'IRÃ ESTÁ VENCENDO A GUERRA CONTRA EUA E ISRAEL' , AVALIA ANALISTA GEOPOLÍTICO SOBRE RESISTÊNCIA IRANIANA

Miguel Stédile observa que ao fechar o Estreito de Ormuz e atacar navios petroleiros, Teerã transformou sua geografia em arma de guerra

LUCAS ESTANISLAU E RODRIGO DURÃO E TABITHA RAMALHO

                                                           Crédito: AP Photo/Sebastian Scheiner/Arquivo
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta segunda-feira (29) o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca | Crédito: AP Photo/Sebastian Scheiner/Arquivo

Enquanto Estados Unidos e Israel completam 12 dias de ataques contra o Irã, o resultado prático do conflito está longe do esperado pelo governo Donald Trump. A morte do líder supremo Ali Khamenei e de dezenas de civis, incluindo 171 meninas em uma escola bombardeada, não paralisaram o país ou provocaram uma mudança de regime, como Washington desejava. Pelo contrário: o Irã respondeu com mísseis balísticos contra Israel e bases estadunidenses, fechou o Estreito de Ormuz, afundou navios petroleiros e manteve a coesão política ao escolher Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como líder supremo.

No videocast O Estrangeiro, da Rádio Brasil de Fato, o analista geopolítico Miguel Stédile avalia a conjuntura, o papel da China no conflito e os equívocos estratégicos dos Estados Unidos. “Eu acho que nessa semana quem está ganhando a guerra é o Irã”, afirma.

Stédile traça um paralelo com a tentativa de desestabilização da Venezuela no início do ano. “Você teve uma demonstração de força dos Estados Unidos que mobilizou e paralisou o país e que obrigou a negociar nos termos deles. No Irã, o choque inicial não foi suficiente para imobilizar e paralisar o país.”

O analista destaca a inteligência da resposta iraniana, que atingiu bases dos EUA e de outros países, arrastando as monarquias árabes para o conflito, uma tática semelhante à que Israel historicamente utilizou. “O Irã está demonstrando uma capacidade bélica e uma recuperação de infraestrutura militar que não se esperava. O fato de não estar, depois de 12 dias, dizendo ‘vamos negociar’ ou ‘vamos encontrar um novo líder aceitável’ é um sinal de vitória.”

Stédile recupera elementos da história iraniana para explicar a resiliência do país. “O Irã, pré-revolução islâmica, tinha uma contradição: era um país moderno, com relações com a França, mas vivia sob uma ditadura do Xá Reza Pahlevi, apoiada pelos Estados Unidos, com polícia secreta e repressão.”

Sobre o papel da China, Stédile lembra que o país tem uma tradição de não se envolver em conflitos alheios. “A China não tem alianças militares, tem parceiros. Sua tradição é de coexistência pacífica e limitação ao seu espaço geográfico. Não podemos esperar dela um comportamento de Guerra Fria como o da União Soviética.”

O analista destaca que a China não tem interesse em antecipar um confronto direto com os Estados Unidos. “Há estrategistas que imaginam que em algum momento haverá uma disputa final, mas a China trabalha com uma lógica de paciência, de fervura. Olhe o tempo que levaram para recuperar Hong Kong e Macau. O limite hoje é Taiwan: ‘Não se metam com Taiwan‘.”

O fechamento do Estreito de Ormuz e os ataques a navios petroleiros têm sido uma arma eficaz do Irã. “Quatro navios desafiaram o Irã e terminaram bombardeados. Isso já está gerando consequências econômicas”, afirma Stédile.

O analista lembra que o Irã ofereceu aos países a possibilidade de passagem segura pelo estreito em troca do rompimento de relações com Israel. “Claro que os países não vão romper, mas a propaganda está feita: a situação só existe porque o Irã está sendo atacado por Estados Unidos e Israel. A solução é pressionar eles.”

Para Stédile, o conflito dificilmente terá uma resolução rápida. “Quem quer mudança no cenário são os Estados Unidos. Não vão conseguir. Então permanece essa situação de barril de pólvora em suspenso, como não resolveu em Gaza.”

Editado por: Maria Teresa Cruz

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