quinta-feira, 27 de abril de 2017

O QUE LEVA JOVENS A INICIAR NO BALEIA AZUL?

Por que os adolescentes se expõem aos riscos do Baleia Azul e como conseguem driblar a vigilância dos pais? Psicóloga sugere reflexões e ações por parte de pais e educadores



Sylvia van Enck Meira*

Desde o início de abril, as mídias vêm divulgando notícias sobre os riscos do uso de um jogo virtual chamado “Desafio da Baleia Azul”. Com terreno bastante fértil entre os adolescentes, o jogo – criado na Rússia, em 2015, e recém chegado ao Brasil – vem causando muito temor entre famílias e educadores.

O “Desafio da Baleia Azul” começa a partir de um convite enviado pelas redes sociais (WhatsApp ou Facebook) por um administrador ou curador, nome dado aos organizadores do jogo. Uma vez aceito o desafio, começam as trocas de mensagens com tarefas que devem ser cumpridas pelo jogador.

A partir desse momento, o participante é coibido a não desistir do jogo sob pena de punições a si próprio e aos familiares e amigos, já que os organizadores têm acesso aos seus dados pessoais.

Ao todo, são 50 desafios sendo o último o suicídio. Há outras tarefas que consideram por exemplo, assistir filmes deprimentes e de terror durante a madrugada, estimulando sentimentos de menos valia e a depressão. Os jogadores recebem o desafio do dia às 4h20. Sequencialmente, eles se tornam mais perigosos, inserem técnicas como a automutilação e estimulam a privação do sono, simulando etapas preparatórias para o objetivo final.

Nos perguntamos por que muitos adolescentes se expõem aos riscos? Como conseguem driblar a vigilância paterna?

É sabido que a fase adolescente está ligada à busca de identidade pessoal e, muitas vezes, os jovens sentem-se melancólicos e solitários. Eles estão num momento precioso de buscas de novos referenciais e, pertencer a um grupo, passa a ter importância fundamental.

Temos observado que, cada vez mais, as pessoas têm se utilizado dos recursos tecnológicos e de seus benefícios. No entanto, no os filhos, sobretudo os menores de idade, carecem de supervisão paterna frequente.

Na medida em que os próprios adultos se mantém conectados aos aparelhos é comum surgir a dificuldade de estabelecer limites às crianças e adolescentes, inclusive no que diz respeito ao cumprimento das atividades de rotina. Frente a este cenário, as relações familiares se tornam superficiais, distanciadas.

O “Desafio da Baleia Azul” sugere reflexões e ações por parte de pais e educadores para:

— Atentar às mudanças no comportamento dos jovens, dentre eles mudanças nos hábitos de rotina (alimentação, sono, vestuário, falta às aulas, isolamento) e no humor;
— Abrir espaço para o diálogo sobre diferentes assuntos;
— Acolher, ouvir o que o adolescente tem a falar sobre si, sobre seu mundo de relações e incertezas;
— Orientá-lo acerca dos riscos do uso de jogos que podem colocar sua vida em risco;
— Estimulá-lo e valorizar suas competências e interesses genuínos;
— Estabelecer limites de forma coerente e consistente.

*Sylvia van Enck Meira é psicóloga clínica. Mestre em Psicologia Clínica. Especialista em Terapia Familiar e de Casais. Terapeuta Comunitária. Psicóloga do Ambulatório dos Transtornos do Impulso no Programa de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.

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