quarta-feira, 27 de julho de 2016

CIENTISTAS OBSERVAM OS PRIMEIROS SINAIS DE RECUPERAÇÃO NA CAMADA DE OZÔNIO

camada de ozonio

Cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT) e outros lugares têm identificado as “primeiras impressões digitais de recuperação” da camada de ozônio da Antártida. Segundo o artigo publicado na revista Science, a equipe descobriu que o buraco de ozônio de setembro passado encolheu em mais de 4 milhões de quilômetros quadrados – uma área equivalente a metade do Brasil – desde 2000, quando a destruição do ozônio estava em seu auge.

A equipe também mostrou pela primeira vez que esta recuperação diminuía um pouco em alguns momentos, devido aos efeitos de erupções vulcânicas de ano para ano. Em geral, no entanto, o buraco de ozônio parece estar no caminho da recuperação.


Os autores utilizaram “impressões digitais” das mudanças de ozônio com estações e altitude para atribuir a recuperação do ozônio ao declínio contínuo do cloro atmosférico proveniente de clorofluorcarbonos (CFCs). Estes compostos químicos eram emitidos por processos de lavagem a seco, geladeiras velhas e aerossóis, como sprays para o cabelo. Em 1987, praticamente todos os países do mundo assinaram o Protocolo de Montreal, em um esforço concertado para proibir o uso de CFCs e reparar o buraco de ozônio.

“Agora, podemos ficar confiantes de que as coisas que fizemos colocaram o planeta no caminho da recuperação. O que é muito bom para nós, não é?”, afirma a principal autora do estudo, Susan Solomon, professora de Química Atmosférica e Ciência do Clima no MIT, ao site Phys.org. “Não somos seres humanos incríveis, que fizemos algo que criou uma situação e decidimos coletivamente, como um mundo, ‘Vamos nos livrar dessas moléculas’? Nós nos livramos delas e agora estamos vendo a resposta do planeta”.

A equipe de Solomon inclui Diane Ivy, cientista de pesquisa no Departamento de Terra, da Atmosfera e Ciências Planetárias, pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado, e da Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Medidas de outubro

O buraco na camada de ozônio foi descoberto usando dados baseados em terra, que começavam na década de 1950. Por volta de meados dos anos 1980, os cientistas do British Antarctic Survey notaram que o ozônio total de outubro estava caindo. A partir de então, os cientistas em todo o mundo normalmente acompanham a destruição do ozônio usando medidas de outubro do ozônio da Antártida.

O ozônio é sensível não só ao cloro, mas também à temperatura e à luz solar. O cloro corrói o ozônio, mas apenas se a luz estiver presente e se o ambiente for frio o suficiente para criar nuvens estratosféricas polares em que a química do cloro pode ocorrer – uma relação que Solomon foi a primeira a caracterizar em 1986. As medições mostraram que a destruição do ozônio começa todo ano no final de agosto, à medida que a Antártida emerge de seu inverno escuro, e o buraco está completamente formado no início de outubro.

Solomon e seus colegas acreditavam que teriam uma imagem mais clara dos efeitos do cloro analisando o início do ano os níveis de ozônio em setembro, quando as temperaturas frias do inverno ainda prevalecem e o buraco de ozônio está se abrindo. A equipe mostrou que, como o cloro diminuiu, a taxa à qual o buraco se abre em setembro desacelerou.

“Eu acho que as pessoas, inclusive eu, tinham focado muito em outubro porque é quando o buraco de ozônio está enorme, em toda sua glória”, conta Solomon. Porém, segundo ela, outubro também está sujeito a variáveis como pequenas alterações em meteorologia. “Setembro é o melhor momento para observar porque a química do cloro está firmemente no controle do ritmo em que os buracos se formam naquela época do ano. Esse ponto não tinha sido bem explorado no passado”.

Uma tendência de cura

Os pesquisadores acompanharam a abertura anual do buraco antártico no mês de setembro, de 2000 a 2015. Eles analisaram medições do ozônio retiradas de balões meteorológicos e satélites, bem como medições de satélite do dióxido de enxofre emitidos por vulcões, o que também pode aumentar a destruição do ozônio. Eles também rastrearam mudanças meteorológicas, como a temperatura e o vento, que podem fazer o buraco na camada de ozônio variar.

Então, compararam as suas medições anuais do ozônio em setembro com simulações de modelos que predizem os níveis de ozônio com base na quantidade de cloro que os cientistas estimaram estar presente na atmosfera de ano para ano. Os pesquisadores descobriram que o buraco de ozônio diminuiu em relação ao seu tamanho máximo em 2000, reduzindo em mais de 4 milhões de quilômetros quadrados até 2015. Eles ainda descobriram que este declínio correspondeu às previsões do modelo e que mais da metade desta redução deveu-se exclusivamente à redução no cloro atmosférico.

“Tem sido interessante pensar sobre isso em um mês diferente e analisar setembro foi um jeito novo”, conta Ivy. “[O estudo] mostrou que nós podemos realmente ver uma impressão digital química, que é sensível aos níveis de cloro, finalmente emergindo como um sinal de recuperação”.

A equipe viu uma discrepância importante na tendência: em 2015, o buraco de ozônio atingiu um tamanho recorde, apesar do fato de que o cloro na atmosfera continuou a cair. Em resposta, os cientistas tinham questionado se qualquer recuperação pudesse ser determinada. Revisando os dados, no entanto, Solomon e seus colegas perceberam que o pico de 2015 na destruição do ozônio aconteceu principalmente devido à erupção do vulcão chileno Calbuco. Vulcões não jogam uma quantidade significativa de cloro na estratosfera, mas eles aumentam pequenas partículas, que aumentam a quantidade de nuvens estratosféricas polares com que o cloro produzido pelo homem reage.

Já que os níveis de cloro continuam a se dissipar na atmosfera, Solomon não vê razão alguma para que, exceto por futuras erupções vulcânicas, o buraco de ozônio não encolha e, eventualmente, feche permanentemente até meados do século.

“O que é interessante para mim, pessoalmente, é que isso traz tanto do meu próprio trabalho ao longo de 30 anos a um círculo completo”, declara Solomon, cuja pesquisa sobre o cloro e o ozônio estimulou o Protocolo de Montreal. “A ciência foi útil para mostrar o caminho; diplomatas, países e a indústria foram incrivelmente capazes de traçar uma saída”, explica. “Agora realmente vimos o planeta começando a ficar melhor. É uma coisa maravilhosa”. [Phys.org]




Jéssica Maes

Jornalista de 24 anos, acompanha mais seriados do que deveria, é abastecida por doces e livros e sempre acreditou no Snape.

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