SONO INSUFICIENTE DE ADOLESCENTES ESTÁ ASSOCIADO A PIOR DESEMPENHO ESCOLAR, DIZ ESTUDO DA UFPR

Projeto de iniciação científica se baseou em prontuários de pacientes entre 11 e 19 anos atendidos no Hospital de Clínicas da universidade para entender como hábitos influenciam o descanso

por Livia Inacio
                                                                           Foto: World Sikh Organization of Canada/Pexels
Sono de má qualidade na adolescência impacta aprendizado, memória e saúde mental. 

Adolescentes precisam dormir entre oito e dez horas por dia. É o que recomenda a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), referência em pesquisa e prática clínica sobre o tema. Mas cumprir essa meta não é simples. Entre o uso constante de telas e horários escolares nada amigáveis, o sono é frequentemente negligenciado.

A aluna do 4º ano de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Gisele Alves de Souza, orientada pela professora Beatriz Elizabeth Bagatin Veleda Bermudez, do Departamento de Medicina Integrada da instituição, buscou compreender como esses fatores interagem, e identificar quais têm mais peso sobre a duração do sono na adolescência. Os resultados dessa análise foram apresentados na 16ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (Siepe) da universidade.

A ciência já sabe que o uso excessivo de eletrônicos, especialmente à noite, prejudica o sono ao inibir a melatonina, hormônio que regula o ciclo sono-vigília e sinaliza ao organismo o momento de descansar, diz a aluna.

“Mas o diferencial do meu estudo foi avaliar de forma integrada diferentes variáveis, que vão além do uso de celulares, e interferem no descanso. Analisamos idade, horas de tela, desempenho escolar, atividade física, índice de massa corporal e queixas de sono, em um mesmo grupo de adolescentes brasileiros atendidos em um ambulatório hospitalar”.

Gisele Souza participa do projeto de pesquisa que busca traçar um panorama epidemiológico, ou seja, relativo aos riscos à saúde, de pacientes do ambulatório de adolescentes do Complexo do Hospital de Clínicas (CHC) da UFPR, em Curitiba.

Por meio desse projeto, analisou 61 prontuários de adolescentes de 11 a 19 anos atendidos no complexo, de abril a julho de 2025. Os documentos continham informações sobre horas de descanso, tempo de tela diário e queixas sobre o sono. Foram excluídos aqueles incompletos ou com dados inconsistentes.

Resultados reforçam relação entre qualidade do sono e aprendizagem

Para organizar e analisar as informações, a aluna utilizou o Jamovi, programa gratuito de estatística que possibilita análises complexas de forma visual. Já o Python, linguagem de programação empregada em ciência de dados, serviu como apoio para criar gráficos que também facilitam a interpretação dos resultados.

Com essas ferramentas, foi possível aplicar testes estatísticos como a correlação de Pearson, capaz de medir se duas variáveis estão relacionadas. Por meio dele, deu para verificar, por exemplo, se mais tempo de tela se associa de algum modo a menos horas de sono.

Pela amostra analisada, Souza não identificou uma associação direta entre o tempo de tela e a redução do sono entre adolescentes. Entretanto, o desempenho escolar apresentou uma relação nítida com a duração do sono: adolescentes que relataram rendimento ruim dormiam, em média, 50 minutos a menos por noite.


“Isso reforça como o sono e o aprendizado estão interligados”, diz a pesquisadora.

De acordo com Souza, as evidências científicas de que o sono interfere na aprendizagem são fortes, já que é durante o descanso que ocorrem processos neurobiológicos essenciais, como a consolidação da memória e a reorganização sináptica. “Assim, dormir pouco afeta diretamente a atenção, a memória de trabalho e o aprendizado, resultando em pior desempenho escolar”, diz.

Pesquisadora espera aprofundar estudo

A aluna acredita que o estudo tenha trazido apontamentos relevantes em âmbito local, mas espera que a pesquisa possa ser realizada com populações maiores, para verificar se os resultados se repetem em contextos distintos. Ainda segundo Souza, é importante entender as relações de causa e efeito entre os fatores analisados no sono dos adolescentes.

“O ideal seria acompanhar os mesmos adolescentes ao longo do tempo, em estudos longitudinais, capazes de indicar o que vem primeiro: o sono insuficiente ou o baixo desempenho escolar”, diz.

A discente destaca ainda a importância de detalhar melhor algumas variáveis. Estudos futuros poderiam investigar, por exemplo, o tipo de conteúdo consumido, o horário de uso, especialmente à noite, e o tipo de dispositivo.

Para a orientadora, o tema é essencial para o desenvolvimento sadio de crianças e adolescentes. Souza acrescenta que problemas de sono causam irritabilidade, alterações de humor, sonolência diurna, déficits de atenção e concentração e até risco aumentado de acidentes.

O impacto no metabolismo é outro aspecto significativo, segundo a aluna.


“Estudos mostram que adolescentes que dormem menos têm maior propensão ao sobrepeso e à obesidade. Isso ocorre por mecanismos biológicos, como alterações hormonais que aumentam a grelina (o hormônio da fome) e reduzem a leptina (o hormônio da saciedade), além de aumentar a resistência à insulina”, diz.

Familiares podem ajudar a promover melhores hábitos de sono

Souza orienta que a promoção de bons hábitos de sono comece dentro de casa. Segundo a pesquisadora, os pais podem ajudar a estabelecer rotinas noturnas regulares e limites para o uso de telas antes de dormir, principalmente evitando celulares e tablets na cama.

“Ter um horário fixo para se deitar, reduzir estímulos luminosos e sonoros à noite e encarar o sono como parte da saúde, assim como a alimentação e a atividade física, faz muita diferença”, afirma.

A aluna destaca ainda que o exemplo dos próprios pais é uma ferramenta poderosa. “Quando os adultos valorizam o descanso e adotam hábitos mais saudáveis, os adolescentes tendem a reproduzir esse comportamento. O sono não é perda de tempo, é investimento em saúde, aprendizado e bem-estar”, conclui.

➕ Confira o relatório final do estudo, divulgado na 16ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (Siepe) da UFPR.

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