas. Segundo pesquisas históricas citadas no portal do Estado, centenas de trabalhadores morreram durante a construção, principalmente vítimas de malária. O próprio engenheiro italiano Domingos Sambuceti, diretor inicial da obra, foi uma das vítimas da doença e morreu em 1780, sendo substituído pelo capitão Ricardo Franco de Almeida Serra. Estima-se que o forte chegou a abrigar cerca de 800 pessoas em seu interior.

Este vídeo do canal Viagem por Terra, com 36,9 mil visualizações, apresenta uma visita à cidade de Costa Marques (RO), que faz fronteira com a Bolívia, e o travessia pelo Rio Guaporé.

Como o forte foi esquecido e depois redescoberto?

Com o passar das décadas, a fortaleza perdeu função militar e foi lentamente engolida pela floresta. Em 1914, uma expedição do marechal Cândido Rondon encontrou a estrutura abandonada e coberta de vegetação. O trabalho de limpeza do local foi coordenado por Rondon em 24 de abril de 1930, e em 1932 o Exército Brasileiro criou o Primeiro Pelotão Especial de Fronteira, conhecido como Sentinela do Guaporé, que ocupa a área até hoje.

Em 7 de agosto de 1950, o Real Forte Príncipe da Beira foi tombado como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). As pesquisas arqueológicas começaram em 2008 e revelaram estruturas associadas à fortaleza, como paiol e estábulo, além de louças portuguesas, vidros, metais, cerâmicas indígenas e evidências de ocupação pré-colonial e afro-brasileira.
Quem vive hoje ao redor da fortaleza?

No entorno do forte existe uma comunidade quilombola reconhecida pela Fundação Palmares em 19 de agosto de 2005. Os moradores são descendentes de pessoas escravizadas que trabalharam na construção e permaneceram na região, muitas vezes ligadas à fuga da escravidão. A comunidade é representada pela Associação Quilombola do Forte e atua diretamente no turismo, com moradores que trabalham como guias.

A convivência entre a comunidade quilombola, o Pelotão de Fronteira do Exército e os visitantes ajuda a manter o forte vivo. Nos meses de julho, quando as águas do Guaporé estão mais baixas, pedras com inscrições rupestres ficam expostas nas margens, o que revela sinais de ocupações anteriores à chegada dos portugueses e adiciona uma camada ainda mais antiga à história da região.

O forte que sobreviveu à floresta e ao tempo

O Real Forte Príncipe da Beira é uma síntese improvável de história colonial, engenharia militar europeia e resistência amazônica. Uma cidade de pedra construída em condições extremas, esquecida, redescoberta e agora protegida pelo Exército, pelo IPHAN e pela comunidade quilombola que cresceu em seu entorno.

Passar por Costa Marques e caminhar pelas muralhas do forte é atravessar quase 250 anos em poucos passos. Um monumento que ainda guarda, gravadas na pedra, as marcas de todos que ajudaram a erguê-lo em plena selva.

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