A TRAGÉDIA DE ERROS DO PRESIDENTE DOS EUA, DONALD TRUMP

Os EUA estão mais uma vez envol­vi­dos em uma guerra no Ori­ente Médio. 


Por Valor Economico
Joseph Sti­glitz


Éver­dade, como disse certa vez Ale­xan­der Pope, que errar é humano. Mas, embora todos sejam falí­veis, alguns huma­nos são mais pro­pen­sos ao erro do que outros. Essa é uma jus­ti­fi­ca­tiva para a demo­cra­cia — sub­me­ter deci­sões que afe­tam um grande número de pes­soas a pro­ces­sos deli­be­ra­ti­vos que incluam freios e con­tra­pe­sos. A his­tó­ria dos regi­mes polí­ti­cos auto­ri­tá­rios e abso­lu­tis­tas está repleta de figu­ras cujos erros se mos­tra­ram cala­mi­to­sos não ape­nas para si mes­mas, mas tam­bém para as socie­da­des que gover­na­ram.

Nenhuma deci­são é mais impor­tante do que tra­var uma guerra con­tra outro país. Ainda assim, os Esta­dos Uni­dos fize­ram isso sem sequer um aceno ao seu pró­prio sis­tema de freios e con­tra­pe­sos e de deli­be­ra­ção fun­da­men­tada. Como os reis de outrora, Donald Trump, o pre­si­dente ame­ri­cano men­ti­roso e impul­sivo, per­ma­nece sem con­trole por parte do Legis­la­tivo e cer­cado por baju­la­do­res que lhe dizem ape­nas o que ele quer ouvir. O resul­tado desas­troso é evi­dente: os Esta­dos Uni­dos estão mais uma vez envol­vi­dos em uma guerra no Ori­ente Médio que já cus­tou milha­res de vidas — em sua mai­o­ria civis — e na qual quase cer­ta­mente come­te­ram múl­ti­plos cri­mes de guerra.

Nin­guém sabe quanto tempo a guerra com o Irã vai durar, quan­tos outros cri­mes de guerra serão come­ti­dos ou quan­tos ino­cen­tes ainda serão mor­tos. Mas os ame­ri­ca­nos apa­ren­te­mente estão tão anes­te­si­a­dos às vio­la­ções de direi­tos huma­nos e do Estado de Direito por parte de Trump, e tão sobre­car­re­ga­dos pelo fluxo cons­tante de notí­cias, que mal con­se­gui­ram mobi­li­zar qual­quer pro­testo.

Mesmo em nos­sas uni­ver­si­da­des, nor­mal­mente cen­tros de pro­testo e dis­si­dên­cia, o medo pre­va­lece. Como ocorre em todos os regi­mes repres­si­vos, a ame­aça de con­se­quên­cias eco­nô­mi­cas ou pio­res — per­der o visto, enfren­tar expul­são do país ou uma inves­ti­ga­ção cri­mi­nal — está sur­tindo o efeito dese­jado.

Como eco­no­mista, fre­quen­te­mente me per­gun­tam o que a guerra esco­lhida por Trump con­tra o Irã vai sig­ni­fi­car para as eco­no­mias dos EUA e do mundo. A res­posta curta é que, quanto mais tempo ela durar, mai­o­res serão os danos. Mas, mesmo que a guerra ter­mine rapi­da­mente, os efei­tos vão per­sis­tir. Afi­nal, cadeias de supri­men­tos crí­ti­cas já foram inter­rom­pi­das, e ins­ta­la­ções

Entre a nova Guerra Fria com a China e a apa­rente falta de resi­li­ên­cia nas cadeias glo­bais de supri­mento, há pouco motivo para oti­mismo. E, com a demo­cra­cia nos EUA em um estado tão enfra­que­cido, os erros huma­nos e suas con­se­quên­cias estão se acu­mu­lando com rapi­dez

de pro­du­ção de petró­leo e gás, des­tru­í­das. A mai­o­ria das esti­ma­ti­vas sugere que os repa­ros vão levar anos.

Além disso, não são só os supri­men­tos de petró­leo e gás que foram ame­a­ça­dos. Dife­ren­te­mente dos embar­gos de petró­leo da década de 1970, a pro­du­ção de fer­ti­li­zan­tes da qual depen­dem os sis­te­mas ali­men­ta­res glo­bais tam­bém foi com­pro­me­tida. Essa crise surge logo após outras gran­des dis­rup­ções eco­nô­mi­cas glo­bais — desde a pan­de­mia de covid-19 e a inva­são da Ucrâ­nia pela Rús­sia até a guerra tari­fá­ria glo­bal de Trump e a des­trui­ção do sis­tema de comér­cio inter­na­ci­o­nal base­ado em regras —, todas as quais con­tri­bu­í­ram para o aumento da infla­ção e o agra­va­mento da crise de aces­si­bi­li­dade.

Antes de Trump retor­nar à Casa Branca, a infla­ção estava em tra­je­tó­ria de queda, embora ainda acima da meta pre­fe­rida de 2% dos ban­cos cen­trais. Mas as tari­fas desa­ce­le­ra­ram sig­ni­fi­ca­ti­va­mente essa ten­dên­cia, e a infla­ção vol­tou a dis­pa­rar glo­bal­mente. Com mui­tos paí­ses, inclu­indo os EUA, já enfren­tando uma crise de custo de vida que as polí­ti­cas ame­ri­ca­nas agra­va­ram, o risco agora é que BCs em todo o mundo ele­vem as taxas de juros ou, pelo menos, desa­ce­le­rem o ritmo de cor­tes.

Isso irá agra­var a crise de custo de vida — pois com­prar uma casa ou qui­tar o car­tão de cré­dito ficará mais difí­cil — e desa­ce­le­rar uma eco­no­mia ame­ri­cana já aba­lada pelo impacto das polí­ti­cas errá­ti­cas de Trump em comér­cio, imi­gra­ção e polí­tica fis­cal. Não fosse o gasto desen­fre­ado com cen­tros de dados de Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial (IA) — res­pon­sá­vel por cerca de um terço do cres­ci­mento dos Esta­dos Uni­dos —, a eco­no­mia ame­ri­cana esta­ria, na ver­dade, anê­mica. E, com os cor­tes de impos­tos regres­si­vos de Trump para bili­o­ná­rios e empre­sas agora em vigor, os Esta­dos Uni­dos têm menos espaço fis­cal para amor­te­cer as dis­rup­ções que ele pro­vo­cou e aque­las que a IA pode tra­zer — desde des­lo­ca­men­tos no mer­cado de tra­ba­lho até o colapso da bolha tec­no­ló­gica.

A afir­ma­ção de Trump de que os EUA se bene­fi­ci­a­rão como expor­ta­do­res líqui­dos de petró­leo é um absurdo. Sim, a Exxon se bene­fi­ci­ará, mas os con­su­mi­do­res ame­ri­ca­nos pagam pre­ços defi­ni­dos glo­bal­mente — e que aumen­ta­ram de modo subs­tan­cial. Em tais con­di­ções, os EUA deve­riam impor um imposto sobre lucros extra­or­di­ná­rios. Mas isso não vai acon­te­cer sob uma admi­nis­tra­ção tão pro­fun­da­mente cap­tu­rada pela indús­tria de com­bus­tí­veis fós­seis.

Os anti­gos ali­a­dos dos EUA na Europa tam­bém estão sendo atin­gi­dos pelo aumento dos pre­ços de ener­gia e pela escas­sez de oferta indu­zi­dos por Trump. Se os gover­nos euro­peus vin­cu­la­rem os pre­ços da ele­tri­ci­dade aos pre­ços do gás (como fize­ram no iní­cio da guerra na Ucrâ­nia), pode­rão agra­var ainda mais a situ­a­ção. Mas, se a Europa ado­tar uma estra­té­gia para res­tau­rar sua sobe­ra­nia redu­zindo suas depen­dên­cias de tec­no­lo­gia e de defesa dos EUA, poderá for­ta­le­cer sua posi­ção tanto agora quanto no longo prazo.

Inde­pen­den­te­mente de quanto tempo a guerra e as atu­ais con­di­ções de estag­fla­ção durem, as con­se­quên­cias de longo prazo desse epi­só­dio serão pro­fun­das. Espera-se que o mundo reco­nheça que a “vari­a­bi­li­dade” da ener­gia solar e eólica é muito mais admi­nis­trá­vel do que a depen­dên­cia de com­bus­tí­veis fós­seis — sujei­tos aos capri­chos de figu­ras auto­ri­tá­rias errá­ti­cas como Trump e o pre­si­dente russo Vla­di­mir Putin. Se a guerra de Trump ace­le­rar a tran­si­ção verde glo­bal­mente, haverá ao menos um impor­tante lado posi­tivo.

De qual­quer forma, mais um prego foi acres­cen­tado ao cai­xão do mundo pací­fico e sem fron­tei­ras que nos­sos ante­ces­so­res bus­ca­ram cons­truir após a Segunda Guerra Mun­dial. Sob Trump, o país que lan­çou as bases desse mundo agora o des­man­tela. Entre a nova Guerra Fria com a China e a apa­rente falta de resi­li­ên­cia nas cadeias glo­bais de supri­mento, há pouco motivo para oti­mismo. E, com a demo­cra­cia nos EUA em um estado tão enfra­que­cido, os erros huma­nos e suas con­se­quên­cias estão se acu­mu­lando rapi­da­mente.
No

GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

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