Ex-comandante da PM admite relação com o jogo do bicho

Coronel Scheremeta desmente secretário de Segurança sobre os motivos de sua exoneração e chora ao contar como foi demitido do cargo
O ex-comandante da Polícia Mi­­litar (PM), o coronel Marcos Theo­doro Scheremeta, se despediu da chefia da corporação com o que classificou como uma “revelação”: ele admitiu manter relacionamento com gerentes do jogo do bicho de Curitiba e da chamada máfia dos caça-níqueis. Magoado, o coronel afirmou em entrevista coletiva que foi exonerado do cargo não por questões pessoais, mas por “desgastes” no relacionamento com o secretário de Segurança Pública, Reinaldo de Almeida César. A “despedida” também foi de lágrimas. Scheremeta chegou a chorar ao relembrar que foi avisado da demissão do cargo, por meio de um telefonema de familiares. Quando recebeu a ligação, o coronel cumpria agenda em Foz do Iguaçu e estava sentado ao lado do secretário e do governador Beto Richa (PSDB). “Como é que vocês acham que devo me sentir?”, soluçou.

Scheremeta mencionou que o seu pai – já falecido – foi gerente de casas lotéricas e que “trabalhava” com jogos de azar. O coronel assumiu que, por causa disso, até hoje mantém relacionamento com pessoas que gerenciam o jogo do bicho e operam máquinas caça-níquel. Mas garantiu que isso não influenciou nas ações de combate da PM aos contraventores. “Eu conheço amigos de meu pai que até hoje trabalham [com jogo do bicho e caça-níqueis]. Converso com eles por telefone, me encontro com eles. Eu avisei que determinei todo rigor em tudo [nas investigações sobre as contravenções]”, afirmou.

O coronel convocou a coletiva – ocorrida no mesmo horário da apresentação do novo comandante da PM, coronel Roberson Bondaruk – por causa de uma reportagem que seria exibida no programa Fantástico, da Rede Globo. A matéria trataria da existência de um suposto vídeo que mostraria Scheremeta almoçando com os chefões do bicho.

Scheremeta negou ter envolvimento direto com as contravenções e que tenha recebido dinheiro originado dos jogos de azar. Em seguida, o ex-comandante apresentou um relatório de ações da PM contra o jogo do bicho e os caça-níqueis. O coronel afirmou que municiou a Polícia Federal (PF) com informações levantadas pelo serviço de inteligência da PM, indicando pontos de jogos ilícitos em todo o estado.

Hospital da PM

Contradizendo declarações do secretário de Segurança (que alegou que Scheremeta se desligou do comando da corporação por “motivos pessoais”), o coronel assegurou que sua saída se deveu a um desgaste. O atrito, segundo o ex-comandante, ocorreu por uma série de fatores, entre as quais, a decisão que colocou o Hospital da PM à disposição também dos servidores públicos estaduais de Curitiba e região metropolitana conveniados ao SAS – o Serviço de Assistência ao Servidor.

“Sou contra a maneira como o processo se deu. Eu estava em viagem e nunca fiquei sabendo de nada, nunca me chamaram para uma reunião. Não fui consultado”, disse. “Isso gerou indignação nos policiais e eu fiquei do lado da minha tropa”, complementou.

       


“Já fazia algum tempo que ele [Scheremeta] me dizia que estava sobrecarregado de trabalho. Ele me pediu para que tanto quanto fosse possível houvesse uma transposição, uma transição de comando.” Reinaldo de Almeida César, secretário de Segurança Pública do Paraná, em entrevista na manhã de quinta-feira, quando anunciou a troca de comando da PM

Almeida Cèsar garante que saída de Scheremeta foi em acordo

O secretário da Segurança Pública, Reinaldo de Almeida César, disse ontem, durante a coletiva em que apresentou o novo comandante-geral da PM, que a saída do coronel Marcos Scheremeta ocorreu em comum acordo. De acordo com o secretário, o coronel se reuniu com ele na terça-feira, quando ficou sabendo que sairia.

Almeida César nega qualquer problema com o coronel, apesar de ter enfatizado que o novo comandante, o coronel Roberson Bondaruk, segue a mesma linha dele e do governo do estado. Sobre a polêmica envolvendo o Hospital da Polícia Militar (HPM), o secretário ressaltou que Scheremeta jamais reclamou de o governo ter aberto o HPM a todos os servidores públicos. “Ele nunca falou sobre o hospital pra mim. O governo não vai prejudicar o atendimento aos policiais”, afirmou. De acordo com o secretário, houve momentos da polêmica sobre o HPM mais críticos que poderiam ter causado a saída do coronel.

Sem constrangimento

O secretário ainda ressaltou que tinha conhecimento das operações da Polícia Federal contra o jogo do bicho (em Curitiba) e contra o contrabando de cigarro (no Oeste do estado), que acabou resultando na prisão de vários policiais. “Essas atribuições são concorrentes entre as polícias”, disse, negando que a ação da PF tenha causado constrangimentos.

O secretário foi novamente procurado após a coletiva de Scheremeta para comentar as declarações do ex-chefe da PM, mas a assessoria de Almeida César informou que ele não comentaria mais nada.
 Felippe Aníbal, Diego Ribeiro e Kátia Brembatti
Colaborou Karlos Kohlbach


GAZETA SANTA CÂNDIDA,JORNAL QUE TÊM O QUE FALAR

Postar um comentário

0 Comentários