TRÊS EQUÍVOCOS SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - E O DEBATE QUE AINDA NÃO FIZEMOS

Entre entusiastas e céticos, a inteligência artificial virou campo de excessos. Três equívocos precisam ser nomeados antes que o debate comece de verdade.

Imagem: Arquivo do Portal Fio do Tempo


Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Toda tecnologia que muda o jogo chega acompanhada de dois excessos: o entusiasmo que a transforma em messias e a rejeição que a condena antes de entendê-la.

O que os gregos já chamavam de phármakon — veneno e remédio na mesma substância — vale para toda tecnologia que transforma o mundo.

Com a chamada inteligência artificial não é diferente — e o debate público em torno dela sofre dos dois lados ao mesmo tempo.

O primeiro equívoco está na linguagem. Chamar de inteligência algo que não compreende, não raciocina e não tem consciência é, no mínimo, impreciso.
Mas daí concluir que o fenômeno é vazio é outro equívoco — simétrico e igualmente problemático.

O nome errado não invalida o resultado. Sistemas de diagnóstico por imagem que identificam tumores com precisão superior à de radiologistas experientes existem e funcionam.

Modelos de previsão climática que processam volumes de dados impossíveis para qualquer equipe humana entregam resultados mensuráveis.

A detecção de fraudes financeiras em tempo real, a aceleração da pesquisa farmacológica, a tradução simultânea em dezenas de línguas — nada disso é espuma de mercado.

É impacto verificável.

O segundo equívoco é misturar o fenômeno tecnológico com o fenômeno especulativo.

A bolha financeira em torno de uma tecnologia é um evento econômico — não um julgamento sobre o que está sendo desenvolvido.

Em 2001, quando a bolha da internet estourou, muita gente decretou o fim da era digital. Dois anos depois surgia o LinkedIn. Três depois, o Facebook.
A especulação não define o legado. Confundir os dois é misturar alhos com bugalhos — e um erro conveniente para quem quer fechar o debate antes de ele começar.
O terceiro equívoco é a generalização que nivela.
Há críticas sérias e necessárias a fazer — principalmente sobre a concentração de poder nas mãos de poucos e sobre o trabalho humano invisível que alimenta esses sistemas, sem o qual nada funcionaria.

Mas crítica séria exige precisão, não bordão.

A inteligência artificial não precisa de defesa incondicional. Precisa de análise honesta.
O que está em jogo é real demais para ser reduzido a apocalipse retórico de um lado ou mera euforia de mercado do outro.

Entre o delírio e a negação, há um território de pensamento crítico que o debate público brasileiro ainda está aprendendo a habitar.

Tecnologias não são julgadas no auge do entusiasmo nem no calor da rejeição, mas na sedimentação de seus efeitos.

*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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