O QUE PODE ACONTECER NO IRÃ SE OS EUA INVADIREM O PAÍS POR TERRA?

História de Yuri Ferreira

Enquanto o mundo acompanha as tensões no Oriente Médio, com mais de 50 alvos militares atingidos na ilha de Kharg e explosões no terminal petrolífero iraniano, crescem os temores de que os Estados Unidos avancem para uma eventual invasão do Irã. As declarações de Trump afirmando que vai “matar uma civilização” acendem o alerta máximo.

Mas quais seriam as reais consequências de um movimento militar desta magnitude? E quais são as capacidades de defesa dos iranianos frente a uma tentativa de ocupação pela força?

Por que o território iraniano é um pesadelo logístico para ocupação?

O território iraniano apresenta características que transformam qualquer tentativa de ocupação em um desafio militar extremo: é montanhoso, desértico e possui infraestrutura militar descentralizada. A experiência dos EUA no Iraque e no Afeganistão, segundo analistas, não foi devidamente assimilada.

O Irã conta com vantagens estratégicas significativas:
Indústria bélica própria e desenvolvida
Sistemas de defesa aérea resilientes
Capacidade de retaliação regional através da Guarda Revolucionária
Doutrina de guerra irregular consolidada

Zhang Junshe, especialista em assuntos militares citado pelo jornal chinês Global Times, alerta que atacar o Irã por terra significa confrontar uma doutrina de defesa baseada em bunkers subterrâneos dispersos e redes de milícias regionais altamente coordenadas.

Capacidade de retaliação iraniana

Teerã já demonstrou sua capacidade ofensiva em múltiplas frentes. O país intensificou ataques a infraestruturas civis dos países do Golfo, o que pode causar aumento ainda mais intenso do preço do barril de petróleo, acelerando previsões de um crash global da economia.

Além disso, o Irã já atacou infraestrutura de tecnologia de informação, incluindo data centers da Amazon e da Oracle, e mirou investimentos da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, em Abu Dhabi.
A promessa de resposta total do Irã

Do lado iraniano, a retórica é de dissuasão total e sem margem para ambiguidades. O general Amir Hatami, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, declarou categoricamente que “no caso de o inimigo tentar uma operação terrestre, nenhum soldado inimigo deve sobreviver”.

O ministro de Relações Exteriores do Irã, quando questionado sobre uma possível invasão, foi lacônico e ameaçador: “Estamos esperando”.



Ilha Kharg em 1973. Foto: Wikimedia Commons


A ilha de Kharg: alvo crítico e armadilha militar

Uma das opções cogitadas pelos EUA seria invadir a ilha de Kharg, alvo dos bombardeios recentes. Este é um ponto crítico da estratégia iraniana: a ilha responde por 90% das exportações de petróleo do país.

Contudo, a estratégia não é simples. “Qualquer tentativa de ocupar Kharg seria próxima de uma missão suicida”, avalia Harrison Mann, ex-analista da CIA, em entrevista ao Democracy Now!.

A capacidade missilística do Irã poderia atingir facilmente os soldados responsáveis pela ocupação, causando baixas massivas para as forças militares dos EUA.
Qual é a capacidade militar dos EUA contra o Irã?

Os Estados Unidos dispõem de superioridade aérea inquestionável e mísseis de precisão que permitem atingir simultaneamente centenas de alvos. A promessa de Trump de que “uma civilização inteira morrerá hoje” não está distante da realidade em termos de poder de fogo.
                                                                                      Foto: Xinhua
Caça F-35 realiza apresentação durante o Airshow anual Wings Over Houston no Texas.

Os EUA têm capacidade para destruir infraestrutura iraniana de maneira absolutamente desproporcional, mas isso não se traduz em controle territorial efetivo. A lição do Iraque e Afeganistão permanece válida: destruir é fácil; ocupar é outra história.

Os Estados Unidos não têm capacidade para ocupar efetivamente um país de 88 milhões de habitantes, com território montanhoso e doutrina de guerra irregular. Uma invasão terrestre, se tentada, tenderia a se alongar muito além das “quatro a cinco semanas” prometidas, entrando na zona de risco de um novo “pântano” geopolítico, alertam analistas.


Malcolm Rifkind, ex-secretário de Defesa do Reino Unido, é categórico: “não há como forças americanas serem usadas para invadir um país do tamanho do Irã… seria uma situação do Iraque tudo de novo”, disse em entrevista à CNBC.
Impacto econômico: quanto custaria uma invasão do Irã?

Além do inevitável aumento do preço do petróleo e da inflação global, levando à desaceleração econômica em toda a Ásia, uma invasão terrestre do Irã traria impactos financeiros devastadores para Washington.
Custos diretos da operação

O Committee for a Responsible Federal Budget estima que as primeiras 100 horas de conflito já consumiriam US$ 3,7 bilhões não previstos em orçamento. Projeções do Penn Wharton Budget Model apontam para gastos diários de até US$ 2 bilhões em fases iniciais de escalada.

A recente operação de resgate do piloto dos EUA de um F-15, anunciada como vitória de Trump no último final de semana, revelou custos altíssimos: além da perda do caça, os EUA perderam helicópteros e aviões no domingo (5). Duas aeronaves C-130 foram detonadas pelos próprios estadunidenses após ficarem presas na areia.

                                                            Foto: Alex Brandon / Pool / AFP
Presidente dos EUA Donald Trump.

O precedente do Iraque

O precedente do Iraque é inevitável: a guerra iniciada em 2003 custou aos cofres norte-americanos cerca de US$ 6 trilhões. Uma operação no Irã — país três vezes maior em território e população — tenderia a superar esse valor, especialmente se envolver ocupação prolongada, reconstrução e indenizações.

Estratégia de resistência econômica iraniana

Analistas iranianos descrevem uma estratégia de “resistência econômica”: usar a interrupção do fluxo energético como alavanca para pressionar mercados globais e, por tabela, a opinião pública ocidental.

Ataques a infraestrutura no Golfo, minagem de rotas marítimas e retaliação cibernética compõem um repertório projetado para elevar o custo político da guerra para Washington.
Custo político: a opinião pública americana rejeita a guerra

Sem contar o apoio político interno: 61% dos americanos rejeitam a administração do conflito por Trump e 59% são contra a guerra em geral. O uso e destacamento de tropas, algo custoso para a opinião pública americana desde os fracassos em Coreia, Vietnã, Iraque e Afeganistão, teria um custo político altíssimo para a administração Trump.

Em resumo, enquanto os EUA têm capacidade destrutiva sem precedentes, ocupação territorial e vitória política são equações completamente diferentes — e muito mais complexas.

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