MASTER DO PARAGUAI




Por aqui, depois de seis dias de quedas seguidos pós-eleições, tivemos o primeiro dia positivo. A ironia é que o motivo também foi eleitoral, mas lá dos EUA com a vitória dos democratas nas midterms - derrubando os juros dos Treasuries e enfraquecendo o dólar no mundo todo. Nem a queda de -7,08% da Petrobras foi suficiente para jogar o Ibovespa pra baixo. O dólar recuou 0,65% e os os juros futuros recuaram até 40 pontos-base ao longo da curva, enquanto o mercado esperava a decisão do Copom, que seria anunciada depois do fechamento e manteve a Selic em 13,75%, interrompendo o ciclo de cortes.


Lá fora, os democratas se sobressaíram nas duas casas e WS gostou: o Dow disparou 3,03%, no melhor dia desde abril de 2025, o S&P 500 subiu 1,58%, na maior alta em três meses, e a Nasdaq avançou 1,44%. O mercado leu o resultado como trava para novos gastos e para a política de Trump. O Treasury de 10 anos recuou pra perto de 4,89%, o VIX caiu quase 20%, e o WTI despencou 8% com a aposta de que a pressão para encerrar a guerra com o Irã vai aumentar.

EARNINGS

Itaú: o relógio suíço no meio do furacão


Lucro de R$ 12,6 bi foi praticamente cravado no que o mercado esperava. Carteira cresce, mas o custo do crédito sobe na mesma proporção.


A aposta perdida da Faria Lima nas eleições derrubou o Itaú em ~20%, tirando o equivalente a 2 anos de lucro do valor de mercado. Mas aí chegou o balanço do trimestre com a coisa mais Itaú possível: números exatamente onde o mercado esperava.


Os números do trimestre:


Lucro líquido: R$ 12,6 bilhões, alta de 6,2% x R$ 12,58 esperados.
Carteira de crédito ampliada: R$ 1,544 trilhão, crescimento de 10,2% no ano.
ROE: 23,6%, recuo de 0,7 p.p.
Inadimplência de PMEs: 2,1%, quinta alta trimestral seguida.


Emprestar é o motor: a carteira BR avançou 10,9% (acima do teto do guidance), com destaque para PMEs, consignado e financiamento imobiliário. Resultado: mais crédito ajudou a margem com clientes a alcançar R$ 33,3 bilhões.


Mas queima combustível: o custo de crédito subiu na mesma proporção. Ou seja, o Itaú está correndo mais, mas chegando no mesmo lugar.


E nos serviços: administração de recursos cresceu 17,8%, compensando parte da queda de 26,6% em assessoria e corretagem, e de 16,9% nas tarifas de conta corrente de pessoas físicas.

O que também agradou o mercado é que as despesas subiram apenas 1,7% e a eficiência melhorou na comparação anual, ficando em 37,5% (quanto menor, menos receita é consumida pelas despesas.)

Para os Bulls: ROE de 23,6% num trimestre em que Santander e Bradesco derraparam, inadimplência de PF permanece estável e capital sobrando pode gerar dividendo gordo. Depois da queda pós-eleição, é o melhor banco do país sendo negociado a 9x P/L.

Para os Bears: o crescimento é todo volume, comprado com margem ajustada ao risco menor. As tarifas não crescem, as PMEs pioram, e lucro previsível não protege ninguém de ciclo de crédito virando.


O Itaú entregou exatamente o trimestre que prometeu. O problema é que o mercado já não está precificando o trimestre. Com o macro jogando contra, nem o melhor balanço do setor tem muito o que fazer.

Recomendação dos analistas:


Compra forte: 2 | Compra: 8 | Neutro: 3 | Venda: 0
Preço-alvo médio: R$ 49,69 | Preço atual: R$ 39,71
Potencial: +25,14%


MACRO/AÇÕES


→ Copom: em cima do muro, com vista pra Brasília.
→ BCE: Christine Lagarde deixará presidência do Banco Central Europeu antes do fim do mandato.
→ Impostos: Brasil poderá ter o maior IVA do mundo a partir de 2027.
→ Endividamento: renova recorde e pressiona mais a inadimplência.
→ Agronegócio: amplia pessimismo após vitória de Lula, com crédito caro e inadimplência.
→ FIIs: boom de galpões chega aos aeroportos.
→ WEG: volta ao radar da XP, que diz que ações podem subir até 24%.
→ Raízen: ação estreia em novo código na B3 (RAIZ55).
→ Cogna: sofre com a nova recomendação do Citi.
→ Assaí: Irmãos Muffato se tornam maiores acionistas após elevar participação a 15%.
→ Suzano: fábrica que fechou neste ano terá nova dona e pode voltar a operar.
→ Tim Brasil: possível venda já movimenta bancos de investimento.
→ Marisa: o varejo enxerga a escala 5x2 como pressão de custos. Na Marisa, pode ajudar com a virada do negócio.
→ Binance: hackers usaram entrevista de emprego falsa em ataque de US$ 6,3 bilhões
→ BYD: avança sobre rivais no Brasil, dobra fatia de mercado e quer ser líder até 2030.
→ Petrobras: Fitch reitera notas de crédito e mantém perspectiva estável.
→ Gafisa: adia novamente divulgação de resultados do 2º trimestre.
→ BB Seguridade: lucro cai 5% no 3º trimestre, para R$ 2,4 bilhões.


BANCOS

O Paraguai também tem seu Master


Oito executivos ligados ao Ueno Bank foram presos após a intervenção do BC paraguaio no banco digital.


Imagine o presidente do BC mandando intervir no banco que ele mesmo comandava antes de assumir o cargo. No Paraguai, a imaginação é vida real: Carlos Carvallo presidiu o Ueno, foi para o BC, interveio em meio à crise do ex-banco e agora assinou a própria renúncia.

O Ueno é um banco digital com quase 3 milhões de clientes (numa população de ~6,5 mi) e maior emissor de cartões de crédito do país. Ele administra +US$ 800 milhões em recursos públicos, sendo ~US$ 380 milhões da Previdência.

Primeiro, o índice de solvência (que mede o capital que o banco tem para absorver perdas) caiu para menos da metade do mínimo exigido.

Depois, como a lei obriga o regulador a agir, o BC paraguaio interveio no Ueno. Junto a isso foi descoberto que o banco emprestava o dinheiro dos clientes para empresas dos próprios donos - e esse dinheiro não voltava.

Resultado: oito executivos ligados ao banco e ao Grupo Vázquez, seu controlador, foram presos por suspeita de fraude. No meio do caos, todos os serviços foram suspensos: app, cartões, caixas eletrônicos e internet banking.


Se o roteiro pareceu familiar, é porque o Brasil acabou de assistir um filme parecido com o Banco Master. Nos dois casos:

Grande volume de dinheiro de fundos de previdência públicos aplicado no banco.

Suspeita de operações que beneficiavam os próprios donos (no Ueno, empréstimos a empresas do grupo).

Conexões próximas demais entre quem regula e quem governa.

Donos e executivos presos enquanto o sistema tenta medir o buraco.

Pro correntista comum, o FGC paraguaio cobre até 75 salários mínimos (US$ 37,4 mil) por pessoa em cada banco. Mas o dinheiro da Previdência e dos fundos de aposentadoria que ficou preso na instituição deve ficar a ver navios.

Detalhe político: os depósitos do governo no Ueno dispararam desde que o presidente Santiago Peña assumiu, em 2023. Em junho, 29% de todo o dinheiro depositado no Ueno era do próprio governo e os protestos já pedem até o impeachment de Peña por isso.

Esse é mais um caso para ensinar ao investidor brasileiro, que ainda conta os estragos de Master e BRB: banco que cresce rápido demais com dinheiro público e amigos em cargos-chave é case de sucesso alerta vermelho. E é a sociedade quem paga a conta!

STOCK MARKET

HIGHS AND LOWS


o que subiu e o que desceu nos pregões pelo mundo


Em alta


Duolingo: ▲ 25,99%, com o salto de 29% no número de usuários ativos diários e uma melhora nas perspectivas financeiras.


Block: ▲ 15,32%, após superarem as expectativas de lucro trimestral e elevar guidance.


Alpargatas ▲ 7,60%, com o Citi mudando a recomendação de venda diretamente para compra, destacando o preço mais atraente após a queda recente.

Em baixa


Trump Media: ▼ 24,54% após a vitória dos Democratas no Congresso, representando um golpe para a empresa parcialmente controlada por Trump.


BB Seguridade: ▼ 7,45%, com o lucro acima do esperado perdendo a disputa para o guidance - queda de 11-15% nos prêmios da Brasilseg para 2026.


Petrobras: ▼ 7,08%, com a queda do petróleo e investidores apostando em redução das tensões no Oriente Médio após a vitória democrata no Congresso americano. Já são quase -20% desde o 2° turno.


EARNINGS

Mercado: Livre. Lucro: preso


Receita recorde de US$ 10,75 bi, mas com margens comprimindo e um lucro que vem encolhendo


O carrinho está cheio, mas o problema aparece na hora de pagar o frete. O Mercado Livre entregou uma receita recorde, em US$ 10,75 bilhões, mas o esforço para entregar mais, conquistar clientes e financiar compras deixou menos espaço para o lucro. A operação cresceu bem mais que o resultado.


Receita líquida: US$ 10,75 bilhões, alta de 45% a/a.
Lucro operacional: US$ 676 milhões, queda de 6% a/a,
Margem Operacional: 6,3% x 9,8% um ano antes.
Lucro líquido: US$ 448 milhões x US$ 476 milhões esperados.


Cadê minha margem: ela foi embora, mas não por acidente. O Meli baixou o valor mínimo para frete grátis e está entregando mais pacotes - com 16% mais compras por cliente. Só que o custo disso sobe acima da receita.


Um grande negócio secundário: no Mercado Pago, a carteira de crédito chegou a US$ 17,9 bilhões, alta de 62%, puxada pelo cartão. Mas a provisão para calote subiu junto (US$ 1,34 bilhão, alta de 65%). A inadimplência de 15-90 dias ficou estável, em 7%, e é a principal carta da empresa.

Só que carteira que cresce rápido sempre parece saudável no começo, porque o empréstimo novo ainda não teve tempo de atrasar. Para bancar tudo isso, a dívida líquida saltou de US$ 4,7 bilhões no fim de 2025 para US$ 8 bilhões.

Enquanto isso, o lucro líquido recebeu ajuda de impostos menores e da redução das perdas cambiais. Ou seja, a última linha melhorou mesmo com a operação entregando menos lucro.

Para os Bulls: O Meli faz o que só líder com caixa consegue fazer, amplia a base e vende mais pra quem já está dentro. Mais clientes, mais oportunidades de monetizar com todo o ecossistema. Quando a carteira maturar, a alavancagem operacional chega de uma vez.

Para os Bears: já são 3 trimestres de lucro operacional em queda, o que começa a colocar o modelo de negócios em xeque. O frete grátis virou custo fixo e o balanço paga a conta com dívida. A operação não entrega para justificar um múltiplo de crescimento.


O trimestre foi forte em demanda e fraco na transformação disso em lucro. O modelo de negócio está ganhando escala, mas ainda precisa transformar essa escala em rentabilidade para convencer o mercado de que Mercado Livre consegue libertar mais grana.


A ação chegou a cair -10% no after-market após a divulgação dos resultados.

Recomendação dos analistas:


Compra forte: 5 | Compra: 17 | Neutro: 4 | Venda: 0
Preço-alvo médio: US$ 2.271,93 | Preço atual: US$ 1.739,88
Potencial: +30,58%


STATS


67 ações


do Ibovespa estão em bear market, ou seja, abaixo de -20% da máxima anterior. São R$ 899 bilhões que já evaporaram em valor de mercado.


Via Igor Chede Collaço




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