Estar em campo nessas condições – com cobertura majoritária que naturaliza expansão colonial, ignora apartheid na Palestina e minimiza crimes de guerra – impõe mais riscos éticos que físicos.

Acordei e fui direto para um dos 600 alojamentos improvisados em Beirute. Lá, famílias deslocadas pelas bombas de Israel me receberam com café e biscoitos, mesmo em jejum pelo Ramadã, mês sagrado dos muçulmanos. É o contraste brutal: a hospitalidade libanesa cercada pela iminência da destruição.

Passei o dia ali, entre as cerca de trezentas pessoas que, numa madrugada, tiveram que correr debaixo de bombas para escapar com vida dos ataques que atingiam suas casas. Agora, não sabem quando e se poderão voltar.

Prédios e casas têm sido inteiramente destruídos, bairros têm suas estruturas permanentemente danificadas e porções inteiras do país estão sob ameaça de ocupação e anexação por Israel.

Ouvi suas histórias, ajudei a estender roupas, presenciei as tensões e a solidariedade entre alojados, as correrias das crianças, a chegada da comida doada e a preparação cuidadosa do iftar, mesmo naquelas condições. Tudo isso pela segunda vez: em outubro de 2024, estive nesse mesmo alojamento, com algumas dessas mesmas famílias, em outro deslocamento forçado pelas bombas de Israel.

Era meu primeiro dia de volta ao Líbano, há cerca de duas semanas. Chegara na noite anterior, vindo do Brasil em uma viagem que durou mais de dois dias. O caminho usual, pelo Catar, estava bloqueado. Da janela do avião, ao ver as luzes de Beirute e o aeroporto internacional cada vez mais próximo, o clique: e se bombardearem bem agora?

O aeroporto fica colado no Dahieh, o subúrbio sul da capital libanesa, área residencial que é das mais atacadas por Israel – a média, até agora, é de seis bombardeios por dia desde a intensificação dos ataques ao Líbano em 2 de março. Não é raro que as bombas sejam lançadas em pontos bem próximos aos da decolagem e pousos das aeronaves.

A preocupação que me surgiu apenas na hora da chegada, voando no mesmo céu por onde as bombas caem, deveria ser óbvia. Mas, desde a decisão de viajar e durante todo o trajeto, a minha maior angústia vinha na forma de outra pergunta: e se eu não conseguir fazer bem feito?

Pressuposto sionista, recorte como método

A decisão de voltar ao Líbano e me dedicar integralmente à cobertura do Oriente Médio em meio a mais uma agressão israelense foi muito pensada. O Líbano é minha casa, onde escolhi viver há quatro anos e onde desde então passo a maior parte do tempo – que divido com temporadas no Brasil.

Por isso, vir neste momento não foi apenas uma escolha profissional pela cobertura de um conflito; foi também a decisão de voltar para casa e apostar na vida aqui em um momento de ataques e incertezas.

Foi apenas conversando com amigos e familiares que me dei conta de que, ao ponderar essa escolha, o risco físico de estar em campo não aparecia entre minhas preocupações (enquanto estava no topo da lista deles). Nota necessária: o risco existe, e é grande. E obviamente preocupa, especialmente quando Israel faz do assassinato deliberado de jornalistas prática cotidiana no Líbano, seguindo o roteiro aplicado em Gaza.

O que quero dizer é que, nesse terreno, as coisas estavam bem resolvidas para mim: tenho contato com centenas de jornalistas que estão aqui no Líbano neste momento em campo, o que ajuda a entender o que é possível ser feito; sei quais riscos estou disposta a correr; consigo estimar as chances de se agravarem e o que fazer nesse caso; tenho ferramentas para avaliar constantemente minhas possibilidades e, mais importante, meus limites para a cobertura em campo.

Mas e quanto ao fazer bem feito? Ocupação, limpeza étnica e genocídio são feitos a muitas mãos, e nem todas pegam em armas ou acionam bombas. A mídia ocidental, de maneira majoritária, escolhe cotidianamente ser parte ativa da legitimação do genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza e, mais amplamente, da política expansionista do estado de Israel.

Introjeta os fundamentos do sionismo, uma ideologia racista e colonial, como um ponto de partida inquestionável. Desenvolve, a partir daí, uma cobertura factual que tem no recorte o seu método fundante, com notícias tão abundantes quanto fragmentadas – sempre desconexas da formação e constituição do regime de apartheid colonial, baseado em limpeza étnica, que Israel impõe à Palestina há 78 anos e que atua declaradamente para ampliar na região.

É aí que reside o maior desafio. A contraposição a esse tipo de cobertura não é uma tarefa individual – e tampouco apenas narrativa. Há muitos colegas dedicados a esse esforço, mas nenhum de nós vai, isoladamente, resolver o problema. Contar as histórias de maneira diferente, atentar para a linguagem, aos personagens, ao contexto, tudo isso é muito importante.

Mas é preciso também encontrar uma forma diferente de fazê-lo, que escape dos modelos que servem à fragmentação – e estar permanentemente vigilante a uma dinâmica que nos estimula a fazer o exato oposto do que pretendemos.

O desafio ético é maior

A velocidade dos acontecimentos é avassaladora. Números de mortes, de pessoas feridas e de deslocados são atualizados a todo instante. Checa-se o avanço de tropas, confrontos em terra, territórios tomados – foram mesmo? Ou é propaganda? Enquanto se documenta os estragos causados por uma bomba, caem mais uma, duas, três.

E chegam declarações e anúncios de líderes – ou arquitetos da destruição – que precisam ser repercutidos, com o devido cuidado e critério para que não nos tornemos seus meros porta-vozes.

O som dos drones sobre nossas cabeças é quase permanente. Irrita, desorienta e dá raiva. A guerra psicológica – com explosões sonoras que parecem bombas reais – não nos deixa esquecer por muito tempo onde estamos. E há o som das explosões – ouvidas mesmo fora das áreas de bombardeios. Tudo no Líbano é muito perto.

Tudo isso junto ao ritmo frenético das redes sociais, com sua lógica controlada pelos algoritmos das big techs que são parte dessa mesma engrenagem. Há que se falar imediatamente, a quente, de forma rápida e de um jeito que impulsione a entrega do conteúdo. Aprender a jogar no campo do inimigo, com regras que não conhecemos, criadas e controladas por eles.

Nessas condições, como garantir que não vamos incorrer na fragmentação, na falta de contexto, na banalização dos números, mesmo dedicados a fazer justamente o oposto disso?

Na dinâmica produtiva de notícias, é fácil ser tragado para a lógica que se pretende combater. Nas redes sociais, mais ainda. Ninguém duvida de que estar ali é fundamental. Mas como não transformar a dor em espetáculo? Como fugir da busca permanente por protagonismo, ineditismo e autopromoção, que transforma repórteres em personagens fabricados e esvazia contextos e histórias?

Como não deixar que a ansiedade nos coloque em risco e exponha outros colegas em campo? A sensação de que não se está fazendo o suficiente é constante. Sempre fica algo de fora, sempre há mais a dizer, somos sempre muito pequenos diante da imensidão da tarefa. Lidar com essa frustração permanente, entender os tempos e limites vira questão de sobrevivência. Um impulso desmedido pode custar muito.

A tudo isso, somam-se os desafios operacionais. Cobrir um conflito em campo demanda estrutura – e dinheiro. No caso do Líbano, atravessado por uma crise econômica desde 2019 e uma brutal desvalorização da moeda local, demanda dólares.

Sem financiamento, não há como ter acesso a produtores locais e tradutores que facilitem a circulação na linha de frente dos ataques, a equipamentos de proteção individual – coletes e capacetes, que deveriam ser de acesso básico, se tornam itens de luxo – e ferramentas básicas de trabalho, como assinatura de jornais, microfones, câmeras, gravadores e outros.

E quem financia o jornalismo que está do outro lado do poder econômico?

Não há receita pronta. Fazer contra-informação é apostar no jornalismo como ferramenta de contraposição ao poder, de exposição de injustiças e baseada no interesse público.

Não é um escudo para erros, mas um esforço coletivo e permanente contra a barbárie, que nos orienta a cada mínima escolha. “Pulando pra não ser preso pelas cadeias da intriga”, disse Gil em Viramundo – sigo do Líbano atenta para que minha mão não seja mais uma, entre tantas da imprensa, a viabilizar o genocídio.

Você sente essa fragmentação da realidade quando assiste ao noticiário tradicional sobre o Oriente Médio?



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