segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"SEM O ESTELIONATO ELEITORAL NÃO HAVERIA IMPEACHMENT", AVALIA MAGNOLI.

   O recado do editor
          
Sei que soa antipático atirarmos na cara de alguém o conhecido "eu não disse?". 

Ofende a quem não escutou nossa advertência e também àqueles que gostam de tal pessoa e com os pertencentes ou simpatizantes da corrente à qual ela eventualmente pertença.

 Paciência. Desta vez vou ser menos diplomático e mais verdadeiro. 

Em sua coluna semanal, Demétrio Magnoli, acertadamente, apontou o estelionato eleitoral da campanha de reeleição de Dilma como a principal causa de sua derrocada atual, pois desmascarou-a, aos olhos do povo, como alguém capaz até de mentir, prometer o que não pretendia cumprir e fazer os eleitores de otários para atingir seus fins.

Quero, então, lembrar que fui o primeiro a alertar os petistas de que não deveriam satanizar uma adversária do nosso campo, tratando-a como inimiga.

A verdade e a moral revolucionária atropeladas: Goebbels não faria melhor, nem diferente. 

Foi neste artigo de 15/08/2014, antes mesmo de os Goebbels tupiniquins partirem para o jogo pesado mais imundo de uma campanha eleitoral brasileira em todos os tempos, começando por trombetearem que uma simpatizante de Marina seria banqueira do Itaú (daí derivando a falsidade de que a tal Neca Setúbal lhe trazia o apoio daquele grupo financeiro), quando sabiam muito bem que ela jamais ocupara cargo nenhum no banco, não passando de uma herdeira ociosa à cata de belas cruzadas para preencher sua vida – tal como fizera em 2012, ao ajudar a eleger opetista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo.


E, quanto mais o PT investia na desqualificação falaciosa, mais eu a desmascarava e denunciava. Não me escutaram e o resultado está aí. Nem sempre quem concorda com tudo, inclusive com práticas repulsivas como estas, são os que prestam o melhor serviço. (Celso Lungaretti)


Por Demétrio Magnoli





TORÇO PARA QUE DILMA EXAMINE AS CAUSAS DE SUA QUEDA


Presidenta Dilma Rousseff, lembro-me, como todos, de sua promessa de abril: "Se eu perder, estou fora do baralho". A derrota, sabemos, já aconteceu; o Senado apenas a oficializará. Torço para que, fora do baralho, examine as causas de sua queda.

Não culpe os outros (golpe das elites) ou as circunstâncias (crise internacional). Investigue seus erros, sobretudo um, que interessa ao futuro da convivência democrática no Brasil. Refiro-me ao sectarismo. Mais que às pedaladas fiscais ou ao escândalo na Petrobras, sua derrota final deve-se ao sectarismo.

O sectário, no sentido que aqui interessa, é o militante convicto, intolerante, de uma doutrina faccional. No fracasso de sua política econômica encontram-se as raízes do impeachment. Não lhe faltaram alertas: diversos economistas sérios avisaram que o voluntarismo estatal conduziria à inflação, ao déficit, à dívida, à erosão da produtividade e, finalmente, à depressão.


Sua resposta sistemática, e a dos seus, foi rotulá-los como agentes de interesses antipopulares: serviçais das altas finanças ou do imperialismo. Não teria sido apropriado enxergar aqueles economistas liberais como brasileiros tão bem-intencionados quanto os economistas desenvolvimentistas que a cercavam? Mas o sectário concentra-se nos motivos supostos, não nas ideias, dos que o criticam.

O sectário acalenta certezas fulgurantes, que acabam por cegá-lo: a divergência aparece a seus olhos como traição. Daí, num passo imperceptível, ele cruza o limite que separa o debate legítimo da difamação. Campanhas eleitorais são embates amargos, mas devem curvar-se a certas regras implícitas.

Recordo-lhe a peça publicitária de sua campanha que fazia de Marina Silva uma conspiradora associada aos banqueiros numa trama destinada a roubar a comida da mesa dos pobres. O castigo veio a galope, em sua peregrinação até o Bradesco para convidar Joaquim Levy a ocupar o cargo de czar econômico do governo. Sem o estelionato eleitoral, um espetáculo lancinante de desonestidade, não haveria impeachment.

Meu partido, certo ou errado! O sectário presta lealdade à sua seita, mesmo à custa da deslealdade com as leis e com o conjunto dos cidadãos. Sua tentativa de transferir para o STF as investigações judiciais sobre Lula, por meio da nomeação do investigado à Casa Civil, definiu seu destino. O mandato terminou ali, quando os brasileiros concluíram que, transformando o Palácio em santuário de um poderoso político às voltas com um juiz, a chefe de Estado rebaixava-se à condição de chefe de facção.
Na saga da resistência ao impeachment, difundiu-se a célebre fotografia da jovem Dilma, em novembro de 1970, perante os juízes de um tribunal militar. A estratégia de marketing, que empolgou seus fiéis, investe numa reiteração (o impeachment como reprodução da perseguição política da ditadura) e numa permanência (a Dilma do presente como extensão da Dilma do passado).

A reiteração é farsesca, pois borra a cisão entre ditadura e democracia. A permanência é verdadeira, num duplo sentido: se a coragem de antes não desapareceu, perenizou-se também a chama sectária inerente aos militantes da luta armada. No fim, a tal fotografia ilumina retrospectivamente sua presidência por um ângulo imprevisto, invisível aos olhos dos marqueteiros.

O sectário atribui significados transcendentais a seus caprichos – e, se puder, impõe obediência geral a eles. A circular que obrigava seus subordinados a usar a palavra "presidenta" jamais serviu à causa dos direitos das mulheres, mas criou uma fronteira de linguagem entre a militância petista e os demais cidadãos.

Nunca a tratei assim, enquanto sua assinatura tinha o peso do poder. Hoje, faço a concessão. Presidenta Dilma, fora do baralho, esqueça Getúlio Vargas e Jango: pense nos seus erros.

Náufrago da Utopia

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