PREGAÇÃO POLÍTICA E FAKE NEWS: A ESTRATÉGIA DE PASTORES E ALIADOS DE BOLSONARO PARA TIRAR VOTOS DE LULS NO NORDESTE



Culto da Assembleia de Deus em Salvador: pastor é deputado federal e participou de reunião com Bolsonaro em Brasília para a definição de estratégias no segundo turno Felipe Iruatã/Agência O Globo

Reportagem do GLOBO percorreu quatro estados e identificou sermões contra 'quem quer fazer o diabo entrar na família' e falsas notícias sobre banheiro unissex para reverter desvantagem eleitoral do presidente na região, maior reduto do candidato do PT


Por Eduardo Gonçalves — 
Enviado especial: Salvador, 
Maceió, Recife e Teresina


Às 19h40m do último domingo, cerca de mil pessoas acompanhavam o culto na Igreja Universal do Reino de Deus do bairro de Pituba, um dos maiores templos evangélicos de Salvador. De pé no púlpito, o pastor Leonardo Costa alternava pedidos de votos para o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o candidato a governador da Bahia ACM Neto (União) com uma pregação apelando para os fiéis combaterem quem “quer fazer o diabo entrar na família” e obedecerem “o altar”. Sobre sua cabeça, um telão exibia slides. Um deles alertava sobre os supostos riscos de um projeto de lei “da esquerda” que, segundo a falsa versão do líder religioso, legalizará o incesto caso seja aprovado no Congresso:

— Aí vai o teu marido e fala assim: ‘Eu vou casar com a nossa neném de 4 anos e já vou começar a ter sexo com ela agora’. Nós estamos pedindo a você: vote contra isso aqui, vote contra essa lei — alardeava o pastor diante da plateia que reagia com espanto e gritos de “o sangue de Jesus tem poder”.

— E quem é o altar? O altar é 44 (número de ACM). O altar é 22 (Bolsonaro) — afirmava o líder religioso.

Procurada, a Igreja Universal do Reino de Deus disse em nota que promove “a conscientização de seus membros sobre a importância da escolha de candidatos com valores cristãos” e que orienta os seus bispos e pastores a sempre cumprirem as leis.


Ofensiva eleitoral — Foto: Editoria de Arte


O episódio ocorrido em Salvador revela a trincheira escolhida pelo bolsonarismo para penetrar na barreira petista e conquistar votos no Nordeste. A região aplicou ao presidente a maior derrota que sofreu no primeiro turno: o mandatário somou 26,8% dos votos contra 67% do seu principal oponente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) (veja mapa de apuração). A estratégia colocada em prática pelo candidato do PL para reverter esse placar desfavorável é perceptível em quatro estados — Bahia, Alagoas, Pernambuco e Piauí — percorridos ao longo de uma semana pela reportagem do GLOBO.


Esse plano de contra-ataque no Nordeste começou a ser traçado quatro dias após o primeiro turno numa série de reuniões entre o presidente e seus aliados no Palácio da Alvorada, em Brasília. A ordem era clara: intensificar a campanha nas igrejas evangélicas, segmento em que Bolsonaro já tem maioria, mas, na avaliação dos seus estrategistas, encontra margem para crescer e furar a bolha lulista na região. O pastor e deputado federal reeleito Alex Santana (Republicanos-BA) foi um dos convocados para essa missão. No domingo passado, ele comandava o culto na sede da Assembleia de Deus em Salvador. Com microfone em punho, o parlamentar agradecia os votos recebidos e contava o que ouvira:

— Na segunda-feira, recebi uma ligação do presidente da República. Na terça, estivemos em Brasília para pedirmos oração às nossas igrejas e aos irmãos. É importante que, além de orarmos pela vida do presidente, nos preocupemos em convencer familiares e amigos da necessidade de mantermos o presidente

Tripé de atuação


Michelle Bolsonaro em evento no Piauí — Foto: Reprodução/Instagram

A operação arquitetada pela campanha de Bolsonaro para conquistar votos no Nordeste é sustentada por três frentes de atuação. A primeira envolve utilizar a rede de templos evangélicos para difundir uma pregação política a favor da reeleição do presidente. As outras duas miram especificamente em mulheres e jovens cristãos. Para arrebanhar esses dois públicos, foram escalados a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o vereador de Belo Horizonte Nikolas Ferreira (PL), de 26 anos, que foi o deputado federal mais votado do Brasil em 2022. Nos próximos dias, Nikolas deverá percorrer ao lado do pastor influencer Guilherme Batista cidades como Aracaju, Maceió, Recife e João Pessoa.

Na sexta-feira, a primeira-dama desembarcou em Teresina, capital do Piauí, onde participou de um evento com mulheres. Cumprindo à risca um dos papéis aos quais foi designada, ela tentou suavizar a imagem de Bolsonaro, rejeitado por mais da metade do eleitorado feminino, de acordo com a última pesquisa do Datafolha. Ao discursar, Michelle classificou o marido como um homem “regido por valores cristãos” e que “sempre teve muito carinho pelo povo nordestino” — o presidente já se referiu a eles como “cabeça chata” e “pau de arara”. Em outro momento de sua fala, ela partiu para o ataque e lançou mão do discurso religioso para demonizar adversários políticos.

— É por uma ideologia do bem contra o mal, da luz contra esse partido das trevas, que só rouba e destrói. Cada um aqui tem um parente e um amigo que não está enxergando o que estamos passando. Meus amados, orem, rezem, intercedam por eles.

O episódio rendeu críticas e desgaste à campanha do presidente. O Ministério Público Federal cobrou explicações do governo federal.

Frequentador da Igreja Quadrangular em Salvador há uma década, o mecânico Leandro Cardoso, de 38 anos, diz nunca ter visto tantas pregações políticas no púlpito como agora. Depois de ter votado no PT nos últimos pleitos, ele decidiu migrar para Bolsonaro no primeiro turno:

— Bolsonaro fala muita besteira, mas não é o culpado de todos os problemas. Eu não vou votar em alguém que foi julgado, condenado e preso — disse, referindo-se a Lula, mas indicando que pode se abster por causa das horas que passou na fila para votar no primeiro turno. — Eu não vou perder o meu tempo enquanto esses dois ficam brigando.

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