quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A família dos políticos

A vida pessoal dos políticos tem importância, claro, pois o ser humano não consegue separar de todo a sua casa com o seu gabinete. Essa importância, no entanto, é limitada ao que pode influenciar na sua índole.

Michel Temer e família (reprodução)

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Com grandes índices de rejeição, apesar dos esforços do Instituto Datafolha em mostrar o contrário, o Presidente Interino (leia golpista) Michel Temer chamou a imprensa pra noticiá-lo buscando, junto com a esposa, o filho na escola. Isso é, queria fazer uma estratégia de márquetim mostrando que por detrás do homem que quer fazer os assalariados trabalharem até os setenta anos, lhes tirar o pouco amparo que ainda lhes restam – a CLT -, e desvincular gastos mínimos que o governo tem que investir em educação e em saúde,entre outros, há um pai e marido amoroso e atencioso.

Na campanha a governador do Rio Grande do Sul em 2014, o então candidato José Ivo Sartori quis se desvincular da pecha de político, como se isso fosse demérito, ao dizer que seu partido não era o (golpista) PMDB, mas o Rio Grande. Mais do que isso, não se furtou em mostrar na propaganda de tevê, diversas vezes, a sua mãe, que, até aonde se sabe, nada tem a ver com política. Era mesmo o ensejo, já que o candidato tinha por estratégia a sua repugnância. Seu principal adversário, o candidato Tarso Genro, tinha por mãe (ela faleceu pouco depois das eleições) a senhora Elly Herz Genro. Elly sim fora uma política atuante, tendo lutado contra a nefasta ditadura militar brasileira. Em nenhum momento, no entanto (se aconteceu, desconheço), o candidato do PT fez alusão a isso. Na verdade, Tarso não citou a sua família na sua propaganda eleitoral em qualquer momento.

Nas últimas eleições às prefeituras, em 2012, um candidato aqui da região pedia votos: “eu sou Fulano. Marido da Ciclana. Pai da Beltrana. Aquele que vocês encontram na missa todos os domingos de manhã.” Ora, quer dizer que entre os pré-requisitos pro sujeito ser um bom governante estão ter esposa, filhos e uma religião. A falta de qualquer um desses elementos é motivo de desconfiança. E se o camarada for homossexual, sem filhos e ateu, por exemplo, não deve passar nem na convenção partidária.

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A vida pessoal dos políticos tem importância, claro, pois o ser humano não consegue separar de todo a sua casa com o seu gabinete. Essa importância, no entanto, é limitada ao que pode influenciar na sua índole.


Apresentar-se como um bom pai, marido, filho e religioso como se só isso bastasse pra comprovar sua idoneidade mostra justamente o contrário. Exibe que, ao que parece, o político em questão não sabe fazer algo crucial pra boa administração da coisa pública, a separação do público e do privado.

Talvez a Presidenta afastada (leia golpeada) Dilma Rousseffi devesse chamar a imprensa e apresentar seu novo namorado, um viúvo cristão e integrante do seleto grupo de Cidadãos de Bem Deste País. Depois, poderia deixar-se filmar brincando com os netos enquanto fizesse tricô. De repente, com isso, a população que não apoia o impeachment (leia legalistas) aumentasse.

*Delmar Bertuol é escritor, professor de história, membro da Academia Montenegrina de Letras e colaborou para Pragmatismo Político

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