O QUE A TV JUSTIÇA NÃO MOSTROU: MOMENTOS MARCANTES DE UM JULGAMENTO HISTÓRICO

Olhares, tensão, cansaço e recados marcaram os 3 dias decisivos na condenação de Bolsonaro por golpe de Estado

Por Caio de Freitas | Edição: Ludmila Pizarro

Às 16h20 de 11 de setembro de 2025, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) e membro da 1ª Turma da Corte Cármen Lúcia concluiu um voto histórico. Sua decisão formou maioria para condenar à prisão, pela primeira vez na história do Brasil, um ex-presidente da República, um ex-comandante da Marinha e ex-membros do Alto Comando do Exército por tentativa de golpe de Estado.

Por trás do fato histórico, o julgamento dos mentores da trama golpista teve cenas curiosas e simbólicas que a transmissão oficial não mostrou, mas a Agência Pública viu de perto.

Na quinta-feira, 11 de setembro, por exemplo, somente após a exibição de um vídeo com os “melhores momentos” da escalada golpista a pedido do relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, com mais de uma hora de sessão corrida, que seu colega de Turma Luiz Fux o olhou atentamente. Na véspera, Fux deu o voto dissidente no caso com diversas alfinetadas na posição de Moraes.
                                                            Victor Piemonte/STF
Ministro Alexandre de Moraes durante julgamento do plano de golpe no STF

                                                                                     Gustavo Moreno/STF
Ministro Luiz Fux durante julgamento do plano de golpe no STF

A reportagem também acompanhou o voto vencido no placar de 4 a 1 do início ao fim. Autoridades, jornalistas e advogados, de fato, lutaram contra cansaço, tédio e talvez irritação durante a leitura de mais de 400 páginas, por mais de 14 horas.

Por que isso importa?
Pela primeira vez no Brasil um ex-presidente da República e militares de alta patente são condenados pelo crime de golpe de Estado.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump aliou-se ao discurso de Bolsonaro e tem pressionado o Brasil com aumento de tarifas e sanções a membros do STF, como o ministro Alexandre de Moraes.

“Ninguém pode ser culpado pela cogitação”, “mera conjectura”, “alegação genérica” e “ilação” foram algumas das expressões usadas por Fux para refutar as evidências apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e endossadas pelo ministro Alexandre de Moraes.

Sobre o quebra-quebra do dia 8 de janeiro de 2023, por exemplo, Fux disse que não passava de uma “turba desordenada”. Mas no próprio dia da tentativa de golpe a Pública revelou o uso do código “Festa da Selma” nas redes, para convocar bolsonaristas para invadirem e depredarem as sedes dos Três Poderes.

Em grande parte desta sessão, os ministros e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, sequer olhavam para Fux.

Ao fim, quando o presidente da Turma, Cristiano Zanin, lia o resumo do voto de Fux, o ministro carioca solicitou ajustes no trecho sobre o deputado federal e ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem (PL), dizendo a expressão “pedir vista”. A fala despertou, imediatamente, a atenção de quem ainda estava na sala, mas era um alarme falso, não um pedido.
                                                                           Victor Piemonte/STF
Ministros Zanin, Barroso e Fux

                                                                           Gustavo Moreno/STF
Voto do ministro o isolou diante da turma

                                                                           Antonio Augusto/STF
Nenhuma das autoridades olha para Fux

“Um divisor de águas na história do Brasil”

A maratona do voto de Fux na quarta-feira gerou respostas práticas e simbólicas no dia seguinte, com a condenação do “núcleo crucial” da trama, com penas que variam entre 16 e 27 anos de prisão.

Dois outros ministros do Supremo compareceram à sessão decisiva: o decano Gilmar Mendes e o presidente Luís Roberto Barroso. “Sua presença aqui diz muito sobre o seu caráter, presidente”, disse o ministro Flávio Dino, com o veredito já determinado pela Turma.

Prestes a deixar o cargo no próximo dia 28, o presidente do STF participou da sessão para discursar sobre o julgamento – um “divisor de águas na história do Brasil”, “baseado em provas das mais diversas: vídeos, textos, mensagens, confissões”, segundo ele.


Só o desconhecimento profundo dos fatos ou uma motivação descolada da realidade encontrará neste julgamento algum tipo de perseguição política
Luís Roberto Barroso
Presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil

Já o atual decano do STF esteve mais presente na primeira metade da sessão. Gilmar Mendes transitava constantemente entre a área restrita a ministros e auxiliares e o auditório da sala de sessões, onde conversava o tempo todo ao pé do ouvido com seu chefe de gabinete, Eduardo Ribeiro Granzotto.
                                                                                    Gustavo Moreno/STF
Ministro Gilmar Mendes durante julgamento do plano de golpe no STF

                                                                         Antonio Augusto/STF
Ministro Barroso durante julgamento do plano de golpe no STF

“Um resultado esperado”

Políticos de esquerda, direita e extrema-direita também compareceram nos últimos dias do julgamento do “núcleo crucial”. Ao contrário do que seus perfis nas redes sociais e atitude nas dependências do Congresso sugerem, os deputados da base bolsonarista estavam bem comportados na sala da 1ª Turma d
o STF. “Era um resultado esperado, né?”, disse à Pública o deputado Evair de Mello (PP-BA), membro da bancada ruralista.

Mello e o vice-líder da oposição na Câmara, Luciano Zucco (PL-RS), foram os únicos parlamentares próximos do clã Bolsonaro que estiveram nos três dias decisivos do julgamento. Tenente-coronel da reserva do Exército, o deputado gaúcho era o mais sociável da dupla, sempre conversando com jornalistas, advogados e até parlamentares de esquerda na sala da 1ª Turma.

Outro deputado bolsonarista, Ubiratan Sanderson (PL-RS), acompanhou as sessões apenas durante os votos de Fux, Cármen Lúcia e do presidente da Turma. Na quarta-feira, o deputado comentava empolgado com quem lhe abordava que o voto de Luiz Fux estava “superando as expectativas”. “Sou policial federal, então posso garantir que está sendo um voto muito técnico”, dizia. Com a condenação dos réus no dia seguinte, seu semblante mudou.
                                                                                                      Antonio Augusto/STF
Os deputados bolsonaristas Ubiratan Sanderson, Evair de Mello e Luciano Zucco acompanharam julgamento

“Se o voto do ministro Fux supera as expectativas deles, é porque eles não têm muito o que esperar, já que a posição dele [Fux] certamente vai ser superada amanhã”, disse à Pública a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), quando deixava o STF antes do término do voto vencido de Fux, na quarta.


Não me preocupo com o mérito do voto [do ministro Fux], porque isso favorece o caso, inclusive na esfera internacional. A dissidência mostra que os juízes da Suprema Corte brasileira têm total independência, que não estão sendo coagidos a nada
Maria do Rosário
Deputada Federal do Brasil

Após o fim do julgamento, já na quinta, o deputado da base do governo Ivan Valente (Psol-SP) disse que o resultado do julgamento “superou as expectativas”. “É um passo muito importante na nossa história, vai deixar a lição que, quem tentar dar golpe, vai sofrer as consequências, ainda mais com a condenação de militares que eram da cúpula das Forças Armadas”, afirmou à reportagem.
                                                                   Gustavo Moreno/STF
Políticos de esquerda, direita e extrema-direita compareceram nos últimos dias do julgamento
Que país é este?

A expectativa pelo voto de Cármen Lúcia era mais que latente na sala da 1ª Turma. Se a discrição marcou os bastidores ao longo do julgamento, a leveza da ministra ao votar se alastrou, fazendo surgir sorrisos e exaltações, mesmo que contidas, na sala. Em um dos momentos, Lúcia fez até mesmo o ministro Fux – de expressão séria e fechada até aquele momento – sorrir.


Outro dia, entrando na farmácia, uma pessoa me disse que vossa excelência [Moraes] era muito… não me lembro a palavra, mas não foi muito bacana. Ela disse assim: ‘Só porque falou que queriam neutralizá-lo. Neutralização não é ruim’. Como assim? Ela disse: ‘Uma amiga minha que fez neutralização ficou muito bem’. Não, a senhora está confundindo com harmonização
Cármen Lúcia
Ministra do Supremo Tribunal Federal

Como em outras vezes, Lúcia trocou o ‘juridiquês’ por frases marcantes e citações literárias. Ela abriu seu voto citando parte dos versos iniciais do clássico poema de Affonso Romano de Sant’Anna, “Que país é este?”, que começa assim:“Uma coisa é um país

outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.”


Durante o voto de Cármen Lúcia, a maioria da 1ª Turma fez questão de mostrar sua sintonia quanto à condenação dos réus no caso. Sem o refinamento da ministra, o relator da ação pediu para se manifestar, exibindo um vídeo e uma sequência de fotos. As imagens remontavam a crise golpista – dos ataques do então presidente, Jair Bolsonaro, contra o próprio Moraes, no 7 de setembro de 2021 na avenida Paulista ao 8 de janeiro na Praça dos Três Poderes.

“Se isso não é ameaça… falar que não vai mais cumprir ordens judiciais não é uma grave ameaça?”, dizia exaltado o ministro, sob o olhar de Luiz Fux – de posição totalmente oposta à dele. “Vejam, havia até pedidos de intervenção militar em inglês! Já estavam preparando o ‘passeio’ para a Disney…”, alfinetou Moraes.

Vale lembrar que, durante o ataque em 8 de janeiro de 2023, o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, também condenado nesta quinta-feira, estava em Orlando, na Flórida (EUA) – conhecida por abrigar um parque de diversões da Disney. Sua defesa no caso usou esta viagem para alegar sua inocência na trama, sem sucesso.

                                                                          Victor Piemonte/STF
Voto de Cármen Lúcia formou maioria pela condenação

                                                          Antonio Augusto/STF
Ministros exibiram vídeos e uma sequência de fotos da crise golpista

                                                                             Antonio Augusto/STF
1ª Turma fez questão de mostrar sua sintonia quanto à condenação dos réus

Entre as defesas, um jovem advogado

Entre o lado derrotado, certamente a defesa do general Augusto Heleno foi quem mais se destacou. Até o voto de Luiz Fux, não era possível afirmar que o ex-ministro do GSI seria de fato condenado.

Ao fim da primeira sessão da semana decisiva, na terça (9), o ministro Flávio Dino chegou a amenizar o papel do general na trama, sugerindo penas menores do que as previstas no Código Penal. O gesto causou surpresa na sala da 1ª Turma, fazendo com que o presidente Zanin encerrasse, logo na sequência, a sessão do dia.

O advogado do general Heleno, Matheus Mayer Milanez, contou à Pública que Dino foi um dos três ministros com quem teve audiências nas semanas anteriores ao julgamento – os outros dois foram Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. “Fiz o que podia: expus aos ministros as contradições da investigação e da denúncia, e o ministro [Dino] foi muito atencioso”, disse Milanez.

                                                    Luiz Silveira/STF  e  Rosinei Coutinho/STF
Advogado de Heleno, Matheus Mayer Milanez, disse à Pública que Dino foi um dos três ministros que o recebeu antes do julgamento


Mesmo com a decisão mais branda de Dino, o advogado não se mostrou empolgado, talvez já prevendo a futura condenação. “Por mais que o ministro tenha sugerido penas menores, se você somar todas as penas mínimas ainda dariam mais de oito anos de reclusão. Esse tempo para um senhor de idade avançada é uma ‘sentença de morte’”, afirmou Milanez à reportagem.

Nascido em Campinas (SP), o advogado de Augusto Heleno contou ter assumido a defesa do general por indicação de “um amigo”, por ter experiência no Direito Militar. Milanez também representa Heleno legalmente em outro caso correndo no STF, a investigação da chamada Abin Paralela. Mesmo com o resultado negativo para seu cliente, ele já tem colhido frutos de seu trabalho.

“Se tem um lado positivo disso tudo, é que tenho visto um aumento no número de seguidores nas minhas contas em redes sociais. Em uma semana, a quantidade pulou de pouco mais de 5 mil seguidores para quase 60 mil… o jeito é aproveitar esse momento de exposição nacional, já estou até produzindo mais conteúdos, com apoio da minha equipe”, disse Milanez.

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