COMO PREPARAR O US PARA AS GRANDES TORMENTAS

Brasil começa a construir meios para proteger a saúde em eventos climáticos extremos. A aposta está na Atenção Básica, no fortalecimento das redes e na construção de baixo para cima. Uma proposta para disputar os rumos das políticas públicas diante da crise climática

SUS

Por Alexandre Padilha, Mirela Pilon Pessatti e Rafael Dall’Alba

Créditos: Unsplash

Toda vez que a água sobe no Rio Grande do Sul, que a fumaça das queimadas fecha o céu do Centro-Oeste ou que uma onda de calor acomete a saúde de idosos e crianças transformando em emergência, uma pergunta ecoa nos territórios: o que acontece quando a unidade de saúde – justamente o equipamento que deveria socorrer – também é engolida pelo evento extremo? A crise climática deixou de ser um capítulo distante. Ela bate na porta da Unidade Básica, alaga o almoxarifado de medicamentos, derruba a energia do centro cirúrgico e interrompe o cuidado exatamente quando ele é mais necessário.

A posição do Ministério da Saúde, na COP30, ratificou a urgência para atuação nas consequências dos desastres; ou seja, “a era dos alertas acabou; vivemos agora a era das consequências. Diante de um clima já alterado, não nos resta alternativa senão adaptar-nos – com planejamento, ciência, justiça climática e proteção da vida” (1).

É nesse horizonte que o Brasil começa a construir uma resposta que merece ser disputada politicamente – e compreendida em sua ambição. Não se trata de “reforçar” prédios isolados, mas de tratar a resiliência climática como política pública estruturante do SUS: uma agenda que articula diretrizes nacionais, financiamento e governança interfederativa para garantir que o sistema continue de pé, cuidando, quando tudo ao redor desmorona.

A virada técnica e política

Historicamente, o setor saúde chegou tarde ao debate climático – reativo, socorrendo depois do desastre, recebendo decisões tomadas alhures sobre meio ambiente e economia. A novidade política do momento é precisamente o deslocamento dessa posição. Com a constituição da Força Nacional do SUS, o Plano Clima 2024-2035 e, dentro dele, o AdaptaSUS – o plano setorial de adaptação da saúde –, o enfrentamento da emergência climática passa a ter endereço também no SUS, com mandato, metas e, sobretudo, orçamento. Os R$ 9,8 bilhões anunciados para adaptar o sistema são a materialização de uma decisão de poder: a de transferir capacidade decisória sobre adaptação do campo setorial-ambiental para o campo sanitário, ancorada nos compromissos do Acordo de Paris e na resolução WHA77.14 da Organização Mundial da Saúde. O setor saúde passa a ser protagonista.

E aqui reside um ponto caro à tradição da Saúde Coletiva: a resiliência não é entregue de cima para baixo. Ela se constitui no que os autores chamam de sujeito coletivo federativo — União, Estados e Municípios articulados nas instâncias tripartites do SUS (a CIT, as CIBs e seus equivalentes locais), sob o método da tríplice inclusão, que coloca trabalhadores, gestores e usuários como sujeitos da deliberação. A adaptação climática, nessa chave, passa a ser disputa democrática.

Equidade não é apêndice

Quem paga a conta mais alta da crise climática já se sabe: populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, comunidades tradicionais e moradores de periferias urbanas e áreas remotas. São territórios onde a perda de uma única unidade pode significar a ausência total de assistência em vastas extensões – onde adoecer e morrer por causas evitáveis deixa de ser exceção.

Por isso a proposta inscreve a proteção dessas populações como condição estruturante. Ao institucionalizar diretrizes nacionais por meio de um Guia Técnico de Referência para unidades resilientes, o Estado assume o compromisso de reduzir as assimetrias regionais históricas – o mesmo padrão de desigualdade que sempre atravessou o SUS – e de orientar o investimento público pelas vulnerabilidades socioambientais.

A expressão concreta dessa capacidade de antecipar e responder tem nome conhecido: Atenção Primária. São as Unidades Básicas, as Equipes de Saúde da Família e os Agentes Comunitários que conhecem o córrego que transborda, a encosta que desliza, a casa que alaga. São eles que ajudam a escolher terrenos seguros para novos equipamentos e que medeiam o diálogo entre o saber técnico da arquitetura e da engenharia e a experiência viva de quem habita o território. Reafirmar a centralidade da Atenção Básica, mais uma vez, é a chave — agora também diante do clima. Quando a emergência se instala, é a Força Nacional do SUS que sustenta a continuidade da assistência, inclusive a saúde mental, nos territórios atingidos.
A inovação que interessa: da unidade reforçada ao ecossistema sociotécnico

Está aqui o salto conceitual mais potente da proposta. A unidade de saúde resiliente deixa de ser pensada como um prédio “reforçado” e passa a ser compreendida como um ecossistema sociotécnico integrado — onde infraestrutura física, sustentabilidade, inteligência predial, sistemas digitais, governança regional e modelos de cuidado operam de forma articulada. Uma infraestrutura rígida e solitária sucumbe rápido ao choque climático; uma infraestrutura concebida em rede distribui o impacto e redireciona fluxos.

Na prática, isso combina um repertório que vai do antigo ao inédito: zoneamento bioclimático que respeita cada bioma; design adaptativo com plantas que se reconfiguram durante o evento; autonomia energética por microrredes que combinam geração solar, baterias e geradores, capazes de operar “ilhadas” quando a rede cai; autonomia hídrica de no mínimo 72 horas; e soluções passivas — sombreamento, ventilação cruzada, arborização — antes de recorrer ao ar-condicionado.

 Sustentabilidade, aqui, é também segurança sanitária.

Há ainda o reconhecimento de que resiliência nem sempre é concreto fixo. Unidades modulares, móveis e as Carretas da Saúde – diagnóstico por imagem, saúde da mulher, oftalmologia, odontologia – levam o cuidado especializado a territórios amazônicos, ribeirinhos, quilombolas, indígenas e a pequenos municípios onde a obra fixa é inviável. Não substituem a base territorial: potencializam-na como componente ativo de uma política de cuidado capilarizada, resiliente e socialmente justa.

No horizonte tecnológico, os Projetos de Referência do Novo PAC Saúde já nascem em modelagem digital (BIM), abrindo caminho para gêmeos digitais — réplicas virtuais que, conectadas a sensores e a Centros de Saúde e Clima, monitoram em tempo quase real temperatura, qualidade do ar, níveis de reservatório e desempenho energético, antecipando falhas e disparando protocolos antes do colapso. Mais de R$ 30 bilhões do Novo PAC Saúde financiam mais de 2.600 UBS, 100 policlínicas, 34 maternidades e mais de 300 CAPS que já incorporam, desde o desenho, esses critérios.

Sem disputa, não há resiliência

Seria ingênuo, porém, tratar tudo isso como caminho garantido. A própria proposta reconhece, com honestidade, as barreiras: a descontinuidade política entre governos; a tensão entre as agendas de meio ambiente, saúde e economia; a lacuna regulatória nacional para tornados e ventos severos; o subfinanciamento crônico; a rotatividade de gestores que apaga a memória institucional; e a fragilidade das instâncias colegiadas regionais em boa parte do país.

Há ainda o velho dilema do CAPEX (Capital Expenditure ou Despesas de Capital) que se refere aos ativos fixos, como os bens físicos contra o OPEX (Operational Expenditure ou Despesas Operacionais): blindar uma edificação custa mais na obra, mas é amortizado ao longo da vida útil pela economia em operação, manutenção e recuperação pós-desastre. Sustentar a resiliência exige, portanto, mudar o próprio horizonte de cálculo do investimento público – do custo inicial para o custo total de propriedade.

É essa a aposta política do Brasil. Diante de um sistema universal, de dimensões continentais e governança federativa, a experiência brasileira oferece uma arquitetura transferível para outros países das Américas e do mundo – uma demonstração concreta de que é possível posicionar a infraestrutura de saúde como política estruturante de adaptação, equidade e proteção da vida.

O recado da Saúde Coletiva permanece o mesmo, agora sob o céu instável do Antropoceno: defender a integração regional, a gestão qualificada e a centralidade da Atenção Básica é a única forma de garantir que a saúde pública no Brasil siga sendo instrumento de cidadania ativa – e a base material para o bem viver. Construir um SUS resiliente como caminho sem volta não é apenas ampliar a resposta às crises: é ampliar o valor social da saúde e reafirmar, em tempos de colapso ambiental, que o cuidado é um direito que não pode ser interrompido.Nota: Pronunciamento do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na COP30, realizada no Brasil, em 13/11/2025


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