CRBE dos emigrantes pode implodir

CRBE anula expulsão de suplente, correspondente do Correio do Brasil, enquanto a titular Ester Sanches Naek se rebela contra tutela do Itamaraty e pede uma Secretaria de Estado dos Emigrantes.

Pelo menos três pessoas estão comendo nestes dias o seu chapéu, ou roendo suas unhas. O tiro saiu pela culatra.

No dia 3 de maio, essas pessoas chegaram em Brasília, na reunião de trabalho do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior, CRBE, com dois rascunhos de uma petição ao embaixador Eduardo Gradilone, pedindo a cabeça de um suplente. Uma versão mostrava ser realmente alguma coisa pessoal, foi rejeitada, a outra era mais soft e começou a circular.

Dois dias depois, reunidos com uma equipe de advogados do Itamaraty, o rascunho da petição foi colocada sobre a mesa, indagando-se se estava conforme manda a lei. Os advogados, sem emitirem um juizo de valor, explicaram como se faz uma petição dentro das normas e o rascunho com as anotações foi passado a limpo.

No dia 6 de maio, colheram-se as últimas assinaturas e o documento foi entregue oficialmente ao embaixador Eduardo Gradilone, responsável pela Sub-Secretaria-Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior.

Como alguns não quisessem assinar, os três inquisidores tinham se mobilizado para dourar a pílula e inventar a versão de que se tratava de uma simples advertência, seria um afastamento por três meses como punição, com o objetivo de forçar o suplente a parar de escrever, aqui no Direto da Redação e no Correio do Brasil, seus textos em favor de uma política de emigração sem a tutela do Itamaraty.

Era lamentável. Fazia apenas cinco meses que o presidente Lula empossara os 16 titulares do CRBE e a intolerância, o despotismo e mesmo a inveja de alguns, aproveitando-se da inexperiência política da maioria, iria provocar a implosão do Conselho.

Não se pode esquecer também do episódio, no qual o presidente do CRBE, Carlos Shinoda, propos uma reconciliação desde que o suplente « se retratasse e publicasse no Direto da Redação e no Correio do Brasil desculpas públicas ». Um absurdo total.

Mas essa atitude intolerante e anti-democrática acabou tendo um resultado positivo. A campanha de esclarecimento que se seguiu, com artigos e abaixo-assinado, mobilizou emigrantes e abriu os olhos para muita gente, inclusive titulares do próprio CRBE que tinham sido « enrolados na farinha ».

Infomaram-me também, por vias indiretas, que a petição pedindo minha expulsão, sob o termo de afastamento definitivo, foi indeferida ou considerada improcedente pelo jurídico do próprio Itamaraty, pois o delito de opinião não existe no Brasil desde o fim da ditadura.

Com uma batata quente nas mãos, que poderia causar problemas se alguém levasse esse caso à presidenta Dilma, o Itamaraty decidiu devolver a batata aos membros do CRBE, ficando com eles a responsabilidade do caso. Essa decisão foi tomada neste fim-de-semana.

Um informe que me veio pela Wikileaks afirmava já haver, no sábado, 11 votos pelo arquivamento do processo de expulsão e apenas 2 pela expulsão, enquanto três pessoas não tinham ainda votado, inclusive o próprio presidente do CRBE, Carlos Shinoda. Mas para arquivar o processo bastavam 9 votos, ou seja, foi anulado o pedido de expulsão.

Esse « lava mãos » do Itamaraty, lembra o antológico Pilatos, mesmo porque, em maio, o Itamaraty, na reunião citada, já poderia ter posto um fim à pretensão dos intolerantes. Bastaria tê-los alertado sobre as consequência desse ato. Ou será que esperava se livrar do incômodo suplente pelas mãos do macado Tião ?

O resultado final, além do risco de uma próxima implosão do CRBE, favorece os emigrantes. O projeto do órgão institucional emigrante sem a tutela do Itamaraty cresceu, tomou corpo e entusiasma até alguns titulares, que, nestes nove meses, constataram a ineficácia do CRBE e sua função principal de show, razão pela qual agora faz parceria com o empreendimento comercial Focus Brazil.

Não temos nada contra o Itamaraty, cuja política externa tem sido excelente. Mas seus dirigentes devem se conscientizar que o Instituto Rio Branco não formou diplomatas para administrarem e tutelarem os emigrantes. Diplomatas e emigrantes são realidades diferentes, embora se encontrem no Exterior.

Uma verdadeira política de emigração deverá reconhecer os emigrantes como uma entidade juridicamente capaz de assumir suas próprias responsabilidades dentro de um órgão institucional, uma Secretaria de Estado dos Emigrantes.

A verba destinada à Sub-Secretaria Geral das Comunidades Brasileiras no Exterior, composta e dirigida por diplomatas e agregada ao Itamaraty, não tem razão de ser. Essa verba deve ser destinada na sua integralidade à criação da Secretaria de Estado dos Emigrantes. Mesmo porque muito do que se faz com os emigrantes não depende do Itamaraty mas do Ministério do Trabalho e do próprio Ministério da Educação.

É hora de se acertar a política da emigração, considerando-se estes três anos como um aprendizado, como um passo de bebado, mas um passo necessário.

Convido todos para lerem o depoimento da conselheira titular do CRBE, eleita pela região América do Norte e Caribe, Ester Sanches Naek (foto) , cujo teto está no rodapé desta coluna. É um importante documento sobre a inutilidade do CRBE.

Convido os leitores residentes em Boston, Nova Iorque e Newark e arredores para participarem dos encontros que serão realizados nos dias 5, 7 e 8 nessas cidades, em parceria com o jornal Brazilian Times e comunidades locais.

Nesses encontros serão divulgados importantes apoios de titulares do CRBE ao projeto da Secretaria de Estado dos Emigrantes e se lançará a Frente pela Emancipação dos Emigrantes.

Até lá, quando poderemos nos conhecer pessoalmente.

COM A PALAVRA A CONSELHEIRA TITULAR ESTER SANCHES NAEK

Bom dia Conselheiro Aloysio e demais Conselheiros!

Quero aproveitar este assunto “Rui Martins” para expressar minha opinião e desde já peço desculpas se ofenderei principalmente os idealizadores do CRBE.

Somos todos voluntarios e confesso que não estamos recebendo da SGBE o respeito que merecemos, por estarmos execendo esta função como voluntários para a nossa Pátria e os nossos compatriotas mundo afora.

Eu tive a oportunidade de viajar por varios lugares nestes 9 meses como conselheira: visitei diversas comunidades, embaixadas e consulados. Tratei com cônsules, embaixadores e conversei com vários membros de nossas comunidades mundo afora.

Fui à Franca, Vienna, Budapest, Republica Checka, Canada, embaixada do Pakistão (fiz contato com o país também através do embaixador de lá), aqui nos EUA visitei varios Estados e várias comunidades e, no Brasil, eu fiz parte da Missão Consular em Minas Gerais, realizada pela SGEB em junho passado.

Visitei a Chefe da Casa Civil de Minas Gerais, o prefeito de João Monlevade e fiz contato com o de Poços de Caldas (cidades de onde vem o maior número de brasileiros no Exterior) e por sugestão do embaixador Gradilone, marquei uma reunião com o embaixador dos EUA no Brasil para tratarmos da discriminação que os mineiros da região de Governador Valadares sofrem, quando vão aos consulados americanos requerer os vistos.

Estou em contato direto com o presidente Shinoda (que inclusive me visitou), a Siham, a Carla Bahia e outras pessoas em diferentes regiões do mundo. O embaixador Gradilone sugeriu que a reunião com o embaixador dos EUA no Brasil fosse marcada para a semana da IV Conferencia, que aconteceria em Brasilia entre 5 e 7/10. A conferência foi adiada e eu pedi para a SGEB arcar com minhas despesas, pois nao cancelaria a reunião com o embaixador (dos EUA) e até hoje nao me responderam. Me IGNORARAM.

Depois da reunião de missão consular que participei em Belo Horizonte e Ipatinga, sugeri que o prefeito de João Monlevade, Minas Gerais, fosse convidado para participar da II Reuniao de missao consular que acontecerá em Brasilia, dia 6/10. A cidade de João Monlevade é um polo importantíssimo, com um grande número de seus naturais residentes mundo afora e lá tem 2 empresas multinacionais e 5 faculdades, alem de um comércio riquíssimo e que muito poderia contribuir para os objetivos da missão consular.

Fui a João Molvade com recursos próprios e apresentei para o prefeito o decreto, os dvd`s das 3 conferencias, a Ata Consolidada e o Plano de Ação. Foi uma reuniao muito produtiva. Pedi à SGBE para escrever uma carta de agradecimento pelo prefeito estar me recebendo e eles me IGNORARAM completamente, nem deram resposta.

A ministra Luiza Lopes foi designada pelo embaixador Gradilone para orientar o nosso grupo de mulheres brasileiras (Brasileiras in Power) juntamente com as quatro titulares do CRBE para recepcionarmos a Presidenta Dilma, na semana quem vem, quando ela estará aqui para a reunião de presidentes que acontecerá na ONU. Enviei varios requerimentos e ela IGNOROU COMPLETAMENTE. Nunca nem respondeu os milhares de e-mails que mandei.

Quando realizamos aqui o encontro do CRBE América do Norte, pedi ao conselheiro Aloysio que pedisse ao consulado de Hartford para fazer as cópias do plano de ação que distribuímos na reuniao, afinal ficaria muito caro, pois são mais de 40 paginas cada e eu faria pelo menos 50 copias. A resposta foi NÃO – pelo menos ele nao ignorou.

Fiz uma sugestÃo ao Consulado do Brasil em NOVA YORQUE para acelerar o processo de deportação de um preso que estava na cadeia de New Jersey mais de 3 anos, e poderia sair pois já havia cumprindo 1 terço da pena, e o embaixador de lá ficou ofendido e me chamou atenção de maneira grosseira em frente à comunidade, dizendo que eu havia feito errado por ter mandado o pedido com copia para o Itamaraty, que enviou uma correspondência chamando a atenção dele. Em frente de pessoas como Carlos Borges, jornalista China, etc. Fiquei com vergonha!

E por aí, mundo afora, a comunidade está triste. A Queila está realizando um trabalho super legal em Vienna, com apoio do governo autríaco e da comunidade de lá, e por uma questão que acho até pessoal, o embaixador não a apoia. Estive lá pessoalmente e como eu já era conhecedora do problema, pedi à embaixada que enviasse nem que fosse o faxineiro de lá para representar o governo brasileiro naquele evento de super promoção do Brasi e o meu pedido como cidadã, pois eu não estava ali como conselheira, foi IGNORADO. LITERALMENTE IGNORADO, SEM NEM SEQUER RESPOSTA.

Em Toronto, a esposa do Embaixador consul-geral de lá e a vice-consul passaram a competir com a comunidade em discussões que iniciamos de como organizar a comunidade lá, daí, quando eu discretamente reclamei com o embaixador, fui completamente IGNORADA. O embaixador de lá nunca mais respondeu meus e-mails, inclusive o para fazer uma reunião com a Câmara de Comércio para iniciarem ajudas financeiras para as instituições já existentes.

Voces sabiam que o Chanceler Patriota ficou completamente ferido quando no inicio de nosso mandato reivindicamos ajuda ao Egito, pedimos passaporte diplomático, ajuda à Siria etc. e que ele nao quer nem saber deste conselho?! Como muitos diplomatas que nao suportam a comunidade, não querem ajudar e muito menos lidar com gente como a gente?! (Logicamente toda regra tem exceção e encontrei diplomatas maravilhosos prontos para colocar a mão na massa e outros já com as mãos nela). Ficou ofendido porque?

O Presidente Shinoda e o Ronney me disseram que desde que a conferência foi adiada, eles pedem uma explicação justa para passar para a comunidade e enviaram sugestoes, sabem o que aconteceu? FORAM COMPLETAMENTE IGNORADOS!

Espera ai… Este conselho foi criado para que? Para sermos ignorados? Qual a razão pela qual ele foi criado? Será que foi para não tirar do Itamaraty o controle de nós brasileiros no mundo? Ou sera que existe um razao financeira atrás disso tudo?

Desculpe-me pela franqueza, mas quando deixam o ser humano sem explicação, ele tem direito de pensar o que quer.

Está contecendo em Massachusstts a reuniao do trabalhador. Idéias nossas na reuniaão de maio (do Fausto mais especificamente). Dei a sugestão de convidarem instituições em NJ e NY que tratam do mesmo assunto, mas não recebi respostas se elas foram ou nao convidadas. Isto foi definido em maio, lá em Brasilia. O Fausto me disse que ele foi convidado para a primeira reunião e deu uma opinião que os demais discordaram e ele não foi mais chamado para as outras reuniões de preparação do evento.

Confesso, pessoal, que depois de tantos esforços e dedicação, usando recursos próprios, trabalhando como voluntária, eu estou ofendida e pela primeira vez concordo com o Rui Martins.

Acho que se temos um decreto assinado pelo presidente, fomos empossados, porque não sermos independentes? O Rui está certo! Deveriam criar o Ministério das Comunidades Brasileiras no Exterior, com orçamento, legitimidade, reconhecimento e respeito (como diz o Jorge Costa). Eu iniciarei uma campanha para este Ministerio das Comunidades Brasileiras no Exterior ser criado.

Na semana do dia 4/10 me reunirei com 2 deputados da Comissão de Relações Exteriores e já apresentarei a proposta. Não é só o Rui que pensa assim não, são vários lideres comunitários de peso e influência, incluindo representantes mundo afora.

E para finalizar, para ser sincera acho que o Rui deve ficar no Conselho sim! Porque nao? Quem neste conselho é melhor do que ele? Quem neste conselho esta recebendo mais atenção do que ele? Quem neste conselho está recebendo despesas pagas e reconhecimento? Ele tem a opinião dele desde antes das conferências de Brasileiros no Mundo iniciarem.

Eu me lembro perfeitamente da posição dele no I Encontro de Brasileiros no Mundo, quando eu fui obrigada a me levantar e pedir a ele respeito fazendo-o parar com os maus tratos que ele estava dando ao Embaixador Oto Maia; ele nao mudou. Ele nao é uma revelação!

Ele é quem é, desde o primeiro momento que o conhecemos. Se ele nao foi proibido de entrar e entrou pela porta; nao deve ser expulso pela janela.

Parem e pensem: estamos todos sendo ludibriados e com uma pitada de açucar em nossas bocas para nos calarmos, como essa idéia agora de dar título de consul honorario para os conselheiros. Ideia mais absurda!

Fica ai a minha opinão e o meu desabafo. Mais uma vez, peço desculpas por minha franqueza, mas ela revela toda a minha frustração e desapontamento.

Grande abraço! Ester

(Publicado originalmente no Direto da Redação)

Rui Martins, jornalista, escritor, líder emigrante.

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