DESEMBARGADOR ACUSAO DE CRIMES PELA PF E DE VENDER SENTENÇAS PELA CNJ RECEBE APOSENTADORIA COM SALÁRIO INTEGRAL

Por Pedro Coutinho - Da Redação


Desembargador acusado de crimes pela PF e de vender sentenças pelo CNJ recebe aposentadoria com salário integral

O desembargador Dirceu dos Santos, que estava afastado de suas funções por suspeita de negociar sentenças com o advogado Roberto Zampieri, assassinado em dezembro de 2023, conseguiu a concessão do Tribunal de Justiça (TJMT) para se aposentar voluntariamente, por tempo de serviço, com o salário integral do cargo.

O ato foi formalizado em publicação no Diário da Justiça Eletrônico desta quarta-feira (17), assinado pela desembargadora Nilza Maria Possas de Carvalho, vice-presidente do TJMT. Na magistratura desde 2011, Dirceu dos Santos deverá seguir recebendo seu salário que variou entre R$ 57 e R$ 32 mil entre janeiro e abril deste ano.

A “manobra” de Dirceu pode evitar de fazê-lo sofrer eventuais condenações como a perda definitiva do cargo sem remuneração, conforme fixado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no final de maio, que proibiu a aposentadoria compulsória como punição máxima aos magistrados que cometerem e forem condenados por falhas graves no exercício do cargo. Além de processo e afastamento disciplinar, Dirceu também é alvo da Polícia Federal no âmbito da Operação Gemini, desdobramento da Sisamnes, autorizada no último dia 8 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), acusado de corrupção, advocacia administrativa e lavagem de dinheiro.

“Resolve, conceder aposentadoria voluntária ao Desembargador DIRCEU DOS SANTOS, com proventos integrais e paridade plena, com base no art. 3º da Emenda Constitucional n.º 47/2005 c/c o art. 104-E, caput, da Constituição Estadual, a partir desta data. Este Ato entra e vigor na data de sua publicação. (assinado digitalmente) Desembargadora NILZA MARIA POSSASDE CARVALHO”, nos termos da portaria.

Reclamação Disciplinar contra Dirceu tem como relator o ministro conselheiro Mauro Campbell Marques, e apura infração disciplinar, nepotismo cruzado, lotação de servidores com vínculo a desembargador, e ausência de atividade laboral.

Em março deste ano, a partir do aprofundamento de investigações em andamento no CNJ, foram identificados indícios de que o magistrado requerido proferiu decisões mediante o possível recebimento de vantagens indevidas, realizando a intermediação de atos decisórios por intermédio de terceiros, empresários, o lobista Andreson de Oliveira, que está em domiciliar, e advogados, incluindo Roberto Zampieri, o que culminou no seu afastamento.

A partir da quebra dos sigilos bancário e fiscal, ademais, foi constatado que o magistrado apresentou variação patrimonial em patamar incompatível com seus rendimentos licitamente auferidos, movimentando mais de R$ 14.618.546,99 em bens nos últimos cinco anos. A análise detalhada de suas declarações de ajuste anual do imposto de renda indicou intensa variação patrimonial a descoberto, notadamente, nos anos de 2021, 2022 e 2023, período contemporâneo aos fatos investigados, sendo certo que, apenas neste último ano, a diferença entre o incremento patrimonial e seus rendimentos licitamente auferidos alcançou o patamar de R$ 1.913.478,48.

Até então, em razão da gravidade dos indícios identificados em desfavor do desembargador, por determinação do corregedor nacional de justiça, ministro Mauro Campbell Marques, foi determinado o afastamento do requerido, assim como o cumprimento de diligências na sede do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, com o auxílio da Polícia Federal, para a extração de arquivos digitais e espelhamento de aparelhos eletrônicos postos à disposição do requerido e de seu gabinete. Na mesma ocasião, foram cumpridas diligências para o aprofundamento das investigações, ainda em andamento.

A medida em apreço, de natureza cautelar, é proporcional à gravidade dos relatos e tem por escopo preservar a credibilidade da magistratura, assegurar o regular funcionamento da Justiça e manter a confiança da sociedade no Poder Judiciário, não configurando juízo prévio de culpa, por estar em estrita consonância com o devido processo legal.

A investigação avançou após a análise de mensagens extraídas do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em Cuiabá em dezembro de 2023. O material revelou diálogos em que decisões eram supostamente negociadas por meio de intermediários, como o empresário Luciano Cândido Amaral, identificado na agenda do advogado pela alcunha de "IRMÃO GÊMEO – DD".

A decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, que culminou na Operação Gemini, deflagrada no último dia 8 pela Polícia Federal, autorizou medidas incisivas para aprofundar a investigação sobre o esquema de corrupção, advocacia administrativa e lavagem de dinheiro envolvendo a comercialização de decisões judiciais no âmbito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Os principais alvos da ofensiva foram o desembargador, agora aposentado da Corte, e o deputado estadual Faissal Calil (PL), acusado de operar ao lado do magistrado na execução das negociações.

Segundo a decisão, obtida em primeira mão porOlhar Jurídico, os elementos reunidos pela Polícia Federal indicam a existência de uma estrutura voltada à intermediação de decisões judiciais, ocultação de pagamentos e movimentação de recursos por meio de terceiros, empresas e operações patrimoniais.

Os dados serão vasculhados no período de 2019, primeiro ano de Faissal como deputado, até 2025, passando inclusive pelo ano de 2023, quando Zampieri intensificou as negociações antes de ser morto.

Foi no “Iphone Bomba” de Zampieri que a PF encontrou os elementos que resultaram nas ofensivas contra o esquema, as quais já resultaram no afastamento de Dirceu, de seus colegas de Tribunal, Sebastião de Moraes e João Ferreira Filho, e o juiz Ivan Lucio Amarante. Ao lado de Zampieri, o lobista Andreson Oliveira Gonçalves seria o principal articulador, levando as negociatas ao âmbito do STJ. Ele está detido em domiciliar, na sua mansão em Primavera do Leste.

Além disso, foram identificadas movimentações bancárias consideradas atípicas, vínculos societários e imobiliários entre investigados e documentos relacionados a processos possessórios que, segundo a investigação, reforçam as suspeitas de irregularidades.

Noronha destacou que os crimes investigados teriam sido praticados por meio de mecanismos de ocultação, como pagamentos dissimulados, movimentações fracionadas, utilização de pessoas jurídicas e operações imobiliárias aparentemente regulares, mas destinadas a mascarar a origem e o destino dos recursos, ações típicas de lavagem de dinheiro.

Pontuou ainda que os períodos abrangidos pelas quebras de sigilo foram delimitados de acordo com datas de decisões judiciais consideradas suspeitas e com a constituição das empresas envolvidas, buscando estabelecer vínculos entre os fatos investigados e a movimentação financeira dos alvos.

Entre as medidas autorizadas está a expedição de mandados de busca e apreensão e de busca pessoal. Os policiais foram autorizados a recolher documentos, contratos, comprovantes de pagamento, aparelhos celulares, computadores, tablets e outros dispositivos eletrônicos. A ordem também permite a apreensão de dinheiro em espécie, joias, obras de arte, veículos e outros bens que possam auxiliar na investigação.




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