PARASITA CEREBRAL QUE AFETA ATÉ UM TERÇO DA POPULAÇÃO NÃO ESTÁ INATIVO COMO SE PENSAVA

Análise detalhada de estruturas microscópicas altera a compreensão sobre a infecção crônica e aponta entraves históricos no combate à doença

Por Arthur Almeida


Cistos microscópicos contendo Toxoplasma gondii se desenvolvem nos tecidos de muitos vertebrados. Aqui, em tecido cerebral de camundongo, milhares de parasitas em repouso (corados em vermelho) estão envoltos por uma fina parede cística Wikimedia Commons

O Toxoplasma gondii, parasita responsável pela toxoplasmose, infecta um terço da população mundial e tem a capacidade singular de permanecer no corpo humano por toda a vida. A contaminação ocorre, em geral, pelo consumo de carne malcozida ou pelo contato com solo e fezes de gatos infectados. Na maioria dos casos, o sistema imunológico controla a fase inicial da infecção sem que surjam sintomas evidentes.


Ainda assim, o parasita não é eliminado: ele se instala em cistos microscópicos, principalmente no cérebro e nos músculos, onde permanece fora do alcance dos tratamentos disponíveis. Por décadas, esses cistos foram entendidos como estruturas biologicamente inativas, formadas por parasitas dormentes – uma interpretação que orientou boa parte das estratégias terapêuticas desenvolvidas até hoje.

No entanto, um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, sugere que essa base conceitual pode estar incorreta. Detalhes da descoberta foram compartilhados em um artigo científico publicado no dia 24 de janeiro na revista Nature Communications.

Cisto como um sistema ativo e organizado

Ao analisar parasitas retirados diretamente de cistos formados em tecidos vivos, os pesquisadores identificaram um nível de organização interna até então desconhecido. Com o uso de sequenciamento de RNA em célula única, a equipe observou que cada cisto abriga múltiplos subtipos de bradizoítos, todos pertencentes à fase crônica da infecção, mas com funções biológicas distintas.

Esses subtipos não coexistem de forma aleatória. Os dados indicam uma divisão funcional clara, com alguns parasitas voltados à manutenção de longo prazo dentro do hospedeiro, outros à transmissão entre hospedeiros e aqueles preparados para se reativar caso as condições imunológicas se alterem. Dessa forma, o cisto deixa de ser entendido como um simples refúgio passivo e passa a ser interpretado como uma estrutura dinâmica, capaz de responder a pressões do ambiente interno.

A formação dos cistos ocorre gradualmente à medida que o sistema imunológico limita a multiplicação do parasita. Cada cisto é envolto por uma parede protetora e pode conter centenas de bradizoítos. Com dimensões que podem chegar a 80 micrômetros, essas estruturas são grandes para padrões de patógenos intracelulares e se instalam com frequência em neurônios, além de músculos esqueléticos e cardíacos.

Reativação e riscos clínicos

A organização interna dos cistos ajuda a explicar por que a toxoplasmose pode se tornar grave em contextos específicos. Quando o equilíbrio imunológico é rompido, os subtipos de bradizoítos preparados para a reativação se transformam em taquizoítos, a forma de multiplicação rápida do parasita. Esse processo permite que a infecção se espalhe novamente pelo organismo, podendo causar encefalite toxoplásmica ou lesões oculares com risco de perda visual.

Tal descoberta também lança luz sobre as limitações dos tratamentos atuais. Os medicamentos disponíveis atuam apenas sobre os taquizoítos e são eficazes no controle da fase aguda da doença, mas não afetam os cistos.

Ao tratar essas estruturas como populações homogêneas e inativas, tentativas anteriores de desenvolvimento de fármacos ignoraram a diversidade funcional agora revelada. Para os autores, identificar quais subtipos dentro do cisto estão associados à reativação abre caminho para terapias mais direcionadas e potencialmente capazes de interromper a infecção crônica.

Segundo a pesquisadora Emma Wilson, líder do estudo, os resultados exigem uma revisão do modelo clássico do ciclo de vida do Toxoplasma gondii, tradicionalmente descrito como uma alternância simples entre fases ativa e latente. “O cisto deve ser entendido como o ponto central de controle do parasita”, afirma, em comunicado.

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