quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ESTAMOS NO INÍCIO DO FIM DE UMA ERA?

Imagem: Mídia Ninja


Luís Felipe Machado de Genaro*

“O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios opostos aos seus”. Ao redigir O Destino Nacional em seu O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro denuncia com fulgor a maneira como a sociedade brasileira se estruturou historicamente – desigual e injusta para a grande maioria de sua gente.

Darcy conhecia bem os donos do atraso. No fim de sua vida admitiu ter falhado em todos os âmbitos de seu trabalho, fosse como professor, como político ou antropólogo. Falhou pela dificuldade de atravessar os obstáculos impostos por eles. No conhecido desfecho de sua fala, admite, no entanto, que odiaria estar no lugar daqueles que o haviam vencido.

Rememorar Darcy Ribeiro em uma conjuntura tão intensa como a que vivemos é como submergir de um afogamento, mesmo que de forma abrupta e rápida, em águas tão agitadas. Assistimos recentemente a um processo parlamentar–jurídico–midiático de caráter conspiratório – ou golpista, como preferirem – contra a presidenta eleita Dilma Rousseff.

O “projeto de país” iniciado com a ascensão de Lula e o Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2002, chegou ao seu fim. Projeto esse que contou com deslizes e traições à sua base quase inomináveis, mas que por outro lado empreendeu esforços diversos nos campos social e democrático nacional. Antes, como conceituou Paulo Henrique Martinez, existia o PT contra a ordem. Depois, o PT dentro da ordem. E dentro da ordem estavam as elites arcaicas – fundiárias, midiáticas e políticas – juntamente com a velha burguesia parasitária. Dentro das estruturas de poder, tudo mudou.

As contradições do período petista são inúmeras e a esquerda brasileira durante todo o tempo esteve nele gravitando. Hoje, com o carcomido PMDB de volta ao poder, e com ele uma agenda de retrocessos sociais e trabalhistas que estão longe do período petista (no passado, claro), o país volta a enfrentar antigos dilemas. Dilemas que jamais foram postos de lado, mas que durante um governo de centro-esquerda ficaram estagnados perante o seu “projeto de país” mais inclusivo que excludente.

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É sabido que muitas permanências foram ignoradas pelo Partido dos Trabalhadores, outrora pautas principais de suas diretrizes partidárias. Imagino ser o momento presente, de perigos iminentes às classes oprimidas e vulneráveis, a hora-chave das forças sociais combativas se reagruparem. Importante refletirmos juntos as possibilidades deste reagrupamento que aos poucos se faz e se fortalece nas ruas, movimentos, coletivos e protestos de massa.

É certo que, como escreveu Paulo Eduardo Arantes, “o spray de pimenta e a bala de borracha”, desde os tempos obscuros da ditadura civil-militar, permanecem. A última manifestação ocorrida em São Paulocontra o presidente ilegítimo Michel Temer comprova o que o filósofo expressa. As Jornadas de Junho de 2013 e tantos outros protestos de massa também (é bom lembrar: mesmo em governos petistas). Entre governos no correr do séc. XX e início do XXI, a máxima de Washington Luís, “povo na rua é caso de polícia”, nunca pareceu tão atual.

Antonio Gramsci conceituou interregno um momento onde o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu. Estaríamos no inicio do fim de uma era – talvez da Nova República gestada pela conciliação de classes desfechada com o fim do período ditatorial, resultando na Constituição de 1988. A hora-chave para reorientarmos o Destino Nacional que profetizou Darcy Ribeiro, numa “civilização mestiça e tropical, orgulhosa de si mesmo”, é agora.

Reagrupar as forças sociais combativas, os coletivos periféricos, os partidos e intelectuais à esquerda, rever os entraves e corporativismos dos movimentos sociais históricos, dos campos e das cidades, pensar o país nas universidades e centros de pesquisa, e enfrentar a muralha reacionária econservadora que se ergue de forma feroz e até mesmo radical. Ou isso, ou novo nascerá deformado. Piorado. Retrocederemos décadas. Só então poderemos dizer, de fato, que trilhamos agora o início do fim.

*Luís Felipe Machado de Genaro é historiador, mestrando pela UFPR e colaborou para Pragmatismo Político

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