MAO ZEDONG: 133 ANOS DO HOMEM QUE MUDOU PARA SEMPRE A HISTÓRIA DA CHINA

CHINA EM FOCO

Conheça a biografia do homem que mudou para sempre a rota da vida da maior potência socialista do mundo

Por: Yuri Ferreira

Mao Zedong - Mao em 1924

Em 26 de dezembro de 1893 nascia Mao Zedong, um dos personagens mais decisivos do século XX. Poucas figuras exerceram influência tão profunda e duradoura sobre a trajetória de um país quanto Mao exerceu sobre a China.

Amado por muitos, criticado por outros, ele foi, acima de tudo, um líder revolucionário que conduziu uma civilização milenar por uma ruptura histórica sem precedentes, moldando as bases do Estado chinês moderno.

Origens e formação

Mao nasceu na aldeia de Shaoshan, na província de Hunan, em uma família camponesa relativamente próspera. Seu pai era um agricultor rigoroso, enquanto sua mãe, de forte religiosidade popular, exerceu grande influência emocional sobre ele. Desde jovem, Mao demonstrou interesse por leitura, história e política, algo incomum no meio rural chinês da época.

A China em que Mao cresceu estava em crise. O Império Qing entrava em colapso, pressionado por potências estrangeiras, guerras internas, fome e decadência institucional. Esse ambiente de humilhação nacional e instabilidade social foi determinante para a formação de sua visão política.


Mas a queda da dinastia Qing, em 1911, não havia trazido estabilidade nem soberania plena ao país. Pelo contrário, a República nascente enfrentava fragmentação política, dominação estrangeira e atraso social, criando um ambiente fértil para o surgimento de novas correntes de pensamento.

Entre 1913 e 1918, Mao estudou na Escola Normal de Hunan, em Changsha. Foi nesse período que ele teve contato sistemático com ideias que circulavam no ambiente do Movimento Nova Cultura, como o anti-confucionismo, o cientificismo, o liberalismo radical, o nacionalismo e, gradualmente, o socialismo. Mao era um leitor voraz e demonstrava interesse tanto por autores chineses reformistas quanto por pensadores ocidentais traduzidos para o chinês.

Em 1918, Mao mudou-se para Pequim, onde trabalhou como assistente na biblioteca da Universidade de Pequim. Embora ocupasse um cargo modesto, esse período foi crucial para sua formação. Na universidade, ele teve contato direto com figuras centrais do Movimento Nova Cultura, como Chen Duxiu e Li Dazhao, que mais tarde se tornariam fundadores do Partido Comunista Chinês.
A Revolução e o Partido Comunista Chinês

Em 1921, Mao participou da fundação do Partido Comunista da China (PCCh). Diferentemente de muitos marxistas da época, que viam o proletariado urbano como força central da revolução, Mao compreendeu cedo que a realidade chinesa era distinta. A China era majoritariamente camponesa, e seria no campo, não nas fábricas, que a revolução encontraria sua base social.

Essa leitura original do marxismo foi um dos grandes diferenciais de Mao. Ele adaptou a teoria às condições concretas da China, desenvolvendo uma estratégia baseada na guerra popular prolongada, na mobilização camponesa e na construção de áreas libertadas no interior do país.

Entre 1923 e 1927, os comunistas formaram uma aliança tática com o Kuomingtang, que governava a República da China, no combate contra os senhores da guerra. Mao foi um grande defensor da Frente Unida, mas ainda não era um dirigente notável do Partido Comunista, mas cresceu ao longo dos anos no partido. Em 1927, com a eclosão do Nassacre de Xangai e o rompimento do PCCh com o Kuonmintang, Mao se tornou general do Exército Vermelho.

Ele chegou a ser brevemente expulso do partido, mas após arregimentar um poderoso exército de camponeses e outros setores marginalizados da sociedade, Mao conseguiu unificar forças do PCCh e acabou se tornando o principal general do partido na luta contra o KMT.

O episódio mais emblemático desse período foi a Longa Marcha (1934–1935), uma retirada estratégica de milhares de quilômetros realizada pelo Exército Vermelho para escapar do cerco nacionalista. A Longa Marcha consolidou Mao como principal liderança do partido.

Guerra, ocupação e vitória: consolidação de Mao Zedong

A invasão japonesa da China, a partir de 1937, alterou profundamente o cenário político. Mao e o Partido Comunista da China passaram a desempenhar papel central na resistência contra o imperialismo japonês, ampliando sua base social e sua legitimidade nacional. Enquanto isso, o Kuomintang se enfraquecia, corroído por corrupção, autoritarismo e perda de apoio popular.

Apesar de uma aliança tática no combate ao imperialismo japonês, as forças do KMT foram, em muitos momentos, vistas como colaboradoras dos invasores para enfraquecer a causa socialista.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a guerra civil chinesa foi retomada. Em 1949, após uma campanha militar decisiva e com apoio da União Soviética, Mao proclamou a fundação da República Popular da China, encerrando mais de um século de fragmentação, dominação estrangeira e guerras internas. Aquele momento representou o renascimento do país como Estado soberano.

A construção da nova China

Nos primeiros anos da República Popular, o governo liderado por Mao promoveu transformações profundas. A reforma agrária redistribuiu terras, desmontando o poder secular dos grandes proprietários rurais.

O novo Estado consolidou o controle sobre o território, unificou o país politicamente e lançou as bases de um sistema nacional de saúde, educação e infraestrutura.

A China que emergia desse processo era extremamente pobre, devastada por décadas de guerra. Erradicar a fome, o analfabetismo e a fragmentação social tornou-se prioridade.

O país adotou uma economia planificada, inspirada em modelos socialistas, mas sempre com características próprias, adaptadas à realidade chinesa.

O Grande Salto Adiante e seus limites

No final da década de 1950, Mao lançou o Grande Salto Adiante, uma tentativa ambiciosa de acelerar o desenvolvimento industrial e agrícola do país.

A proposta buscava mobilizar as massas para superar rapidamente o atraso econômico, sem depender excessivamente de modelos estrangeiros.

O projeto, porém, enfrentou sérias dificuldades. Erros de planejamento, metas irrealistas, problemas climáticos e falhas na comunicação entre o centro e as bases resultaram em uma grave crise econômica e alimentar.

Esse período permanece como um dos mais debatidos da história chinesa contemporânea, revelando tanto o voluntarismo revolucionário de Mao quanto os limites de uma mobilização acelerada em um país ainda muito pobre.

A Revolução Cultural

Na década de 1960, Mao promoveu a Revolução Cultural. Seu objetivo declarado era combater o burocratismo, o elitismo e o que ele via como tendências conservadoras dentro do Partido e da sociedade.

Mao acreditava que a revolução precisava ser constantemente renovada para não se transformar em uma nova forma de dominação.

A Revolução Cultural mobilizou milhões de jovens, especialmente os Guardas Vermelhos, e provocou intensos conflitos políticos e sociais.

Instituições foram abaladas, lideranças foram afastadas e o país viveu anos de grande turbulência. Ao mesmo tempo, o processo reforçou valores como igualdade, soberania nacional e rejeição à submissão cultural externa.

O que Mao Zedong entregou

Entre o início dos anos 1950 e o fim dos anos 1970, a economia chinesa cresceu rapidamente para os padrões de um país de baixa renda, com o produto nacional aumentando em média cerca de 6% a 7% ao ano, apesar de fortes rupturas.

A industrialização avançou mais rápido que a agricultura, com prioridade à indústria pesada, o que criou uma base significativa de capital físico que seria aproveitada nas reformas posteriores.

Mao Zedong com Alexina Crespo,guerrilheira que lutou contra a ditadura militar através das Ligas Camponesas

No plano social, houve avanços importantes combinados com limites estruturais. Nas cidades, o Estado promoveu a remoção de favelas e integrou a moradia ao sistema de bem-estar das unidades de trabalho (danwei).

Na saúde, a expectativa de vida ao nascer saltou de cerca de 35–40 anos em 1949 para aproximadamente 65 anos em 1980, graças a campanhas massivas de saúde pública, vacinação, saneamento e à expansão de serviços básicos no meio rural, como os “médicos descalços”.

A educação também se expandiu, com forte crescimento da escolarização básica e da alfabetização, o que teve efeitos duradouros: estudos indicam que uma parcela significativa da queda da mortalidade infantil e infantil-juvenil entre 1960 e 1980 se deveu a esses ganhos educacionais, mesmo com a renda per capita permanecendo baixa.

Política externa e soberania

Sob Mao, a China adotou uma política externa fortemente baseada na independência nacional. Rompeu com a dependência da União Soviética quando considerou que seus interesses estavam sendo comprometidos e buscou afirmar-se como ator autônomo no cenário internacional.

A China saiu de uma sociedade agrária em 1949 para o desenvovilmento de satélites e armamentos nucleares no início dos anos 1970, mostrando um desenvolvimento acelerado de tecnologia em um período de menos de 25 anos.

O reatamento das relações com os Estados Unidos no início da década de 1970, apesar das diferenças ideológicas, demonstrou o pragmatismo estratégico de Mao na defesa da soberania chinesa.

Esse movimento ajudou a reposicionar a China no sistema internacional e abriu caminho para transformações posteriores.
Morte e legado

Mao Zedong morreu em 9 de setembro de 1976. Seu falecimento marcou o fim de uma era. O país que ele deixou era profundamente diferente daquele em que nasceu: unificado, soberano, com uma identidade nacional fortalecida e um Estado capaz de planejar seu próprio futuro.

Seu legado é complexo e multifacetado. Mao foi, ao mesmo tempo, um líder revolucionário que libertou a China da dominação estrangeira e um dirigente cujas decisões geraram enormes desafios internos.

Na China contemporânea, ele é lembrado como o fundador da nação moderna, uma figura histórica cuja contribuição é reconhecida sem ocultar contradições.

Aos 133 anos de seu nascimento, Mao Zedong permanece como símbolo de uma transformação histórica profunda. Com seus acertos e erros, ele redefiniu o destino de um quinto da humanidade e inscreveu seu nome de forma definitiva na história mundial
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