COM 42 MILHÕES DE HABITANTES, CIDADE POPULOSA DO PLANETA ENFRENTA AFUNDAMENTO ACELERADO; ENTENDA

Capital da Indonésia sofre com extração excessiva de água subterrânea, urbanização desordenada e efeitos das mudanças climáticas


Por O Globo — Jacarta

Jacarta, Indonésia — Foto: Pexels

Como sustentar a vida de quase 42 milhões de pessoas em uma cidade que literalmente afunda? Em Jacarta, capital da Indonésia e atualmente a cidade mais populosa do planeta, segundo o relatório de perspectivas urbanas da ONU, o cotidiano é marcado por uma combinação de crescimento desordenado, pressão ambiental e vulnerabilidade climática.




A densidade e a rápida expansão urbana colocam Jacarta em posição crítica diante da crise do clima, apontam especialistas das Nações Unidas. A população local supera a soma de países como Holanda, Bélgica e Portugal, é maior que a do Canadá e da Austrália e se aproxima do total da Argentina. A liderança no ranking global, à frente de Tóquio, reflete tanto crescimento real quanto mudanças recentes na metodologia estatística adotada pela ONU.

Esse avanço, porém, ocorreu sem planejamento consistente. Como relata a revista Wired, a cidade foi sendo moldada por camadas históricas sucessivas — da era colonial aos dias atuais — impulsionada pela chegada contínua de migrantes em busca de trabalho e serviços. O resultado é um tecido urbano marcado por contrastes profundos e pela sobrecarga de infraestrutura.

Subsidência e pressão sobre o subsolo

O afundamento de Jacarta é consequência direta da interação entre fatores naturais e humanos. Dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, citados pela Wired, indicam que a extração excessiva de água subterrânea, o peso das construções e a subsidência natural dos sedimentos provocam taxas anuais de afundamento que, em algumas áreas, chegam a vários decímetros. Na zona norte, partes da cidade já estão abaixo do nível do mar.

A ausência de uma rede ampla de água potável força muitos moradores a recorrerem aos aquíferos, intensificando a retirada de água do subsolo e agravando o desequilíbrio geológico. Essa dinâmica, somada à urbanização acelerada, amplia a exposição da capital a riscos ambientais ao longo do século XXI.

Como cidade costeira, Jacarta sofre ainda com inundações cada vez mais frequentes. A elevação do nível do mar, associada às mudanças climáticas e a episódios de chuvas extremas, transforma eventos antes pontuais em ameaças recorrentes à infraestrutura e à qualidade de vida, segundo análises da ONU citadas pela Wired.

Diante desse cenário, autoridades locais e nacionais apostam em soluções de grande escala. Entre elas está o chamado “Muro Marinho Gigante”, projetado para conter marés e incursões do oceano, além de programas de restauração dos rios urbanos para melhorar a drenagem. Há também investimentos na expansão do metrô e de trens leves, com foco em reduzir congestionamentos e poluição.

A iniciativa mais simbólica, porém, é a transferência parcial da administração federal para Nusantara, nova capital em construção na ilha de Bornéu. A proposta busca aliviar a pressão demográfica e econômica sobre Jacarta, embora enfrente entraves administrativos e não resolva, no curto prazo, a superlotação e os riscos ambientais da atual capital.

Enquanto isso, a superpopulação segue impondo custos elevados à mobilidade, aos serviços públicos e à economia nacional. Tráfego intenso, redes de transporte saturadas e desastres naturais frequentes afetam a produtividade e testam a resiliência de uma cidade que se tornou, para a ONU, um retrato emblemático dos desafios enfrentados pelas megacidades asiáticas em um mundo em aquecimento.

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