A ORIGEM DO FUNDO USADO PARA BANCAR 'DARK HORSE'


Havengate, que recebeu milhões de Vorcaro nos EUA, foi criado para projeto imobiliário que nunca saiu do papel



“O que é esse tal de fundo Havengate?”. No meio de toda a discussão sobre os documentos e as revelações da Vaza Flávio, essa pergunta despertou meu interesse. Afinal, o dinheiro milionário negociado pelo senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, com Daniel Vorcaro para financiar o filme ‘Dark Horse’ foi enviado pelo dono do Banco Master aos Estados Unidos por meio deste tal fundo Havengate.

Ir atrás das origens deste fundo foi, também, um aceno do passado. Já fui advogada de área financeira e tenho memória de operações complexas envolvendo fundos, empréstimos e sociedades de propósito específico.

Agora vou contar para vocês, leitores da Fechamento, a newsletter que conta os bastidores de nossas investigações, como foi essa busca – que resultou na reportagem que publicamos ontem.

Um caso tão grande como a conexão entre Vorcaro e o clã Bolsonaro vai se desdobrando em muitas investigações. Neste cenário de muitas possibilidades, cada documento é um ponto de partida.

O meu foi uma brochura publicitária de um empreendimento imobiliário, um condomínio chamado Havengate Community, que era também o único projeto listado no site da Calixsan, a financeira de Paulo Calixto, o advogado de Eduardo Bolsonaro.

Era um panfleto de divulgação sem muito mistério, mas cheio de informações que nos interessavam em relação ao fundo Havengate: quando, como, onde e por quem ele foi criado.

A partir daí, tentamos responder a uma pergunta: esse empreendimento existe? Chegou a sair do papel? Ou o fundo é apenas um meio que permaneceu disponível para usos diversos, como o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro com orçamento muito acima da média?













Havengate, “um estilo de vida”

Fui advogada por muitos anos, sou uma tradutora experiente, mas, no jornalismo investigativo, sou novata. Uma “foca”, para usar o termo mais disseminado na nossa área. Para minha sorte, a Cecília Olliveira, uma das jornalistas que eu mais admiro nessa vida, também estava curiosa com as mesmas perguntas. E partimos para a apuração.

Uma investigação dessas é um grande exercício de procurar agulha no palheiro. Um beco sem saída atrás do outro. São voltas e mais voltas tentando confirmar cada informação: desde a existência ou não de registro em órgão regulador até o endereço exato onde o condomínio prometido deveria estar.

Um passo importante nesta busca foi quando encontramos uma página de Facebook do condomínio, que tinha até vídeos promocionais sobre o projeto imobiliário. A página vai além: avisa, inclusive, que Havengate “não é uma comunidade, é um estilo de vida”.

Panfleto do projeto previa condomínio com comércio e área residencial (Foto: Havengate Community/Divulgação)

Depois de muita pesquisa online, levantando documentos e escarafunchando bancos de dados públicos, vimos que a história fazia sentido. E aí surgiu uma necessidade: alguém precisava ir lá pessoalmente, no Texas, ver se tudo não passava de um projeto que nunca saiu do papel.

Sabem aquele papo de que, se alguém diz que está chovendo, e outra pessoa discorda, cabe ao jornalista ir olhar pela janela para confirmar o que é fato? Estávamos precisando abrir a janela.




Dos documentos às ruas do Texas

O homem certo para essa missão nós já tínhamos: o Steven Monacelli. Sim, o mesmo repórter que foi lá bater na porta da casa do Eduardo Bolsonaro nos EUA – e acabou recebido pela esposa do ex-deputado, que confirmou que a família morava ali. Dessa vez, pelo menos, o trabalho era um pouco mais simples.

Steven foi até a localização indicada na brochura publicitária. Levou câmera, drone, tirou fotos, filmou a região, explicou o que havia por lá e confirmou o que já imaginávamos, àquela altura: não havia nenhum condomínio chamado Havengate Community ali.


Local onde empreendimento seria construído abriga hoje condomínio sem relação com fundo Havengate (Foto: Steven Monacelli/Intercept Brasil)

Foi a peça que faltava para fechar uma investigação iniciada ainda em maio. Tínhamos a confirmação da nossa reportagem: na origem do fundo Havengate, estava de fato um empreendimento imobiliário que, embora prometesse até green card para atrair investidores brasileiros, não se concretizou.

O fundo, em formato de “limited partnership” (parceria limitada) pela legislação dos EUA, uma espécie de pequena empresa, foi criado para investir nesse projeto. Tudo isso aconteceu em 2020, 2021.

Cinco anos se passaram e, de repente – e ainda sem uma explicação –, o fundo Havengate foi o caminho escolhido por Vorcaro, após negociar com o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro, para transferir ao menos 10 milhões de dólares do banqueiro, preso pela maior fraude bancária do Brasil, para o projeto do filme de Jair Bolsonaro.

Vale dizer que tentamos conversar com os responsáveis pelo fundo, mas não houve retorno, muito menos explicação. Aliás, essa não foi a primeira – nem será a última – vez que vamos em busca dessa resposta.

Mas, embora já tenhamos conseguido responder “o que é esse tal de fundo Havengate”, ainda estamos muito curiosos para entender as outras partes ainda não contadas dessa história. E uma coisa podemos prometer para você: vamos seguir investigando.

GAZETA SANTA CÂNDIDA, JORNAL QUE TEM O QUE FALAR

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