O ONIPRESENTE - COMO DAVI ALCOLUMBRE OPERA - NA LUZ E NAS SOMBRAS

Perfil de Davi Alcolumbre revela trajetória marcada por carisma e articulação política, mas também por episódios controversos que expõem o uso de poder e relações questionáveis nos bastidores de Brasília

Imagem: Davi Alcolumbre (União-AP), por Waldemir Barreto | Agência Senado


Camille Lichotti e Allan de Abreu, Revista Piauí

O senador Davi Alcolumbre é um bonachão. Gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja.

Na Câmara, onde exerceu três mandatos de deputado, de 2003 a 2015, costumava escapar das sessões plenárias para tomar vinho e confraternizar em restaurantes de Brasília, em especial no Dom Francisco, local tradicional da capital. Quando voltava de suas andanças pelo interior do seu estado, o Amapá, divertia os colegas mostrando vídeos das viagens, nos quais aparecia dançando brega e tecnobrega, dois ritmos populares na região.

Quando foi eleito para a presidência do Senado pela primeira vez, Alcolumbre agradeceu o apoio abraçando e beijando testas e mãos dos aliados. “Ele visita meu gabinete e se deita no sofá”, descreve o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que já teve entreveros com o colega. “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?”

Um dia, Alcolumbre se desentendeu com uma senadora e, semanas depois, apareceu num evento organizado pelo filho dela — e se esbaldou. Em que pese a desvantagem de seus quilos generosos, vestiu calção, chuteira, meião e entrou em campo. “Ele corria de um lado para o outro. É uma coisa que alegra, que gera simpatia pela pessoa”, diz o ex-senador Antonio Anastasia, hoje no Tribunal de Contas da União.

Como a política pune a arrogância e premia a simpatia, Alcolumbre tem sido um sucesso em Brasília. Depois de exercer apenas metade do mandato de vereador em Macapá, mudou-se para a capital federal ao ser eleito deputado. Em 2015, após três mandatos, trocou a Câmara pelo Senado, quando venceu a eleição com 36% dos votos. Em 2019, aos 41 anos, tornou-se o mais jovem presidente do Senado, derrotando o veterano Renan Calheiros (MDB-AL). Encerrou o mandato em 2021 e, no ano passado, voltou à presidência da Casa. Com sua figura de aparência despreocupada, conta piadas, atende pequenos e grandes pleitos e leva sorvete de açaí e cupuaçu para sobremesa nos almoços com colegas.

Comerciante de origem, ele tem prazer em satisfazer o cliente. Um dia, uma assessora parlamentar do Ministério da Educação enfrentava dificuldades com o trâmite burocrático de sua licença-maternidade e recorreu à ajuda do senador, então vice-líder do governo de Michel Temer. Alcolumbre marcou uma reunião com um alto funcionário do MEC e intercedeu em favor da servidora.

Deu certo. Em outra ocasião, mais recente, distribuiu canetas de Mounjaro aos colegas que duelavam com os quilos extras quando o medicamento nem circulava livremente no Brasil e custava mil reais a unidade.

Esse é um Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.

Ao alto funcionário do MEC com quem tratou da licença-maternidade, pediu o favor embalado numa ameaça: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo”, disse, segundo uma testemunha. Era uma modesta mostra de como Alcolumbre explora o peso do seu poder. Segundo o portal UOL, as canetas Mounjaro de que dispunha eram um presente de um personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações pessoais.

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