BELEZA DO MARIDO MORTO ENCANTA ESPOSA

Dias atrás, às 3h da madrugada, recebemos mensagem de senhora, amiga da nossa família, de que o marido estava passando mal. De súbito, fomos ao encontro.

 O corpo estava estendido no chão, sem respiração, no escritório do apartamento. Chamamos o SAMU. 

Menos de dez minutos, chegaram os agentes da vida, mas constataram que estava morto, lamentaram nada poder fazer, e se despediram. Pedimos o documento do falecido, telefonamos para o médico da família e à funerária.

Convidamos, por nossa conta, profissional tanatólogo, pessoa conhecida de longa data, para preparar o corpo. De comum acordo, foi decidido que o velório seria das 9 às 17h.

 A esposa e a filha foram primeiras pessoas a adentrar na capela mortuária. Em pranto, as primeiras palavras da mulher: “Amor, você está lindo. Não pude fazer nada por você.” O monólogo desesperador da senhora com seu companheiro morto estendeu-se por minutos tristes, originais, sinceros, como acontece na maioria das vezes no primeiro encontro de jovens apaixonados, mas tardios. Isso serve de alerta para todos.

Fisicamente, nenhum ser humano nasce para morrer, mas sabemos que vamos partir, nem na véspera, nem no dia seguinte. A vida terrestre é passagem instável, indefinida. Não há ano, mês, dia e hora para o céu recolher sentimentos, pensamentos, ações e obras de santos da terra. Nossa expectativa era de que a mulher dissesse ao parceiro no caixão: Valeu termos vivido diuturnamente nossa união com amor, afeto, respeito, alegria, companheirismo, renúncias, lealdade, amizade, caridade, trabalho, aperfeiçoamento, prazeres, bem estar, fidelidade, fé, esperança.

Hoje, amanhã e sempre, a saudade transporta sentimentos solenes. A saudade é denominador entre o ter feito e o estar arrependido por não ter feito. Por meio dos sentimentos que expressamos ou guardamos, credenciamos a razão e autorizamos a consciência a nos aplaudir pelo bem que fizemos ou a nos culpar e punir pelos erros e males que cometemos. Às vezes, erramos mais por omissão do que por ação. A saudade está sempre duelando dentro de nós, por ser ponto central dos hemisférios do coração e da razão, dos valores e das crenças, da vivência e das lembranças cunhadas no interior.

Pedro Antônio Bernardi, professor, jornalista e economista.

(pedro.professor@gmail.com)

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